Doentes esperam 840 dias por novos fármacos após aprovação europeia; país pode ter 368 mil casos em 2050, um aumento de 54% face a 2025
A Associação Alzheimer Portugal promove esta quarta-feira, 22 de julho, no Refeitório dos Monges, na Assembleia da República, uma conferência que junta especialistas e políticos em torno do que considera ser uma urgência: o reconhecimento da doença de Alzheimer e outras demências como prioridade de saúde pública em Portugal. O encontro, que marca o Dia Mundial do Cérebro, conta com a presença da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, ao lado do vice-presidente do parlamento, Marcos Perestrello, e da presidente da direção nacional da Alzheimer Portugal, Rosário Zincke dos Reis, na sessão de abertura.
Os números que serviram de motor ao evento são, de resto, alarmantes. De acordo com o estudo The Prevalence of Dementia in Europe 2025, citado pela organização, o país registava no ano passado mais de 238 mil pessoas com demência – 158.544 mulheres e 79.857 homens –, o que corresponde a 2,29% da população total, uma percentagem que supera a média europeia, fixada em 1,77%. E o agravamento projetado para 2050 é brusco: uma subida de 54% na prevalência, elevando o número de portugueses afetados para perto de 368 mil, ou 3,76% dos residentes. Na Europa, o cenário também não é mais animador: mais de 12,1 milhões de pessoas viviam com demência em 2025, número que poderá ultrapassar os 19,9 milhões daqui a 24 anos, um crescimento de 64%.
Mas o que verdadeiramente inquieta os clínicos e os responsáveis da associação é o fosso entre o que a ciência já permite e o que o sistema de saúde português assegura na prática. O diagnóstico, denunciam, continua a ser tardio – os primeiros sinais são amiúde desvalorizados, quer pelos próprios doentes, quer pelos familiares, quer até por alguns profissionais. E quando o diagnóstico chega, abre-se outra batalha: a espera média de 840 dias para aceder às novas terapias, já aprovadas pela Comissão Europeia, mas cuja comparticipação nacional ainda não foi desbloqueada.
Rosário Zincke, em jeito de antecipação do debate, foi direta: “Não podemos continuar a diagnosticar tarde e a tratar tarde. As pessoas com doença de Alzheimer e as suas famílias merecem mais. Exigimos uma resposta integrada, com valorização dos primeiros sinais e acesso rápido aos melhores tratamentos que a ciência nos oferece.” E acrescentou, sublinhando a dimensão do problema: “Estimando-se mais de 238 mil portugueses afetados hoje, e com um crescimento galopante pela frente, a prioridade tem de ser a mesma que é dada a outras doenças graves.”
O neurologista Rui Araújo, um dos oradores da conferência, reforçou essa linha de argumentação, ancorando-a no valor do tempo – um bem escasso quando se fala de neurodegeneração. “O diagnóstico precoce é necessário sob vários aspetos. Por um lado, na vertente dos novos tratamentos, cuja indicação obriga a um diagnóstico preciso em fases precoces. Por outro, porque permite às pessoas uma maior autonomia e capacidade de decisão sobre as suas vidas. Dificultar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento significa privar as pessoas de uma escolha autónoma e informada.” O painel de especialistas conta ainda com Sofia Nunes de Oliveira, que abordará a prevenção, Isabel Santana, a falar das opções terapêuticas atuais e emergentes, e Jorge Félix, sobre inovação enquanto investimento em saúde.
Do lado da governação clínica, Manuel Caldas de Almeida, coordenador do Plano Nacional de Saúde para as Demências, defendeu uma mudança de paradigma, alertando que o modelo vigente está esgotado face à transição demográfica em curso. “A inação tem um custo, e estamos a pagá-lo todos os dias. O modelo atual é insustentável perante a transição demográfica que os dados confirmam. A única abordagem lógica e sustentável é investir numa estratégia nacional que integre a prevenção, o diagnóstico precoce, a capacitação de profissionais e o acesso à inovação.” Ao seu lado, Miguel Viana Baptista, diretor do Serviço de Neurologia do Hospital Egas Moniz, trará a perspetiva de quem atende diariamente doentes no Serviço Nacional de Saúde, numa lógica de linha da frente.
A parte final da conferência reserva-se ao confronto político: estão agendadas intervenções de Cristina Vieira Henriques (Chega), Irene Costa (Partido Socialista) e Joana Cordeiro (Iniciativa Liberal), num debate que se quer decisivo para arrancar compromissos concretos. A esperança da organização é que o encontro funcione como um ponto de viragem, selando um entendimento alargado para a implementação de uma Estratégia Nacional para as Demências – algo que, para muitos dos presentes, já devia ter saído do papel há muito.
A Alzheimer Portugal, fundada em 1988 pelo professor Carlos Garcia sob a designação APFADA, é a única associação de âmbito nacional, com 38 anos de existência, dedicada exclusivamente à promoção da qualidade de vida das pessoas com demência, seus familiares e cuidadores. Mais informações podem ser consultadas em www.alzheimerportugal.org. Os dados de prevalência citados têm como fonte o estudo The Prevalence of Dementia in Europe 2025, disponível em https://zenodo.org/records/18339752, consultado em julho de 2026.
PR/HN/MM
Outros artigos com interesse:
Crédito: Link de origem