Dicionários definem por herege aquele que defende ou segue doutrinas contrárias aos dogmas e verdades oficiais de uma religião. Imaginemos, então, se um esporte como o futebol, que rejeita qualquer tipo de regra, de fórmula pronta, em que um jogo seja vencido sem que se chute uma única bola no gol, estará aberto a dogmas. Este é um jogo que se permite sentir e gostar de mil formas, e que é apaixonante justamente por mexer com diferentes sensibilidades. Criar dogmas é interditar debates, e estes são a essência deste fenômeno que ganhou o mundo.
É neste ponto que ouso discordar do brilhante colega Gustavo Poli. A paixão pelo jogo e o papel que o futebol ocupa em cada fase de nossas vidas tornam natural que algumas gerações tentem proteger suas memórias afetivas. Afinal, os heróis de determinada época foram personagens centrais de algumas de suas vivências mais significativas. Cada um é livre para definir que recordações quer proteger, tratar como intocáveis. Mas não para impor que outras pessoas façam o mesmo. Há novas gerações vivendo o futebol, fazendo do jogo uma parte essencial de suas experiências.
Tudo isso para dizer que há elementos que são, de fato, intocáveis na trajetória de Pelé. Da fundação da identidade brasileira como país do futebol à condição de personalidade global antes da globalização, o atleta do século XX redefiniu o jogo e o elevou a novos patamares. Ninguém irá tirar isso dele. Mas nada disso impede que, em algum tempo, algum jogador de futebol venha a realizar, com a bola nos pés, num julgamento estritamente ligado à capacidade futebolística, coisas tão grandes quanto o Rei. Negar isso é desmerecer a capacidade do futebol de se reinventar, coibir o direito das pessoas de viverem o futebol à sua forma, obstruir discussões que são o elemento mais apaixonante do futebol. Sagrada mesmo no futebol é a liberdade de opinião.
Após 20 anos assistindo a um jogador redefinir o imaginário das pessoas sobre o que é possível fazer num campo de futebol, após duas décadas de excelência ininterrupta, combinando talento, invenção, objetividade, números, conquistas, é mais do que legítimo supor, imaginar, especular que Messi possa ter sido um jogador tão bom quanto Pelé. Ninguém deve ser considerado um herege por pensar assim.
Ainda mais porque este é um debate sem fim, inconclusivo por natureza. Não é preciso construir critérios objetivos ou racionais, tampouco achar uma resposta com precisão matemática para que a discussão seja rica. Ela precisa mesmo é existir, do contrário aceitaremos que o futebol já chegou a seu ponto máximo inatingível e nada mais será tão bom. Viveremos de resgatar imagens de VTs, porque o jogo atual não valerá a pena.
O debate é rico por não ter verdade absoluta. Mudou o futebol, mudou a forma de documentá-lo e difundir suas imagens, mudaram as possibilidades de acompanhar a carreira de um jogador. E, fundamentalmente, mudaram as pessoas que assistem ao futebol. Quem assistiu à carreira de Pelé e segue vivo para ver Messi, além de um raro privilegiado, assistiu a ambos em momentos muito diferentes da vida, da relação com o futebol. O olhar nunca será o mesmo. Não existe uma pessoa viva capaz de julgar as duas carreiras com o mesmo olhar.
Supor que Messi possa ter sido o que de mais fenomenal o futebol já produziu não reduz um pingo de valor dos feitos de Pelé. Tampouco é pecado. A magia está na incerteza, e no direito de debater.
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