Subordinação e entrega. Venezuela retorna ao FMI: a consumação financeira do protetorado colonial

“Abrimos nossas portas ao mundo”, declarou Delcy Rodríguez neste domingo, 19 de abril, para simbolizar este giro entreguista em seus 100 dias de governo, com novas leis definidas em Washington, e o retorno do país ao FMI e ao Banco Mundial; ironicamente ela o faz no dia em que se celebra a data do início do processo de independência da Venezuela em 1810. O que se apresenta como “abertura ao mundo” e “normalização financeira” constitui, na realidade, na “reinserção” da Venezuela na arquitetura do capital financeiro dominado pelo imperialismo, em um contexto marcado pelas mudanças políticas produzidas após o ataque militar imperialista de 3 de janeiro pelos Estados Unidos, e a reconfiguração do poder estatal sob um regime de protetorado neocolonial. Em outras palavras, o retorno ao FMI e ao Banco Mundial é o componente financeiro da entrega nacional.

Delcy Rodríguez: “A retomada do que nunca deveria ter sido cortado”

“Foi imposta a retomada daquilo que nunca deveria ter sido cortado”, enfatizou Delcy Rodríguez na última quinta, celebrando o retorno de um organismo que tem uma triste história da Venezuela. O levantamento do Caracaço de 1989 foi precedido das receitas do FMI: respeitando a “Carta de intenções” [ao FMI, NdT.], o governo Carlos Andrés Pérez se comprometeu com o organismo financeiro para a aplicação de medidas de ajuste em troca de um empréstimo, ou seja, endividamento. O país viviam uma enorme desigualdade social própria do capitalismo e de uma economia com muitas crises ao final dos anos 80. Organismos de direitos humanos calculam que foram 3 mil mortos nos fatídicos dias de brutal repressão contra aqueles que se levantaram contra as medidas de ajuste.

Na Venezuela, o retorno do FMI adquire uma dimensão particular porque ocorre após anos de discurso oficial “anti imperialista”. Mesmo que formalmente, a Venezuela nunca tenha abandonado o organismo, o distanciamento político com o FMI começado durante o ciclo do chavismo implicou, na prática, na saída de seus mecanismos de supervisão e financiamento. A Venezuela rompeu relações com o FMI em abril de 2007, sob o governo de Hugo Chávez, deixando de submeter sua política econômica às revisões do Fundo, e rechaçando sua intervenção direta, não se antes ter pago toda a dívida externa (no caso, ilegal) que o país tinha com o FMI e com o Banco Mundial, arquitetos das privatizações dos anos 90. Mas, para Delcy Rodríguez, estes laços “nunca deveria ter sido cortados”, e que agora “a correção se impôs” com a chegada do FMI, no mesmo momento em que os povos da América Latina o rechaçam nas ruas.

O atual regresso do FMI responde a um reordenamento imposto pelas novas condições surgidas após a ofensiva imperialista estadunidense e o novo alinhamento do governo encabeçado por Delcy Rodríguez com Washington. Em 16 de abril de 2026, o FMI e o Banco Mundial anunciaram a retomada formal de relações com o governo de Delcy Rodríguez. Horas antes, a Oficina de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro (OFAC) havia emitido as licenças gerais 56 e 57, aliviando as sanções que pesavam sobre o Banco Central de Venezuela (BCV) e sobre os bancos estatais.

O levantamento parcial de sanções por parte da OFAC – que permite novamente a operação internacional do BCV e dos bancos públicos locais – abre o caminho para “reintegrar” o país aos circuitos financeiros internacionais sob novas condições de dependência, e sempre sob a supervisão do capital internacional. É a lubrificação necessária para que o país volte a individar-se e para que o FMI supervisione a implementação de um plano severo de ajustes. Por isso, a chegada do FMI deve ser lida como parte de um novo alinhamento do governo Delcy Rodríguez com Washington.

O FMI e o Banco Mundial cumpriram durante décadas um papel central na “reorganização econômica” da América Latina, segundo as necessidades do capital transnacional, gerando dependência e aumento da desigualdade social. Desde a crise da dívida dos anos oitenta, até os programas contemporâneos de “estabilização”, estas instituições operaram como instrumentos para garantir o pagamento da dívida externa, o saqueio, a abertura dos mercados e a disciplina das classes trabalhadoras mediante planos de ajuste estrutural e repressão.

Não precisamos adivinhar o futuro

Os programas associados ao FMI implicam na redução do gasto público, eliminação de subsídios, flexibilização trabalhista e aumento do custo de vida. Onde são aplicados, emergem inevitavelmente ciclos de protesto social. Desde as mobilizações argentinas contra o ajuste, até as rebeliões chilenas, equatorianas e peruanas, se demonstra que as maiorias trabalhadoras e o povo terminam se enfrentando com governos que aplicam políticas ditadas pelo capital financeiro internacional.

A experiência argentina sob o governo Javier Milei ilustra com crueza esta dinâmica: um ajuste “motosserra” que pulverizou os salários, demitindo milhares de trabalhadores estatais e disparando a pobreza a níveis históricos sob o pretexto do déficit zero, tudo com a supervisão dirigida do FMI. O acordo de Milei com o FMI serviu como justificação para aplicar uma política de choque baseada na liquefação salarial, no desmantelamento de direitos, na privatização de empresas públicas e na transferência de lucros ao capital financeiro. Sob o discurso da “estabilidade macroeconômica”, foi encoberto um processo de redistribuição regressiva que descarregou a crise sobre os trabalhadores, aposentados e setores populares.

No Equador, o governo Daniel Noboa avança em direção similar. A subordinação aos organismos financeiros internacionais se combina com políticas de austeridade fiscal, reformas trabalhistas regressivas e crescente militarização interna. Os protestos sociais expressam o rechaço popular a um modelo que converte a dívida externa em ferramenta de controle político e social.

O mesmo padrão se repetiu no Chile, onde décadas de políticas econômicas moldadas pela ortodoxia neoliberal – consolidadas sob a supervisão de organismos internacionais – produziram um crescimento profundamente desigual que explodiu na rebelião social de 2019. Ali foi exposto que o dito “milagre econômico” escondia níveis extremos de endividamento, privatização de direitos sociais e precarização estrutural do trabalho. Peru oferece outra expressão desta mesma lógica: as sucessivas crises políticas não podem ser separadas do modelo econômico imposto com as reformas neoliberais dos 90, mantido pela abertura irrestrita ao capital internacional e por políticas fiscais alinhadas com os critérios do FMI.

Cada vez que as maiorias questionam esta ordem econômica, a resposta estatal combina repressão, criminalização do protesto e reafirmação de compromissos com os mercados internacionais. Esta é a norma. Mas Delcy ROdríguez, além de agradecer Kristalina Georgieva (diretora do FMI), estendeu agradecimentos diretos a Donald Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio por facilitarem o retorno ao FMI. “Aplaudo a decisão de retomar as relações com a Venezuela”, declarou Georgieva.

O FMI não vem sozinho: é acompanhado do ajuste, da dívida e de mais subordinação

O entusiasmo do empresariado e dos analistas neoliberais diante do retorno venezuelano ao FMI é perfeitamente coerente. Já falam de endividamento: Luis Vicente León afirma que “a reincorporação à entidade habilita a opção de coordenar um financiamento de emergência com o FMI que poderia superar os 8 bilhões de dólares”, e o representante da Conindustria, Tito López, afirmou entusiasmado: “No próximo semestre vamos ter uma Venezuela totalmente distinta”.

Não é ajuda financeira o que virá, mas uma prisão que amarra o futuro das próximas gerações aos mandos de Washington a aos organismos financeiros. Para o capital internacional, a reintegração da Venezuela representa a reabertura de uma das maiores reservas energéticas e minerais do planeta sob regras previsíveis para a inversão estrangeira. O levantamento parcial das sanções e a abertura financeira funcionam como incentivos para consolidar essa transformação, enquanto que setores empresariais buscam se adaptar ao novo cenário legitimando a tutela estadunidense.

As recentes reformas legais em matérias de hidrocarbonetos e minerais, aprovadas sob o governo de Delcy Rodríguez, inscrevem-se na lógica de abertura e de entrega. Apresentadas como mecanismos para atrair o capital e reconstruir a economia, constituem passos para a transferência de recursos estratégicos ao capital transnacional, reproduzindo o padrão histórico de dependência extrativista que caracterizou a América Latina desde o século XIX. A experiência histórica demonstra onde vão para os países sob programas de ajustes supervisionados por organismos financeiros internacionais, e isso é o que está sendo imposto na Venezuela.

A consolidação desta rota governamental configura os eixos fundamentais de um regime neocolonial. As decisões econômicas centrais ficam condicionadas por instituições financeiras internacionais, acordos energéticos e compromissos geopolíticos definidos fora do país. Por isso, afirmamos que o governo de Delcy Rodríguez não exerce soberania: administra a vontade de Washington.

O FMI é um inimigo histórico da classe trabalhadora e deve ser rechaçado

O retorno da Venezuela ao FMI e ao Banco Mundial não é o anuncio de uma saída progressiva da crise, mas um plano para reorganizar o país sob um novo pacto de subordinação internacional. Frente à esta situação, trata-se de enfrentar um modelo de entrega da soberania, e construir, desde baixo, a capacidade de se opor à nova fase de dominação imperialista que se consolida sobre a Venezuela.

A questão decisiva é a resposta da classe trabalhadora e dos setores populares. A única saída progressiva passa por rechaçar a tutela do FMI e do Banco Mundial, defender os recursos naturais sob controle dos trabalhadores, rechaçar o endividamento externo, e construir uma política independente dos trabalhadores, com um programa anti imperialista e anticapitalista.

Frente ao regime neocolonial e o protetorado, a classe trabalhadora deve levantar a bandeira da luta de classes frente à guerra que nos é declarada. Frente à entrega nacional, só a mobilização e a auto organização dos trabalhadores pode oferecer uma saída que não seja a submissão total ao capital financeiro internacional. Fora imperialismo yankee da Venezuela! Não ao FMI! Abaixo os planos e as leis de entrega de Delcy Rodríguez!


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