Yanick Lahens revisita a conturbada história do Haiti em ‘Banho de Lua’

 “Quando o mar e o vento ainda sopram baixinho ou a plenos pulmões os seus nomes de espuma, fogo e poeira. Quando as águas já traçaram uma borda na margem clara do céu e cegam com explosões azuladas. E o sol se levanta como um dom ou esmaga como uma fatalidade.” A inspirada passagem de “Banho de lua” (Bazar do Tempo) simboliza um dos eixos da narrativa da escritora haitiana Yanick Lahens: a comunhão entre os personagens de uma saga familiar que atravessa gerações e as características singulares da nação caribenha. 

A partir de Baía Azul, vilarejo de pescadores, e com protagonismo feminino, a autora traça o destino de duas famílias crescidas “entre o mar e a terra quente e rochosa” e que aprenderam, desde cedo, “a decifrar os signos do céu, compreender a língua das águas e o alfabeto dos ventos.” Neste cenário, há enfrentamentos, alguns deles brutais. Mas há também a força da crença em divindades e na ancestralidade, capaz de interferir – e resistir – à crueldade e à barbárie. Quem saiu encantado da leitura de “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, vai mergulhar de cabeça em “Banho de lua”. E ainda conhecer, por meio da ficção, episódios marcantes da conturbada história política do país. 

“O livro é, de fato, uma saga que revisita a história do Haiti durante o século 20. Não do ponto de vista do que se chama de “história oficial”ou do olhar descentrado do etnólogo. É o vilarejo que conta a si mesmo e que nos diz como nos vê. É por isso que muitas passagens estão na primeira pessoa do plural. É uma fala coletiva”, afirma, em entrevista ao Estado de Minas, a autora Yanick Lahens. 

“A narrativa, que evoca quatro gerações de uma família de camponeses do Haiti, é marcada pelo anseio de enaltecer a história do país por meio das memórias que não devem ser perdidas”, pontua, na apresentação do livro, a professora Margarete Nascimento dos Santos, pesquisadora das Literaturas Caribenhas em Língua Francesa na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). 

Nascida em Porto Príncipe em 1953, Yanick Lahens fez graduação em Literatura Comparada na Universidade de Sorbonne, na França. Voltou ao seu país para lecionar na universidade da capital, onde mora. Considerada uma das mais conhecidas autoras haitianas, já lançou oito romances e participou de coletâneas de contos e ensaios. Recebeu prêmios importantes como o Femina, em 2014, e o Carbet, pelo conjunto da obra. 

“Nunca cogitei não retornar ao Haiti. É uma questão que surge com muita frequência, como se um escritor ou uma escritora não pudesse viver no Haiti. Em primeiro lugar, posso me dar ao luxo de fazer isso, mesmo não pertencendo aos oligarcas nem aos mafiosos políticos e econômicos, e não vivo em um bairro devastado pela violência ou em um acampamento de refugiados em Porto Príncipe”, conta a escritora. 

Leia, a seguir, a entrevista de Yanick Lahens ao Pensar.

O relato acompanha três gerações de uma mesma família. Em que medida essa saga familiar é também uma maneira de contar a própria história do Haiti? 

É, de fato, uma saga que revisita a história do Haiti durante o século 20. Não do ponto de vista do que se chama de “história oficial” ou do olhar descentrado do etnólogo. É o vilarejo que conta a si mesmo e que nos diz como nos vê. É por isso que muitas passagens estão na primeira pessoa do plural. É uma fala coletiva. Além disso, é também para refutar a ideia de que os povos não têm história. 

“Um mundo que nos dá tanto de nós mesmos, tributos e mulheres, que conhecemos a condição humana o suficiente para estarmos sós como os Espíritos, os Mistérios e as Imagens”, você escreve em “Banho de lua”. Como esses diálogos com o invisível são estabelecidos na cultura haitiana e como estão representados no romance? 

Sim, o diálogo com os Invisíveis pontua a vida de todos e de todas. Assim como não há separação entre os componentes do mundo vivo, há continuidade entre o mundo visível e o mundo dos Invisíveis. Os rituais, dançados ou não, e o transe permitem essa comunicação para o alto e com os outros. 

Como as personagens Olmène e Ermancia carregam as características mais marcantes das mulheres haitianas? 

Olmène e Ermancia representam a maneira como as mulheres de origem popular fazem a história por meio de vitórias cotidianas silenciosas. O silêncio é a sua arma poderosa. E a maneira como elas criaram economicamente o mercado nacional, conectando os campos aos vilarejos. 

O medo está presente em quase todos os capítulos do livro. Como o sentimento está entranhado na realidade do Haiti? 

O medo está nas próprias condições do nosso nascimento. A população saiu do medo da escravidão e da colonização para um outro medo porque, após a independência, instalouse em um outro medo devido à sua recusa radical do modelo latifundiário desenhado pelas novas elites em prol de um outro modelo de sociedade e de civilização. E hoje ela vive com o medo das gangues, um produto tanto do crime organizado transnacional quanto de seus cúmplices locais.

Um dos personagens, Orvil, descreve que “o antigo mundo desapareceu”. O que marcava esse velho mundo e esse novo mundo? 

O mundo antigo evocado por Orvil é o do século 19 haitiano, durante o qual o mundo rural majoritário estava mais ou menos fechado em si mesmo e havia construído uma civilização. A ocupação americana de 1914 marcou uma ruptura. No sentido de que as crises do mundo urbano, assim como as crises internacionais, teriam inevitavelmente mais consequências sobre o mundo rural, cujo modo de produção é desarticulado. As primeiras ondas de migração começam nesse momento. Primeiro para Cuba, nas plantações de açúcar, e depois para a República Dominicana. Esse movimento foi se acentuando em direção a outras ilhas do Caribe e depois para os EUA nos anos 80. E hoje as redes sociais trabalham os imaginários. 

O que o mar representa para os seus personagens? 

O mar tem um significado duplo. É matéria viva, habitada espiritualmente pela divindade Agwe. E toda pessoa que morre faz uma viagem sob as águas para retornar à Guiné (um nome genérico para a África). Mas o mar também carrega as lembranças do tráfico negreiro. 

Você morou em Paris antes de retornar a Porto Príncipe. Por que decidiu voltar? 

Nunca cogitei não retornar ao Haiti. É uma questão que surge com muita frequência, como se um escritor ou uma escritora não pudesse viver no Haiti. Em primeiro lugar, posso me dar ao luxo de fazer isso, mesmo não pertencendo aos oligarcas nem aos mafiosos políticos e econômicos, e não vivo em um bairro devastado pela violência ou em um acampamento de refugiados em Porto Príncipe. Se todos aqueles e aquelas que podem se dar a esse luxo (não pertencendo a essas categorias) não o fizessem, seria grave. É uma visão enviesada pela falsa medida dos movimentos migratórios no mundo. A maioria dos seres humanos habita o lugar onde nasceu. E é também porque as políticas internacionais dos poderosos consistem em tornar certos lugares inabitáveis para que outros sejam habitáveis para eles. Ficar é acreditar, a despeito dessas políticas, na “habitabilidade”de um lugar. 

Quais nomes ou livros destacaria na literatura do seu país e na literatura caribenha? 

Há tanto poesia quanto romances. Nomearei escritores e escritoras que não estão mais conosco: Jacques Roumain, Jacques Stephen Alexis, René Depestre (que comemora seu centenário), Marie Chauvet, Yanick Jean, Frankétienne, Georges Castera, Anthony Phelps (pelo Haiti). Para o Caribe francófono, Aimé Césaire, Édouard Glissant, Maryse Condé. 

Como o Brasil é visto no Haiti? E qual a sua visão? 

As relações entre o Brasil e o Haiti se fortaleceram com a chegada das tropas brasileiras em 2004. Um forte movimento migratório surgiu alguns anos depois e houve também um estreitamento dos laços culturais. O Centro Cultural Brasil-Haiti se tornou um espaço cultural central desde que os locais culturais de Porto Príncipe deixaram de ser frequentáveis por causa da insegurança. O diretor desse centro se integrou completamente ao meio cultural haitiano e os intercâmbios são notáveis. Penso que, por causa das nossas histórias, há traços culturais semelhantes. Além disso, alguns bares, às vezes, oferecem especialidades brasileiras para degustar. Eu já tinha lido literatura brasileira com fervor, mas uma curta estadia no Rio me fez descobrir uma energia que não me era totalmente estranha! 

TRECHO 

(De “Banho de lua”, de Yanick Lahens, tradução de Natália Borges Polesso) 

“Então, muito rápido, em apenas uma noite, tudo aconteceu. Pois era preciso que aquela imobilidade fosse despedaçada. Que a porta das esperas fosse aberta de um golpe brutal. Novas forças se misturaram à noite e se converteram à causa dos Desvalidos e daqueles que se consideravam inocentes. Porto Príncipe, a grande cidade, queimou numa insurgência tranquila. As labaredas altas e vermelhas se erguiam em plumas como flores desabrochando. Os facões reluziram. Os cânticos enfraqueceram e se transformaram em um burburinho de sílabas. O infortúnio parecia querer se quebrar contra os dentes da noite. E aqueles que o haviam gerado batiam-se contra suas próprias sombras. Nós os ouvimos gritar o nome de suas mães, enquanto inocentes quebravam garrafas em suas cabeças, os perseguindo, e eles caíam diante do furor dos facões sem fio. Os corpos foram queimados vivos com pneus bem amarrados ao redor dos pescoços, e as velhas acusadas de bruxaria, linchadas lá e cá. A noite havia sido longa, permeada pelos chamados de lambi crivadas de rajadas surdas. E o peito foi inundado de rum quente.” 

“BANHO DE LUA”

De Yanick Lahens

Tradução de Natália Borges Polesso

Bazar do Tempo

236 páginas

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

R$ 66

Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.