teleSUR – Em outras circunstâncias, seriam dias de festividades, com centenas de camponeses de todo o país, homens e mulheres, jovens e veteranos, reunidos para celebrar a luta e reafirmar seu compromisso. Mas, neste mês de setembro de 2026, não haverá nenhum grande evento. Com as estradas do país bloqueadas pelas gangues e um clima especialmente tenso na região da capital, a situação atual do Haiti não oferece muitas possibilidades para realizar as celebrações que a data mereceria.
Mas, justamente por isso, o marco dos 40 anos de existência e resistência do Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen, organização camponesa de alcance nacional, não passará despercebido. Em vez da tão esperada festa, serão realizadas dezenas de assembleias locais ao longo dos próximos meses, promovendo momentos de reflexão, crítica e autocrítica junto às bases.
Porque essa é a forma como o Tèt Kole sempre atuou, desde sua criação, em setembro de 1986. Como movimento de reivindicação camponesa, promoveu, por meio de um trabalho minucioso, a organização popular, a formação de base e a defesa dos direitos da população rural, contra o jugo do imperialismo e das elites do país. E hoje, a humildade com que dá esse passo tão significativo nasce também de certa maturidade, que o faz perceber que, embora muito já tenha sido feito, esse “muito” ainda é pouco diante do longo caminho que resta percorrer.
“Hoje temos a capacidade de mobilizar as pessoas nos 10 departamentos do país (…) conseguimos incentivar os camponeses a se sentarem juntos, trabalharem juntos, comerem juntos e serem solidários entre si para enfrentar as doenças, a morte ou a exploração do Estado.” Foto: Tèt Kole
“Nosso objetivo concreto é alcançar uma sociedade sem favores. Uma sociedade em que as pessoas possam viver como pessoas. Uma sociedade em que quem trabalha seja quem come. (…) Ainda não chegamos a isso. Mas, justamente por isso, não podemos desanimar nem desistir”, resume Jean-Jacques Henrilus, um dos fundadores da organização e membro da Coordenação Nacional.
Ao mesmo tempo em que nos convida a olhar para a frente, ele ressalta que seria injusto minimizar as árduas conquistas das últimas quatro décadas: “Hoje temos a capacidade de mobilizar as pessoas nos 10 departamentos do país. Esse é um primeiro ponto. Em segundo lugar, conseguimos incentivar os camponeses a se sentarem juntos, trabalharem juntos, comerem juntos e serem solidários entre si para enfrentar as doenças, a morte ou a exploração do Estado”.
Pierre-Mary Louis, membro da Direção Executiva, concorda e acrescenta: “Se hoje os camponeses têm direitos, podem se expressar livremente, mobilizar-se, dizer o que querem e o que não querem, o Tèt Kole contribuiu muito para isso, por meio das formações que realizamos e do acompanhamento contínuo em todos os cantos do país”.
Violência sistêmica
Foi durante a ditadura de François e Jean-Claude Duvallier, de 1956 a 1986, que o Tèt Kole começou a ser gestado, muito antes de seu nascimento oficial. Naquela época, os camponeses eram as primeiras vítimas da repressão exercida pelas autoridades locais, juntamente com as milícias e os paramilitares conhecidos como “Tonton Makoute”.
“Prendiam os camponeses por qualquer motivo, batiam neles, os encarceravam e os obrigavam a vender suas terras, seus animais e seus porcos para que fossem libertados”, recorda Jean-Jacques Henrilus.
Desde a década de 1970, junto às comunidades de base da Cáritas, as primeiras reuniões ocorreram de forma clandestina, já que as liberdades de associação e de expressão eram extremamente limitadas.
“Tivemos que usar as próprias propriedades rurais como espaços para construir o movimento. Fazíamos trabalhos comunitários, limpávamos o terreno, plantávamos e, depois disso, na hora do almoço, à sombra de uma árvore, realizávamos a reunião. Porque era impossível fazê-la em outro lugar”, conta Henrilus.
À medida que o movimento crescia, as estratégias se multiplicaram, com encontros de vários dias acampados na floresta ou nos canaviais, ou até mesmo em Porto Príncipe. As reuniões eram realizadas em voz baixa, sem cantos nem tumulto, e cada participante tinha um horário específico para chegar e sair, a fim de evitar aglomerações nas ruas.
Foi com a queda do regime de Duvallier que o Tèt Kole finalmente pôde organizar seu primeiro encontro nacional, em 6 de setembro de 1986, e escolher seu nome. Mas, mesmo com o retorno da democracia, a marginalização e a violência sistêmica contra a população camponesa continuaram sendo a norma.
O Haiti, que se libertou da colonização por meio de uma revolução que pôs fim à escravidão, nunca conseguiu realizar uma reforma agrária com uma redistribuição adequada da terra. Até hoje, as maiores propriedades estão nas mãos de grandes proprietários de terras, das igrejas ou do Estado, o que mantém os camponeses em situação de arrendamento ou trabalho precário.
Além disso, quando o povo se organiza, a repressão não demora a chegar, como ocorreu no massacre de Jean Rabel, em 23 de julho de 1987, quando 139 camponeses foram assassinados, a mando das elites locais, por reivindicarem um pedaço de terra.
O movimento Tèt Kole não tinha sequer completado um ano de existência formal. Mas, longe de se deixar abater, continuou ao lado das famílias na luta contra o Estado e, atualmente, essa região é um exemplo de conquistas na luta pela terra e pela organização popular.
De fato, as áreas de atuação do Tèt Kole são tantas, do âmbito local ao internacional, que seria impossível enumerá-las de maneira exaustiva.
Elas começam pela busca de direitos fundamentais, como o acesso a documentos de identidade e serviços básicos, frequentemente negados na prática às populações que vivem em áreas mais remotas, e chegam à promoção da agroecologia, da soberania alimentar, da educação popular, da preservação ambiental, da economia social e solidária, da igualdade de gênero, sem esquecer a defesa incondicional da soberania do país e de seu povo contra todas as formas de ingerência imperialista.
No âmbito internacional, o Tèt Kole integra organizações como CLOC-Vía Campesina, Alba Movimentos e a Assembleia Internacional dos Povos (AIP), que compartilham os mesmos objetivos estratégicos contra um inimigo comum.
Também mantém um vínculo especial com o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST) do Brasil, que, desde 2009, mantém uma brigada permanente de militantes no Haiti.
“Nossa relação não se baseia em projetos nem em apoio financeiro. É uma relação de irmandade. Uma relação de luta, de intercâmbio, de solidariedade”, relata Pierre-Mary Louis.
“E isso é uma prova de que, nessa dinâmica de globalização de nossa luta, qualquer organização de qualquer país pode levar [a outro país] sua essência, suas ideias e sua solidariedade, como faz o MST.”
De mal a pior
Paradoxalmente, depois de tantos avanços e tantas lutas, hoje parece que a situação do país nunca foi tão dramática.
A crise de segurança e, em especial, a quase impossibilidade de se deslocar dentro da ilha têm como consequência um empobrecimento generalizado das famílias de pequenos agricultores.
“Os camponeses precisam levar sua produção ao mercado local ou nacional, onde trocam ou vendem seus produtos para comprar aquilo de que precisam em casa. No entanto, há cinco anos essa relação está praticamente interrompida”, lamenta Louis.
Do ponto de vista da organização, as atividades foram diretamente afetadas por essa situação, tornando impossível, por exemplo, realizar assembleias gerais ou grandes mobilizações em nível nacional. Isso sem mencionar a instabilidade de qualquer planejamento e o custo exorbitante das passagens aéreas para viajar do norte ao sul.
Ainda mais grave é a situação do Centro Nacional de Montrouis, que o movimento construiu ao longo de 15 anos, em uma região hoje dominada por gangues.
O local era o principal centro de formação do Tèt Kole, erguido em uma área de 14 hectares dedicada à agroecologia. Em 2024, foi invadido e saqueado, e atualmente é totalmente inacessível aos integrantes da organização.
Diante dessa crise multifacetada, a direção do movimento apresenta uma análise profunda e histórica, rejeitando respostas apressadas ou superficiais.
A violência, segundo eles, não é obra de alguns criminosos locais que possam ser derrotados por uma intervenção estrangeira, por mercenários norte-americanos ou por uma falsa mudança de governo.
Em vez disso, faria parte de um projeto global e geopolítico de recolonização do Haiti, de exploração de seu povo e de seus recursos naturais — projeto implementado pelos mesmos que agora pretendem oferecer soluções.
“As gangues foram criadas seguindo essa lógica, por setores mafiosos nacionais e internacionais que precisavam exercer domínio sobre o povo haitiano, especialmente sobre as massas dos bairros populares e sobre os camponeses das zonas rurais, criando uma situação de pobreza, miséria e confinamento para mantê-los sob o domínio imperialista”, explica Jean-Jacques Henrilus.
Por isso, o Tèt Kole se mostra crítico à ideia de realizar eleições em um contexto tão antidemocrático.
A organização considera que a solução está em uma mudança estrutural da sociedade, na construção de um novo Estado em que o poder esteja realmente nas mãos do povo e a seu serviço.
“O Tèt Kole está comprometido com uma dinâmica que busca uma mudança de Estado. Uma mudança radical, ou seja, não apenas trocar as pessoas que estão ali, mas construir um Estado popular, um Estado socialista, capaz de assumir suas responsabilidades em benefício do país e de todas as pessoas”, afirma Pierre-Mary Louis.
Henrilus acrescenta que essa criação de um novo Estado, de uma nova nação, verdadeiramente soberana, só pode partir da organização popular, o único caminho possível “para reivindicar, para exigir, para enfrentar, para lutar contra esse sistema de opressão. Porque, se não nos unirmos para acabar com ele, para arrancá-lo pela raiz, (…) a nação está perdida, a pátria está perdida e nós estamos perdidos como povo”.
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