A região que corresponde ao atual território do Peru já teve um dos maiores impérios da América pré-colombiana, o chamado Império Inca, cuja riqueza despertou a cobiça dos conquistadores espanhóis no século 16. No início da década de 1530, o grande governante local era Atahualpa, que, capturado e percebendo que corria risco de ser morto, decidiu oferecer um resgate aos inimigos. Assim, utilizando-se de um pedaço de giz, o imperador marcou nas paredes do cômodo onde estava uma altura de aproximadamente dois metros.
A proposta era preencher aquele espaço com ouro e, posteriormente, encher a mesma sala — cujas dimensões eram de cerca de 5 por 6,7 metros — duas vezes com prata em até um ano. É claro que o conquistador Francisco Pizarro, sedento por riquezas, aceitou o acordo.
Com isso, súditos de Atahualpa retiraram objetos preciosos de locais como templos e palácios, espalhados por diferentes partes do império, para reunir o pagamento. Foi um esforço imenso, mas quatro meses antes do prazo a quantidade exigida havia sido alcançada. Só que o outro lado não cumpriu com o combinado: para o azar do imperador, mesmo com o tesouro em mãos, Pizarro ordenou no fim a execução do governante.
Dois ingleses no Peru
A exploração espanhola continuaria por séculos até que veio a crise no começo do século 19 e movimentos de independência ganharam foça por diferentes regiões. Então, em 1821, revolucionários peruanos cercaram Lima.
O vice-rei espanhol temia que os rebeldes tomassem posse das riquezas armazenadas na capital. Como menciona uma matéria do portal National Geographic, relatos sobre o episódio apontam que os cofres continham aproximadamente US$ 60 milhões em ouro e prata — valor equivalente a cerca de US$ 1,5 bilhão atualmente, ou R$ 7,7 bilhões — havendo ainda cerca de 200 baús com pedras preciosas.
Como estrangeiros tinham autorização para entrar e sair do porto de Lima, o vice-rei encontrou uma maneira de retirar o patrimônio da cidade. A missão foi confiada ao capitão britânico William Thompson, comandante do brigue Mary Dear que, sabendo dos riscos envolvidos, cobrou quatro vezes o valor que normalmente receberia por um trabalho semelhante.
Além do tesouro da administração colonial, igrejas católicas de Lima também entregaram objetos valiosos ao capitão. Entre eles estavam cálices, crucifixos e uma estátua dourada de Maria. Para acompanhar a carga, quatro guardas e dois sacerdotes foram enviados a bordo.
As instruções determinavam que Thompson navegasse em círculos durante alguns meses, enquanto os espanhóis tentavam recuperar o controle da região. Caso a resistência não fosse derrotada, o navio deveria seguir para o México, onde encontraria agentes espanhóis.
Thompson, contudo, decidiu não cumprir o combinado. Pouco depois de deixar Lima, embriagou os guardas e, reunido com a tripulação, teria argumentado que a riqueza acumulada pelos espanhóis vinha originalmente da exploração dos povos indígenas. Na visão apresentada por ele aos marinheiros, portanto, tomar o tesouro dos colonizadores não seria um problema.
A tripulação aderiu ao plano e então matou os guardas e os lançou ao mar. Mudando de rumo, o Mary Dear navegou para a Ilha Cocos, um pequeno território conhecido por sua floresta tropical e por inúmeras cachoeiras e cavernas, que hoje pertence à Costa Rica e está localizado no Pacífico, aproximadamente entre as Ilhas Galápagos e a costa costarriquenha.
Chegando à ilha, os homens transportaram o carregamento para terra em pequenos barcos. Depois, o tesouro teria sido dividido e escondido em três pontos diferentes, dentro de cavernas e sob o solo.
Capturados
A intenção dos piratas era abandonar a ilha, ficar escondidos no continente durante um ano e retornar posteriormente para recuperar a fortuna. O plano, entretanto, começou a ruir antes mesmo que eles pudessem partir, já que um galeão espanhol acabou encontrando o Mary Dear. O comandante da embarcação conhecia o acordo feito entre Thompson e o vice-rei e, por isso, estranhou a presença do brigue nas proximidades de Cocos. Sem conseguir oferecer uma explicação convincente para o desaparecimento da carga, Thompson e sua tripulação foram capturados.
Os prisioneiros foram levados ao Panamá onde, um por um, acabaram executados. Thompson e o imediato, James Alexander Forbes, seriam os últimos. Mas, para escapar da morte, prometeram indicar onde haviam escondido o tesouro. Então os espanhóis retornaram com eles à Ilha Cocos.
A grande verdade, porém era que Thompson não pretendia entregar facilmente a localização ao inimigo. Por esse motivo, ele e Forbes passaram algum tempo caminhando pela ilha, aparentemente medindo distâncias entre pontos de referência. Quando os espanhóis acreditaram que os ingleses finalmente identificariam o esconderijo, a dupla fugiu.
Thompson e Forbes estavam com sorte. Se esconderam por aproximadamente um ano e conseguiram sobrevivem à base de cocos, ovos de aves e peixes. Permaneceriam assim até que, em 1822, um navio baleeiro passou pela região e os dois alegaram terem sofrido um naufrágio. Conseguiram convencer os marinheiros a resgatá-los e, assim, foram levados para a Costa Rica.
Thompson morreu pouco depois, enquanto que Forbes mudou-se para a Califórnia, onde se casou com uma mulher de família mexicana rica e prosperou em negócios como um moinho de farinha e uma mina de mercúrio. Com o tempo, tornou-se rico o suficiente para não demonstrar interesse em retornar a Cocos.
Antes de morrer, em 1881, o inglês teria produzido um mapa indicando a localização do tesouro e entregado ao filho. O documento seria transmitido entre gerações, assim alimentando a lenda do chamado Tesouro de Lima.
Expedições posteriores
Desde então, centenas de expedições foram realizadas na Ilha Cocos. Inclusive, um explorador alemão chegou a passar 19 anos investigando cavernas e áreas de vegetação pela região, mas, no fim, tudo que encontrou foram seis dobrões.
Um dos homens que alegou ter chegado mais perto da descoberta foi James Alexander Forbes IV, descendente do antigo imediato. Sendo herdeiro do mapa, ele passou anos tentando interpretar suas indicações até que, no ano de 1939, afirmou ter encontrado o ponto correspondente ao local marcado no documento.
Quando estava prestes a iniciar a escavação, porém, Forbes teria avistado embarcações na costa. Uma delas, inclusive, estava equipada com metralhadoras. Decidiu abandonar a busca. Segundo relatos, o cineasta John Ford teria participado da expedição e imaginado transformar a descoberta do tesouro em um filme de aventura protagonizado por John Wayne. Contudo Forbes acabou morrendo pouco depois de retornar para casa, e o projeto nunca saiu do papel.
O tempo passou e, logo, as buscas também passaram a ameaçar o ambiente natural da ilha. Como consequência, a Costa Rica restringiu o acesso e transformou Cocos em uma área protegida. Até hoje o paradeiro do tesouro é considerado um grande mistério.
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