Tecnologia de raios X revela cartas seladas há 4 mil anos

Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Alemanha permitiu, pela primeira vez, acessar virtualmente cartas que permaneceram seladas em envelopes de argila por cerca de 4 mil anos. O equipamento, chamado ENCI, utiliza raios X de alta energia para revelar o conteúdo sem precisar quebrar ou danificar os artefatos.

Na antiga Mesopotâmia, cartas, contratos e documentos administrativos eram escritos em tábuas de argila e, em alguns casos, colocados dentro de envelopes feitos do mesmo material. Esses invólucros recebiam informações resumidas e impressões de selos. Em documentos legais, o envelope podia indicar o conteúdo do acordo e, quando a dívida ou obrigação era encerrada, deveria ser quebrado.

O problema é que, milhares de anos depois, abrir fisicamente essas estruturas poderia destruir tanto o envelope quanto o documento preservado em seu interior. Para solucionar a questão, uma equipe multidisciplinar do Deutsches Elektronen-Synchrotron e da Universidade de Hamburgo reuniu especialistas em física de raios X, computação e estudos assiriológicos.

“Abrindo” as cartas

O ENCI utiliza raios X de alta energia para escanear os envelopes. Um filtro de cobre de 2 milímetros ajuda a compensar distorções provocadas pelo endurecimento da argila durante a passagem do feixe. Depois, softwares de reconstrução permitem realizar uma espécie de “desembrulho virtual” e visualizar as inscrições internas.

O equipamento já foi utilizado no Louvre, em Paris, e no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara. Neste último, os pesquisadores conseguiram revelar uma carta escrita há cerca de 4 mil anos por uma mulher chamada Anna-anna ao marido, o comerciante Ennum-Aššur. O documento trata de um empréstimo de prata feito pelo marido a um homem chamado Laqēpum e também fornece informações sobre a participação de mulheres em negócios e na administração dos lares.

Outro envelope revelou um contrato relacionado ao pagamento de uma dívida. A tomografia também encontrou em seu interior uma semente de cevada com aproximadamente 4 mil anos.

A nova tecnologia pode permitir o estudo não destrutivo de milhares de documentos antigos que continuam selados em coleções arqueológicas ao redor do mundo.


Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.

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