Um Brasil de incertezas – CNN Portugal

polarização da política brasileira, com a irracionalidade emocional própria do debate político, vai tornando os dois campos em confronto cada vez mais estanques, enquanto as redes sociais e os influenciadores aceleram e distorcem a circulação das notícias judiciais.

Na semana passada, deixei aqui algumas notas sobre o ambiente que rodeia a eleição presidencial no Brasil, cuja primeira volta terá lugar a 4 de outubro. Sublinhei então a relevância, para esse mesmo ambiente, do surgimento, no Supremo Tribunal Federal (STF), a mais elevada instância judicial do país, de revelações que, de algum modo, se repercutem sobre as duas principais candidaturas — a de Lula da Silva e a de Flávio Bolsonaro.

Referi então que os factos surgiam em catadupa, o que tornava difícil não só acompanhá-los como avaliar o sentido definitivo da sua influência no curso da campanha presidencial. Essa tendência mantém-se: as próximas horas e dias prometem novas iniciativas dentro do tribunal, sem que por ora seja muito claro o ponto em que as coisas irão parar.

No contexto do STF, o juiz Alexandre de Moraes parece manter-se como a figura conjunturalmente mais frágil. No imaginário brasileiro, ele é visto como a pessoa que travou a tentativa de golpe de Estado para impedir a posse de Lula, condenando de caminho o adversário derrotado por este, Jair Bolsonaro. Há assim que entender que Moraes passou a ser “herói” para uns e um polémico justiceiro para outros. Essa perceção cola-o inevitavelmente ao atual presidente e candidato.

O filho de Bolsonaro que hoje disputa a presidência, Flávio, percebendo que essa associação prevalece na opinião pública, transformou-a na sua principal arma nesta fase da campanha. E está a resultar: as últimas sondagens de intenção de voto creditam-lhe já um empate técnico com Lula, agravando a indecisão sobre o desfecho eleitoral. Lula está assim num evidente embaraço. Embora nada possa fazer para o evitar, a sua imagem continuará a ser marcada pelo futuro de Moraes.

Há uma questão que nos podemos colocar: dada a tecnicidade de grande parte do argumentário que está e vai continuar cada vez mais a ser disputado em sede judicial, o sentido de quem tem a razão do seu lado irá ser decisivo, com influência concreta na escolha do eleitor? Tudo indica que não. Os dados essenciais parecem estar lançados há muito. A polarização da política brasileira, com a irracionalidade emocional própria do debate político, vai tornando os dois campos em confronto cada vez mais estanques, enquanto as redes sociais e os influenciadores aceleram e distorcem a circulação das notícias judiciais.

Há ainda uma outra dimensão, que seria imprudente não colocar: não é evidente que a emergência de novas revelações que possam colar alguns dos protagonistas a casos que rocem ou envolvam corrupção acabe por comover a veia ética dos eleitores. Quero com isto dizer que o surgimento de dados incriminatórios para Flávio Bolsonaro não se traduzirá necessariamente na sua punição eleitoral. Só refiro este candidato porque, até ao momento, nada indica que haja ligações diretas de Lula à fonte dos recentes escândalos: o antigo banqueiro Daniel Vorcaro. Só Alexandre de Moraes e Flávio Bolsonaro parecem verdadeiramente poder temer a emergência de factos comprometedores. Curiosamente, mais o primeiro do que o segundo.

A que vai estar em jogo não é apenas o resultado de uma eleição: será saber se as principais instituições brasileiras, a começar pelo seu principal tribunal, conseguem preservar-se do impacto dos estilhaços da batalha partidária. Francisco Seixas da Costa

O leitor notará que só tenho referido dois candidatos. Faço-o porque, no tocante aos nomes possíveis para ascenderem ao Palácio do Planalto, a luta não oferece dúvidas. As restantes candidaturas, que terão agora um tempo de forte visibilidade aquando dos debates pré-eleitorais, podendo embora representar diversas e interessantes faces do Brasil, não são verdadeiros “challengers”. Podem, contudo, na lógica da política de alianças para a segunda volta, ter alguma importância. É que, se a proximidade entre Lula e Bolsonaro, em termos de apoio público, vier a ser confirmada no sufrágio de dia 4 de outubro, os votos na maioria desses candidatos poderão vir a ser decisivos. E, neste caso, Lula é quem mais se deve preocupar.

No fim de contas, e olhando as coisas com alguma serenidade, o que vai estar em jogo não é apenas o resultado de uma eleição: será saber se as principais instituições brasileiras, a começar pelo seu principal tribunal, conseguem preservar-se do impacto dos estilhaços da batalha partidária. O vencedor de 25 de outubro pode vir a herdar um país não apenas dividido ao meio — como já irá inevitavelmente acontecer —, mas muito mais fragilizado na arquitetura institucional que, com alguma eficácia, tem servido de garante à democracia no país. E, como sabemos, isso ns América Latina, não é coisa pouca.

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