Em mais de um momento de “A Pele Morta”, os personagens evocam versões da história do povo Guarani sobre os irmãos Kuaray e Jaxy, as divindades responsáveis pelo Sol e a Lua respectivamente. Na cosmologia indígena, os irmãos atravessam e enfrentam os perigos de um rio juntos, onde o mais velho guia o mais novo, mas devem assumir suas responsabilidades separadamente, e, portanto, se tornam inalcançáveis um ao outro.
É dessa forma que vivem os personagens do longa de Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres: pessoas que se espelham e se guiam por outras que não conseguem mais alcançar, e assim vivem em solidão, quase alheias ao mundo à sua volta. O filme acompanha Saulo (Luan Iturve), um rapper Guarani-Kaiowá em luto pelo irmão mais velho falecido precocemente e em estado de desencanto com o mundo, que decide acompanhar o caminhoneiro Justo (César Trancoso) em meio às estradas da América Latina, entre o Brasil e o Paraguai, em busca de fretes. No caminho do Mato Grosso do Sul até Chaco, os dois dão carona à jovem Rosário (Ivana Gomez), também Guarani, mas do lado paraguaio, e que busca reencontrar a irmã que não vê há anos.

Embora a câmera esteja sempre próxima dos rostos de seus personagens, constantemente enquadrados em closes ou no canto do quadro, imprensados contra o mundo ao redor, pouco conseguimos desvendar sobre eles. Sabemos que Saulo se sente responsável pela família, incluindo os filhos do irmão mais novo, e aparentemente reluta em retomar às rimas de rap com amigos; Justo tem problemas com bebida e com a polícia; e Rosário tem nas mãos uma carta que espera que a leve ao endereço atual da sua irmã, que ela não vê há anos, meses e dias contados exatamente.
O que importa em “A Pele Morta” não são os incidentes do passado que os levaram até ali – não sabemos como o irmão de Saulo morreu ou que relação Justo já tinha com ele e a família, por exemplo -, mas sim a melancolia presente de cada um desses personagens, que contrasta com as cores vivas e o verde quase onipresente das estradas da “Nuestra América”, como diz a lateral do caminhão. Não à toa, a dedicatória final do longa homenageia essa “Nossa América” e seus imaginários.
Essa falta de confronto com os próprios fantasmas do trio às vezes resulta em conflitos que parecem se desenhar e quase escalar, mas se resolvem rápido demais para causar impactos maiores na jornada de cada um deles. Logo, somos deixados com tantas lacunas quanto os próprios personagens, e talvez por isso o fim da estrada não pareça tanto a narrativa de transformação que inicialmente se espera.

Ainda assim, é uma jornada singela, que levou seu tempo também por trás das câmeras: “A Pele Morta” levou oito anos para ser finalizado, em meio à pandemia e ao falecimento de Geraldo Moraes, que inicialmente concebeu o projeto. A produção foi assumida então pelos seus filhos, Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, que assinam a direção e deixam claro o carinho que sentem por aqueles personagens, encarnados com propriedade pelo trio de atores.
Em uma sequência-chave do filme, o amarelo predomina e substitui o verde da estrada, resultando em um momento íntimo e sensível, que desvela o quanto o longa se importa por aquelas pessoas, ainda que não se aprofunde na imensidão interna de cada uma delas. Mas talvez essa seja a questão no fim das contas: nas estradas da nossa América, cada pessoa carrega em si seu próprio imaginário, incapaz de se livrar dos seus restos de pele morta e apenas aprendendo a seguir em frente com eles.

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