A estratégia de quase todas as polícias no Brasil fracassou

Chega a ser patética a foto de policiais militares hasteando a bandeira da PM em frente ao que foi apreendido na operação realizada em 13 de agosto último no Rio de Janeiro. Pela reportagem do GLOBO, fica-se sabendo que a ação, envolvendo 27 batalhões, resultou na apreensão de dois fuzis, na morte de quatro “suspeitos” e em 14 prisões.

Com a justificativa de retomar territórios, a PM do Rio continua a provocar mortes de “suspeitos” e, dia sim, outro também, de quem não tinha rigorosamente nada a ver com coisa alguma. E a população, ansiosa por mais segurança, vai aceitando que isso implique a estratégia bélica que deixa corpos estendidos no chão. E quem são os mortos? Os filhos e filhas de quem mora nas áreas privilegiadas da cidade? Não, são os filhos e filhas de famílias negras, moradoras de favelas.

Na mesma página em que se fica sabendo da “bem-sucedida operação policial”, outra notícia chama a atenção: um menino foi ferido por estilhaços e perdeu a visão de um olho numa troca de tiros entre a polícia e o tráfico. De novo, nas ruas do Leblon? Não. Na Favela do Metrô, em frente à Mangueira. E quem se importa com isso? Afinal, é gente sem voz numa sociedade racista que já não tem vergonha de fechar os olhos diariamente para essas barbaridades.

Está mais do que na hora de admitirmos que a estratégia de quase todas as polícias no Brasil fracassou. O confronto armado precisa ser definitivamente superado. Uma polícia inteligente — que planeja suas ações e, quando vai para a rua, sabe o que faz — é o que a cidadania merece. Uma força pública que esclareça crimes e atue sob supervisão do Ministério Público, constitucionalmente responsável pelo controle externo, é o que a cidadania merece.

Por enquanto, o que temos são corporações truculentas e ineficazes. Dou uma viagem de ida e volta para a Lua (como diz o querido Elio Gaspari) a quem souber o percentual de homicídios que as polícias esclarecem no país. Será que alguém ganha o prêmio? Durma-se com o seguinte barulho: 36% dos homicídios, em média, são esclarecidos no país. Dito de outra forma: de cada cem homicidas, 65 continuam livres, leves e soltos circulando pelas ruas deste Brasil varonil. Onde está a polícia que investiga? Onde estão os equipamentos sofisticados que permitem às forças públicas investigar com competência? Para estes últimos, faltam recursos. Para a compra de equipamento bélico que tem tornado nossas polícias SWATs dos trópicos, não há falta.

Sempre é bom lembrar que as polícias matam no Brasil, diariamente, 18 pessoas. A maior parte, jovens negros. Alguém dirá que alguma coisa esses 18 deviam. Se deviam, que fossem presos e encaminhados à Justiça. Quando condenados, que cumprissem suas penas. Execuções extrajudiciais, por enquanto, não fazem parte do arcabouço legal do país.

Por último, quero insistir num tema que tem sido central em meu trabalho nos últimos anos: quanto do Orçamento público é destinado a uma estratégia de segurança pública tão genocida quanto ineficaz? São bilhões de reais jogados ralo abaixo para sustentar políticas que não trazem segurança alguma, como os estudos do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) já demonstraram à saciedade. Estou há mais de 40 anos na estrada da segurança pública e não me venham chamar de socióloga sonhadora. Meus pés estão rigorosamente plantados no chão, esperando que as polícias tenham a coragem de dizer quanto gastam com essas operações espetaculares. Quantos milhões de reais a PM do Rio empregou para apreender dois fuzis e matar quatro pessoas? A cidadania agradece a resposta.

*Julita Lemgruber, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, foi diretora do Departamento do Sistema Penitenciário e ouvidora da polícia no estado do Rio de Janeiro

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