Ondas de calor extremo mudam estilo de vida na Europa

No verão europeu, moradores e turistas enfrentam sucessivas ondas de calor. O continente é o que mais aquece no mundo, em um ritmo duas vezes superior à média global. O fenômeno está relacionado às transformações no Ártico, que influenciam o clima, e às emissões de gases de efeito estufa, entre outros fatores. A pior consequência é a perda de vidas.

Crianças brincam no Parque das Nações, em Lisboa. Várias vagas de calor já atingiram Portugal este verão, com temperaturas acima dos 40°C. Crédito: Miguel Lopes, Lusa

Segundo dados da rede EuroMOMO, as altas temperaturas provocaram 10.650 mortes somente em junho, agravando doenças cardiovasculares, respiratórias e outras, sobretudo entre idosos. As ondas de calor passaram de eventos excepcionais para uma nova realidade, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia.

A Eurostat (agência de estatísticas) alerta que o consumo de energia destinada ao resfriamento das residências dobrou em seis anos, pressionando as redes de distribuição e intensificando o debate político. Em um continente preparado para o frio, os efeitos das alterações climáticas alteram hábitos e rotinas

Pessoas entram em fontes perto da Torre Eiffel. França tem sido dos países mais fustigados pelo calor. Crédito: Epa/Yoan Valat

Calor aumenta procura por equipamentos de refrigeração

Dados de mercado apontam uma corrida às lojas: cerca de 1,9 milhão de aparelhos de refrigeração foram vendidos na França em poucas semanas, provocando falta de estoque e até brigas entre consumidores.

O sul da Europa — especialmente Espanha e Itália — já tem mais de 50% das residências equipadas com sistemas de refrigeração. Países como o Reino Unido, onde a presença desses equipamentos não passava de 5% dos lares, registraram um forte aumento na demanda.

Rubina Vieira, Professora Universitária em Londres que durante as ondas de calor optou pelo teletrabalho. Crédito: Divulgação

Rubina Vieira, professora universitária portuguesa que vive em Londres, conta que, no início de julho, quando o país entrou em alerta vermelho devido à temperatura extrema, as aulas na universidade passaram a ser remotas, assim como o trabalho em muitas empresas e instituições.

A ideia é evitar deslocamentos no transporte público. “Há linhas do metrô de Londres que não têm refrigeração. Estar nesses vagões com mais de 30 graus no interior é horrível”, diz ela.

Rubina também destaca a busca por ventiladores e aparelhos de ar-condicionado.“Estamos passando por uma adaptação no estilo de vida. Ficamos cada vez mais tempo ao ar livre. Fazemos churrascos no jardim de casa, passamos a deixar as portas abertas para criar circulação de ar e a consumir mais sorvetes”.

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Coolcation muda as férias na Europa

Por aqui, a palavra da moda é coolcation, termo em inglês que junta cool (fresco) e vacation (férias). A expressão se popularizou para definir a busca por destinos com temperaturas mais baixas. Saem as praias e entram regiões frias.

Estudos da European Travel Commission (ETC) mostram um aumento na procura por locais mais frescos no norte do continente. Países escandinavos e bálticos aparecem entre as alternativas às praias. O relatório de 2026 da ETC, baseado em entrevistas com 6 mil pessoas, aponta que o clima já está entre os principais fatores na escolha de um destino (15%), atrás apenas da segurança (22%). O estudo mostra que muitos turistas estão trocando as viagens no verão por períodos de descanso em outras épocas do ano.

Dora Cruz, turista Portuguesa em Roma, refugiou-se em espaços fechados para fugir ao calor. Crédito: Divulgação

Dora Cruz, gestora de projetos e turista portuguesa, viu a tão esperada estadia em Roma se transformar em um desafio. “Adoro a cidade. Mas, dessa vez, fui em junho e não dava para caminhar pela rua o dia inteiro, sob 40 graus. A única alternativa era entrar em lojas ou restaurantes para encontrar sombra e um pouco de frescor”. Ela pretende mudar a época do ano para voltar à Itália: “Não mais no verão”.

Como as cidades se adaptam ao calor extremo

Portugal não é um dos países “mais penalizados com ondas de calor tão extremas como as da Europa Central”, explica Pedro Sousa, meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). “Por exemplo, no Reino Unido, em junho, houve infraestruturas a ceder por não estarem preparadas para tanto calor. Isso alerta para a necessidade de pensar em como salvaguardar a sociedade face ao aumento do risco de altas temperaturas, que é uma realidade”, explica.

Nuno Sampaio, diretor-executivo da Casa da Arquitetura (centro português dedicado à preservação, pesquisa, divulgação e promoção da arquitetura e do urbanismo), em declarações à Lusa, resume o dilema: “A Europa vive um impasse. De um lado, quer atingir as metas ambientais, economizar energia e reduzir o uso de ar condicionado e outras fontes de consumo energético. De outro, as mudanças climáticas tornam esses equipamentos cada vez mais necessários para garantir condições mínimas de conforto e até de sobrevivência nos edifícios, o que vai na direção oposta das metas estabelecidas”.

Casal comendo sorvete em Bilbao, Espanha, onde em junho os termómetros chegaram a mais de 40 graus. Crédito: Luís Tejido, Epa/Lusa

O impacto de 40 graus

Neste verão, vários países registraram temperaturas superiores a 40°C, batendo recordes históricos e provocando impactos que vão muito além do desconforto: hospitais sobrecarregados, incêndios florestais, interrupções no transporte e aumento da mortalidade.

A França sentiu a crise com especial intensidade. O instituto meteorológico oficial MétéoFrance confirmou que o dia 23 de junho foi o mais quente do país desde o início dos registros, em 1947.

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Esses acontecimentos não surpreendem o técnico de arquitetura, Nélson Rodrigues. “Existe infraestrutura para garantir o aquecimento dos ambientes e o fornecimento de água quente. Porém, os mesmos sistemas não são eficazes para enfrentar o calor”, afirma.

Ele explica que “alguns urbanistas estão resgatando a arquitetura vernacular — construção tradicional projetada e executada pelas próprias comunidades locais — e incorporando soluções utilizadas no passado para reduzir o calor, como sistemas de ventilação cruzada e casas com pátios internos, voltadas para o interior, garantindo sombra durante grande parte do dia”.

“Urbanistas estão incorporando soluções utilizadas no passado para reduzir o calor” refere Nelson Rodrigues, Técnico Superior em Arquitetura. Crédito: Divulgação

Por mais que a arquitetura evolua, projetar edifícios capazes de suportar condições climáticas extremas continua sendo um grande desafio. Algumas soluções deveriam ser adotadas nas cidades, segundo Rodrigues: “Precisamos de mais sombra, áreas de resfriamento e ruas arborizadas com espécies adaptadas às mudanças climáticas”.

susana@revistaentrerios.pt

Esta reportagem foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa, assine aqui.

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