No fim de 2021, Ana Guadalupe planejou uma viagem de dois meses a Buenos Aires. “Hoje vejo que essa foi uma decisão impulsiva, muito guiada pela angústia da pandemia”, diz à TPM. Os dois meses viraram quatro anos e um livro que nasceu desse tempo, Ensino à distância, publicado agora pela Companhia das Letras. A obra, a quarta coletânea de Ana, carrega as marcas e o inesperado da temporada portenha. “A vida em Buenos Aires, a experiência de ser estrangeira e, acima de tudo, a ruptura da fantasia que eu tinha sobre a cidade influenciaram os poemas.”
A capital argentina atravessa boa parte do livro — “a ideia de uma cidade desconhecida e Buenos Aires em si se tornaram temas centrais”, confirma a autora —, mas divide espaço com temas como insônia, miopia, amor e escrita.
Abaixo, um dos poemas de Ensino à distância:
a cidade anônima
a cidade que nunca vi
dorme desconhecida
a cidade que vi
acorda irreconhecível
Tradutora de mais de 40 livros (entre eles obras de Sylvia Plath, Kazuo Ishiguro e Denis Johnson), a poeta paranaense poderia ter recorrido ao próprio ofício para escrever os poemas sobre o estranhamento do espanhol, como em “a casca”/”la cáscara”. Mas o que apareceu foi outra coisa: “Acho que, no fim, o ofício da tradução apareceu mais na minha vida pessoal, no meu processo de aprender espanhol enquanto morava na cidade.” Um aprendizado guiado pelas semelhanças e diferenças com o português, que resultou em algo “mais cru e até infantil, meio bobo, como se eu não tivesse nenhuma habilidade de traduzir.”
Ensino à distância é o primeiro livro de Ana publicado por uma editora grande, depois de três títulos por editoras independentes. A mudança traz uma pressão diferente, diz, “como se você tivesse que justificar aquele espaço, ‘fazer valer’”.
Aqui, Ana ainda fala da relação ambígua que tem com a escrita — “muito fácil e muito difícil ao mesmo tempo” — e do lugar que ocupa, quinze anos depois da estreia com Relógio de pulso (7Letras, 2011), num panorama da poesia brasileira que ela descreve como “muito positiva”, com “uma cena muito legal de poetas mulheres”.
TPM: Ensino à distância nasceu de uma estadia de dois meses em Buenos Aires que virou quatro anos. Como esse tempo alongado interferiu no livro? Desde quando você imaginava escrever ele?
Ana Guadalupe: No final de 2021, comecei a planejar essa viagem de dois meses pra Buenos Aires. Tinha conhecido a cidade por só uma semana em 2019 e tinha vontade de voltar, mas hoje vejo que essa foi uma decisão impulsiva, muito guiada pela angústia da pandemia. A vida em Buenos Aires, a experiência de ser estrangeira e, acima de tudo, a ruptura da fantasia que eu tinha sobre a cidade influenciaram muito os poemas do livro — tanto que a ideia de uma cidade desconhecida e Buenos Aires em si se tornaram temas centrais. Comecei a escrever o livro em 2021, ainda no Brasil, mas poucos poemas dessa fase se mantiveram. A maior parte dele foi escrita em Buenos Aires.
TPM: Você transforma a própria miopia em estrutura do livro, que vai de uma cidade embaçada para uma mais nítida. Em que momento essa metáfora ótica virou também uma forma de organizar os poemas sobre amor e a própria vida?
Ana Guadalupe: Eu diria que o livro tem poucos ou nenhum poema de amor. Em vários o amor é um dos elementos de tensão ou distorção da realidade, muitas vezes numa enumeração mesmo, mas em poucos é um tema central. Eu tinha uma ideia de fazer um movimento de aproximação e distanciamento na estrutura desse livro, mas no começo do processo a intenção era de fazer um movimento entre o “eu” e o “outro”, e o “eu real” e o “eu poético”. Quando os temas das cidades e da miopia começaram a aparecer, percebi que podia usar esse recurso. Mas essa progressão é sutil.
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TPM: Você é tradutora de mais de 40 livros (Plath, Ishiguro, Denis Johnson). Como o ofício de habitar a língua do outro entrou na escrita de poemas sobre o estranhamento do espanhol, como em “a casca”/”la cáscara”?
Ana Guadalupe: Acho que, no fim, o ofício da tradução apareceu mais na minha vida pessoal, no meu processo de aprender espanhol enquanto morava na cidade, fazendo algumas conexões com a gramática do português e sendo guiada pelas semelhanças e diferenças entre as duas línguas. Sinto que o estranhamento que aparece nos poemas é mais cru e até infantil, meio bobo, como se eu não tivesse nenhuma habilidade de traduzir.
TPM: Depois de três livros por editoras independentes, Ensino à distância sai pela Companhia das Letras. O que muda (na escrita, na circulação, na expectativa) ao ser publicada por uma editora grande?
Ana Guadalupe: Ainda não tenho uma boa resposta a essa pergunta, porque o livro acabou de sair. Sinto que publicar por uma editora grande traz uma espécie de pressão que é diferente, como se você tivesse que justificar aquele espaço, “fazer valer”. E é também um grande privilégio, claro. Sou muito defensora do trabalho das editoras menores e, ao mesmo tempo, reconheço que numa editora grande o livro chega a outros lugares.
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TPM: Você disse, em entrevista recente, que não gosta tanto assim de escrever e que o processo é “muito fácil e muito difícil ao mesmo tempo”. Pode falar mais dessa ambiguidade?
Ana Guadalupe: Tenho uma relação pouco nítida com a escrita, pra usar uma imagem do livro. Não tenho nenhuma dúvida de que adoro literatura, especialmente poesia, mas escrever é mais ambivalente. Por um lado, sinto que, depois de tantos anos, tenho algum domínio dos meus recursos, não é como se estivesse perdida, e é uma coisa que sei que vou continuar fazendo, de alguma forma. Mas, por outro lado, não é uma atividade em que me sinto completamente à vontade, nem que quero repetir tantas vezes. O momento de dar um poema por terminado é sempre um pouco misterioso, às vezes o critério é mais racional, às vezes totalmente intuitivo.
Tenho uma relação pouco nítida com a escrita, pra usar uma imagem do livro. Não tenho nenhuma dúvida de que adoro literatura, especialmente poesia, mas escrever é mais ambivalente.
TPM: Entre Relógio de pulso (2011) e Ensino à distância (2026), quinze anos se passaram. O que essa nova coletânea guarda dos primeiros livros e o que ela rompe?
Ana Guadalupe: Acho que em alguns momentos desse livro voltei a uma sensibilidade, ou um lirismo, que estava mais presente no Relógio de pulso. Tem poemas mais comprometidos com o gênero, é como se eu estivesse tentando “fazer poesia” mais sinceramente. Digo isso porque o Preocupações, meu terceiro livro, de 2019, é mais brincalhão, mais rebelde, talvez.
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TPM: Você já apareceu em antologias de poesia contemporânea brasileira organizadas por Heloísa Buarque de Hollanda e Adriana Calcanhotto. Como lê o momento atual da poesia brasileira, e onde você se vê dentro dele?
Ana Guadalupe: Vejo esse momento de forma muito positiva. Acho empolgante como nos últimos anos a poesia tem circulado mais, como temos mais autores publicando e uma cena muito legal de poetas mulheres. Difícil dizer onde me vejo, mas me identifico muito com a minha geração de poetas, com as pessoas que começaram a publicar na mesma época que eu, e gosto de acompanhar as novas vozes.
TPM: A miopia no livro é metáfora, mas também é uma condição sua, assim como o período em que você morou em Buenos Aires. Quanto desses poemas é relato de algo que você viveu de fato, e quanto é invenção a partir disso? Teve alguma coisa desse tempo que você viveu lá que preferiu deixar de fora do livro?
Ana Guadalupe: São recortes. Usei algumas cenas mais específicas da minha vida no livro, como o fato de eu ter cortado o dedo indicador numa porta de vidro em Buenos Aires — precisei levar alguns pontos e tive que digitar de outra forma por um tempo. Mas isso só aparece em um verso do livro. E há muitas cenas imaginadas, mas principalmente imagens que vêm de observações menos íntimas da cidade, como a presença das pizzarias e dos aparelhos de ar-condicionado. Outro exemplo: na hora de atravessar a rua em Buenos Aires, você não tem um momento só para o pedestre; pedestres e carros passam juntos. Usei isso num poema. Mas, na verdade, quase tudo o que vivi ficou fora do livro. Em Buenos Aires tive uma vida também muito ativa e feliz, e não conseguiria escrever poesia com isso.
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TPM: Quem são as mulheres que escrevem poesia e você tem gostado de ler, e por quê?
Ana Guadalupe: Uma das minhas últimas descobertas foi a Cristina Peri Rossi, poeta uruguaia que tá fazendo muito sucesso no Brasil, e eu tinha conhecido enquanto estava na Argentina. Dos últimos livros de poetas brasileiras que li, gostei muito de A água é uma máquina do tempo, da Aline Motta, Acrobata, da Alice Sant’Anna, e Deserto sozinha, da Jeovanna Vieira.
TPM: No podcast 451 MHz, para a Bruna Beber, você contou que gosta mais de comer e de ler do que de escrever. Se a poesia fosse obrigada a disputar espaço na sua rotina com essas outras paixões, ela ganharia de quê, e perderia para quê?
Ana Guadalupe: Difícil responder essa sem mentir, né? A poesia não está no topo da lista das minhas paixões do dia a dia. Gosto mais de comer, dormir, tomar banho, ver um filme… Sou meio hedonista e poderia fazer uma lista enorme de coisas que prefiro fazer, rs. Mas isso não muda o fato de que ler poesia é uma das minhas grandes paixões.
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