Portugal nunca esteve tão perto de se afirmar como um dos principais hubs tecnológicos da Europa.
Mas nunca esteve também tão perto de desperdiçar essa oportunidade.
Nos últimos anos, assistimos à instalação de centros de desenvolvimento, ao crescimento do ecossistema de startups e ao investimento crescente de empresas internacionais. Portugal deixou de ser apenas um destino atrativo pela qualidade de vida para passar a integrar a estratégia de muitas organizações globais.
É uma evolução muito positiva.
Mas existe uma diferença fundamental entre atrair investimento e construir um verdadeiro hub tecnológico.
O primeiro consegue-se através de incentivos, localização geográfica ou benefícios fiscais.
O segundo constrói-se através das pessoas.
Ao longo de mais de 19 anos em projetos internacionais de transformação empresarial, incluindo cerca de uma década a viver e trabalhar em França, tive a oportunidade de acompanhar diferentes modelos de desenvolvimento económico e tecnológico. Apesar das diferenças entre países, encontrei sempre um fator comum.
Os ecossistemas mais competitivos não disputam apenas empresas.
Disputam talento.
É precisamente aqui que Portugal enfrenta o seu maior desafio.
Nos últimos anos conseguimos captar investimento, criar emprego qualificado e despertar o interesse de profissionais de diferentes nacionalidades.
Mas atrair talento é apenas metade do caminho.
O verdadeiro desafio será conseguir que essas pessoas escolham construir aqui o seu futuro.
Porque existe uma enorme diferença entre trabalhar num país e decidir fazer desse país a nossa casa.
E essa decisão depende de muito mais do que tecnologia.
Depende da qualidade do ensino.
Da ligação entre universidades e empresas.
Da rapidez dos processos administrativos.
Da capacidade de integrar profissionais internacionais.
Da previsibilidade para quem investe.
E, acima de tudo, da capacidade de oferecer um verdadeiro projeto de vida.
Portugal continua a distinguir-se pela segurança, pela qualidade de vida, pelo clima e pela competência dos seus profissionais.
Mas estas vantagens, por si só, já não garantem uma vantagem competitiva.
Nenhum país conseguirá afirmar-se como um hub tecnológico se os profissionais que pretende atrair tiverem dificuldade em encontrar habitação, construir uma carreira sustentável ou proporcionar qualidade de vida às suas famílias.
O acesso à habitação tornou-se um dos maiores desafios para quem pretende viver e trabalhar em Portugal.
Ao mesmo tempo, as empresas portuguesas competem diariamente com organizações internacionais que recrutam talento remotamente, oferecendo condições salariais e oportunidades difíceis de acompanhar.
A competição deixou de ser apenas por investimento.
Passou a ser pela capacidade de oferecer as melhores condições para viver, trabalhar e crescer.
Fala-se muito da Inteligência Artificial como o grande motor da próxima década.
Sem dúvida que será uma tecnologia transformadora.
Mas a verdadeira vantagem competitiva continuará a pertencer aos países que conseguirem reunir as pessoas capazes de a desenvolver, implementar e transformar em valor para empresas e sociedade.
A tecnologia estará disponível para todos.
O talento, não.
Portugal reúne hoje condições que muitos países gostariam de ter.
Universidades reconhecidas internacionalmente.
Profissionais altamente qualificados.
Empresas cada vez mais globais.
Segurança.
Estabilidade.
Qualidade de vida.
Mas transformar esse potencial numa vantagem competitiva exige visão de longo prazo.
Exige políticas públicas consistentes.
Exige uma maior aproximação entre universidades, empresas e centros de investigação.
Exige uma estratégia clara para atrair, integrar e reter talento internacional.
Exige compreender que investir em talento não é um custo. É a forma mais sustentável de aumentar a competitividade de um país.
E exige perceber que o futuro económico de Portugal dependerá menos da tecnologia que conseguirmos adquirir e muito mais das pessoas que conseguirmos convencer a desenvolver aqui os seus projetos de vida.
Portugal tem todas as condições para se afirmar como um dos principais hubs tecnológicos da Europa.
Mas isso não acontecerá por acaso.
Será o resultado das decisões que tomarmos hoje.
Porque, no final, o futuro de Portugal como potência tecnológica não será decidido pelos algoritmos que utilizarmos. Será decidido pelas pessoas que escolherem construir o seu futuro aqui.
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