Paraná e China podem cooperar em agricultura familiar, tecnologia e meio ambiente, diz deputado Goura – Brasil de Fato

Em um cenário global marcado por tensões entre os Estados Unidos e seus principais parceiros comerciais, os olhos do Brasil se voltam cada vez mais para a China – há mais de uma década, o maior parceiro econômico do país. Nesse contexto, o deputado estadual Goura Nataraj (PDT), acompanhado de uma comitiva formada por sete parlamentares e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), visitou o país asiático para debater geopolítica, meio ambiente, agroecologia e outras pautas.

Goura se encontrou com a ex-presidente Dilma Rousseff, mergulhou em um rio despoluído em Pequim, capital da China, e observou as possíveis parcerias no âmbito da agroecologia. Confira a entrevista exclusiva ao Brasil de Fato Paraná.

Brasil de Fato PR: Depois do “vai para Cuba”, agora é “vai pra China”?

Goura: Tivemos agendas muito intensas, organizadas pelo coletivo do MST que atua lá. Estivemos com a presidenta Dilma Rousseff, em universidades, em empresas de tecnologia. Foi uma visita incrível e ainda estou digerindo toda a experiência que vivemos por lá.

No Brasil, muitos setores da sociedade, inclusive os que se beneficiam dessa relação, rejeitam a China. Mesmo sendo nosso principal parceiro comercial, com destaque para soja, minério de ferro, carne bovina e suína. O senhor acredita que essa rejeição é ideológica ou desinformação?

A gente não conhece a China. Existe uma ignorância imensa sobre o que é o país, sobre a experiência do socialismo com características chinesas, que desde 1949 está sendo implantado. Precisamos ter um olhar muito sério, até científico, eu diria, sobre essas relações que envolvem geopolítica. O Brasil, sendo um país na periferia do capitalismo central, tem muito a ganhar ao se aproximar do Sul Global e de países que, como nós, foram colonizados e explorados. Desde 2009, a China é nosso principal parceiro comercial.

Deputado em reuniões com chineses. Foto: Assessoria de Imprensa/PDT-PR

A relação do Brasil com a China se aprofundou nos últimos governos?

Tivemos uma reunião com o embaixador do Brasil na China, e ele relatou o dinamismo da economia chinesa. Os cinco produtos que o Brasil mais importava há 10 anos já são completamente diferentes hoje. Vemos a experiência da economia e da sociedade chinesa com um dinamismo imenso. Ouvi mais de uma vez, de autoridades e estudiosos, que a experiência chinesa atual é inédita na história mundial. No Brasil e no Paraná, ainda há um preconceito enorme pela China ser um país comunista, por adotar o chamado socialismo chinês. A China sofre manifestações de xenofobia.

Esse preconceito cresceu no governo Bolsonaro, que tinha uma visão ideológica das relações comerciais?

Sim. O governo Bolsonaro teve uma hostilidade explícita em relação à China, o que é uma burrice sob todos os aspectos. Criar essa hostilidade com um país que representa o avanço da tecnologia e os avanços sociais. A gente tem que se espelhar na China.

Na viagem, o senhor se encontrou com Dilma Rousseff antes de ser reeleita para presidir o Brics. Sobre o que conversaram?

Fomos recebidos pela presidenta Dilma Rousseff na sede do New Development Bank, que é o [bando do] Brics. A presidenta Dilma nos recebeu lá e foi de uma gentileza imensa. Conversamos principalmente sobre dois projetos que o MST está desenvolvendo com a China. O primeiro é a transferência de tecnologia e maquinários agrícolas para pequenas propriedades, voltado à agricultura familiar e à agroecologia. No Paraná, a agricultura familiar é a principal produtora de alimento, mas ainda há carência de equipamentos agrícolas adequados para essas pequenas propriedades. 

O segundo projeto envolve o tratamento de resíduos orgânicos para produção de bioinsumos, que são fertilizantes orgânicos para a agricultura familiar. A China tem empresas especializadas nesses segmentos, e o MST está articulando parcerias para trazer essas soluções ao Brasil.

Comitiva se encontrou com a ex-presidente Dilma Rousseff, que foi reeleita posteriormente para presidir o banco do Brics. Foto: Assessoria de Imprensa/PDT-PR

A viagem contou com uma comitiva com integrantes do MST. Qual era o foco?

Fiz questão, tanto com a presidenta Dilma quanto em outras reuniões que tivemos, de falar do nosso Paraná, seja pela perspectiva da geopolítica do estado, com a tríplice fronteira ou das características da agricultura familiar. Nosso estado é o maior produtor de orgânicos do Brasil. Somos eminentemente agrários, a base da economia é a agricultura e, junto ao latifúndio, com a monocultura e o veneno, temos a agricultura de pequena propriedade, da agricultura familiar e da agroecologia cada vez mais forte. Vimos nessa aproximação com a China uma oportunidade de ampliar essa cooperação.

O Paraná tem uma relação bem próxima com a China, certo?

Lembrando também outro ponto importante, o Paraná tem no seu Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), um dos maiores terminais da América Latina. O TCP é administrado por uma empresa estatal chinesa, a China Merchants. É curioso, nós estamos vendendo as nossas empresas, privatizando tudo, e a estatal chinesa tem a concessão até 2048. Ou seja, mais um ponto de interlocução concreta, prática e econômica da China com o Paraná. 

Eu não diria que isso tem que se refletir em projetos de lei (PL). Mas eu acho que, em uma articulação, devemos trazer uma presença chinesa maior no nosso estado. Muitos países estão avançando nessa relação de negócios com a China, não é só vender a commodity, mas é também forçar com que a tecnologia chinesa seja produzida no nosso estado.

Os chineses têm movimentos sociais comparáveis aos nossos, como o MST ou os de moradia?

A gente vê o MST, especificamente, que é um movimento que tem 40 anos de luta pela reforma agrária. Muita gente critica o movimento, mas a reforma agrária aconteceu na China em 1949. A propriedade da terra na China não é de particulares, ela é estatal. Então, você não tem uma luta pela terra, porque a reforma agrária já aconteceu e as pessoas podem produzir, podem ter direito à terra. Outro ponto muito fantástico e impressionante é que o país eliminou a pobreza. Estamos falando de um país de 1,4 bilhão de habitantes. Você não vê pessoas na rua, não vê pessoas revirando lixo. Isso é muito impressionante. Nós tivemos a oportunidade de visitar a província de Rongjiang, que foi das últimas regiões a saírem do mapa da pobreza na China oficialmente. Então, acho que são exemplos que podemos trazer para o nosso país.

A China tem cada vez mais dominado o mercado de carros elétricos. Como isso é importante para o meio ambiente?

Goura: Bom, eu acho que a eletrificação é uma tendência, isso tem impacto direto na poluição do ar. Mas, obviamente, se a gente pensar em termos de mobilidade urbana, você tem um congestionamento de carro elétrico, um congestionamento de carro a combustão, queima de combustíveis fósseis, enfim, são ambos congestionamentos que não contribuem para uma mobilidade. Claro que, com mais carros elétricos ou híbridos, você vai ter menos poluição. Isso é um ponto positivo. A China está avançando também em um conceito mais amplo de mobilidade sustentável, priorizando o transporte coletivo. A rede de metrô e transporte ferroviário no país, nos últimos 20 anos, aumentou de forma absurda. Pequim, se eu não me engano, tem 900 quilômetros de linha de metrô. E aqui em Curitiba se fala que não dá para ter metrô porque tem muito rio, a terra é muito úmida. Bom, acho que a China tem muitos rios também e eles estão avançando com tecnologia. 

Na China, o senhor mergulhou em um rio em Pequim. Em Curitiba ou São Paulo, isso seria impensável. O que essa experiência traz para nosso país?

Goura: Os nossos companheiros da brigada do MST em Pequim comentaram que existe o rio Liangma, que se conecta a um lago, e foi revitalizado e se tornou num grande parque linear. As pessoas fazem esportes, curtem e nadam no rio. Isso foi muito impressionante. Estava super frio, mas o Luiz Arref, nosso companheiro, foi entrando e eu falei: “pô, vou ter que entrar no rio também”. Então, a gente mergulhou no rio, nadou, foi de um lado ao outro.

Pensando aqui a nossa realidade de Curitiba, temos rios incríveis, o rio Barigui, o Belém, o Atuba, o Bacacheri e todos eles descem para o grande rio Iguaçu, que está aqui na região Sul da cidade. O potencial que a gente tem de tratar os rios na perspectiva do enfrentamento à mudança climática e da prevenção das enchentes, mas também de trazer o rio para o dia a dia da população é grande. Com isso, você traz qualidade de vida e os serviços ambientais prestados pelo rio. Foi uma experiência incrível. Eu acho que grandes cidades do mundo, que estão tratando o tema do enfrentamento climático de forma muito séria, estão trazendo a visão das bacias hidrográficas. Nós pagamos uma fortuna para a Sanepar, então, precisamos exigir que os nossos rios sejam despoluídos. 

Balanço final. A China é comunista ou é uma economia capitalista com aspectos sociais?

Vou falar a partir do meu conhecimento muito precário sobre a China. Eu estive lá presencialmente, olhei com os meus olhos a situação. Eu não vi pobreza e nem miséria. Vi pessoas felizes e uma articulação social muito grande. A gente sabe que a China é fruto de uma revolução, a Revolução Chinesa de 1949, algo que colocou a vontade popular no poder e que tem determinado nessas últimas décadas as políticas públicas que o país tem construído. Até onde eu sei, a gente tem empresas estatais chinesas e um controle do Estado nos setores estratégicos da sociedade: bancários, infraestrutura e energia. Isso faz com que a China seja, sim, um país que visa o comunismo, a construção de uma sociedade mais igualitária. E se fala muito por lá do socialismo com características chinesas, o socialismo chinês. Aqui é diferente da experiência do socialismo de Cuba, da União Soviética.

A China tem muito a nos ensinar, é uma sociedade milenar, desde Confúcio, todas as experiências da medicina chinesa, da agricultura chinesa, enfim. E, obviamente, agora é uma vanguarda de tecnologia e infraestrutura. O que a gente viu lá em termos de infraestrutura urbana, ferroviária, rodoviária, de fortalecimento do escoamento da produção agrícola, é fenomenal. É algo extraordinário mesmo. Então, eu acho que o desejo agora é de conhecer cada vez mais a experiência chinesa.

De volta ao Brasil, o senhor lidera o movimento “Curitiba que Queremos”. O que pretende e qual avaliação faz dos 100 dias de Eduardo Pimentel?

Eu estive na Câmara Municipal de Curitiba (CMC) e nós apresentamos aos 38 vereadores a plataforma do CQQ, que é o Curitiba Que Queremos. É uma plataforma que nós compilamos nesses últimos dois anos, ouvindo especialistas, universidades, movimentos sociais e servidores públicos. É uma plataforma que trata das questões da administração pública.

A CMC vai começar o processo de revisão do Plano Diretor. O Plano Diretor é um processo muito importante para podermos direcionar o desenvolvimento urbano da cidade. Disso que eu estou falando há muito tempo, que Curitiba é uma cidade conurbada com a região metropolitana. Nós precisamos de políticas integradas na área da habitação, da mobilidade, da segurança alimentar, do meio ambiente e isso tudo tem que estar presente na discussão do plano diretor. 

Mobilidade urbana foi central na viagem à China. Foto: Assessoria de Imprensa/PDT-PR

O CQQ é uma plataforma aberta e em construção. Junto com isso, eu também entreguei esse documento, alguns meses atrás, ao prefeito Eduardo Pimentel, entendendo que a gente tem que contribuir com o desenvolvimento da cidade. E as boas ideias que nós conjugamos estão à disposição do gestor. Nós tivemos cerca de 20% dos votos. É bastante coisa. E eu não tenho dúvida alguma que esses votos foram decisivos para que a extrema direita não vencesse em Curitiba. Então, eu creio também que o prefeito Eduardo Pimentel sabe disso.

Curitiba é uma cidade fantástica, mas ela tem que ser assim para toda a população. Ela tem que ser incrível para quem mora no Tatuquara ou no Sabará. Nós temos gravíssimos problemas sociais e ambientais, o enfrentamento desses problemas exige de todos nós uma postura de construção cívica política de quem está na Assembleia, de quem está na Câmara Municipal. E cabe ao prefeito escutar e saber como agir. Não adianta também a gente só fazer a crítica se a gente não aponta o caminho de soluções possíveis.

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