Ordem dos Engenheiros quer dar formações e envolver empresas na reconstrução

A Ordem dos Engenheiros quer organizar ações de formação na Venezuela e envolver empresas portuguesas na reabilitação de edifícios nas zonas mais afetadas pelo sismo e em coordenação com as autoridades locais.

A proposta passa por mobilizar engenheiros portugueses até à Venezuela para dar formações aos homólogos do país, disse o membro do Conselho de Admissão e Qualificação da Ordem dos Engenheiros, Luís Guerreiro, que esteve na semana passada na Venezuela com o Presidente do Colégio de Engenharia Civil desta associação profissional, Humberto Varum.

“Será necessário dar um bom apoio de ponto de vista da engenharia e, por isso, poderão haver necessidades e oportunidades para que empresas de projeto, empresas que trabalham na avaliação e na reabilitação e empresas de construção possam dar uma contribuição importante para a reconstrução do território”, defendeu Humberto Varum.

Embora admita que ainda não existe um plano bem definido, Luís Guerreiro referiu que o objetivo imediato passa por ajudar a engenharia venezuelana com engenheiros portugueses.

Para isso, pretendem arranjar forma de “financiar e de levar” engenheiros portugueses até à Venezuela, quer através de “programas internacionais de apoio”, quer de iniciativas que as empresas queiram desenvolver diretamente com os seus meios.

“Sentimos que há um apoio forte e uma vontade muito marcada de poder ajudar a Venezuela com os meios e recursos que sejam possíveis de disponibilizar”, continuou.

Os dois engenheiros estiveram na Venezuela entre os dias 11 e 15 deste mês para apoiar os esforços humanitários e avaliar a segurança das estruturas nas zonas mais afetadas pelo sismo do mês passado.

No terreno, os engenheiros depararam-se com vários edifícios que exibiram um “mau comportamento”, ou seja, que ruíram face ao sismo por não possuírem resistência, capacidade de deformar sem colapsar, ou a rigidez necessária para resistir ao terramoto sem colocar a estabilidade da infraestrutura em risco.

“Estamos a falar de edifícios que pela ação, pelo tipo do terreno e pela construção estrutural acabaram por colapsar. É um número muito significativo e a determinar ainda”, explicou Humberto Varum.

Pelo menos 856 edifícios foram afetados pelo duplo sismo, dos quais 190 colapsaram, segundo as autoridades venezuelanas.

Muitos destes edifícios que colapsaram, segundo os especialistas, tinham sido construídos antes das regulamentações mais recentes e que compreendem normas sísmicas mais apertadas, em contraste com alguns dos prédios erguidos após atualizações à regulamentação que resistiram.

Em termos de infraestruturas críticas, como hospitais e escolas, Luís Guerreiro referiu que alguns hospitais sofreram danos, mas que não limitaram a sua utilização e acrescentou que as principais unidades de saúde estão a funcionar.

Os especialistas estiveram também em contacto com representantes do Governo venezuelano que expressaram preocupação com a situação nas escolas e que lhes transmitiram a vontade de fazer uma avaliação rigorosa e propor soluções de reforço a estas infraestruturas.

“Não é das urgências maiores identificadas, mas sentimos uma enorme sensibilidade para este problema e para a avaliação e eventual reforço no futuro deste tipo de infraestruturas”, explicou Humberto Varum, acrescentando que os estabelecimentos de ensino nas áreas afetadas ainda não foram reabertos.

O engenheiro adiantou que a estratégia inicial das autoridades locais tem passado por conduzir avaliações de três níveis: verde, amarelo e vermelho.

Edifícios a verde são libertados e é dada permissão aos residentes para voltarem, enquanto os classificados a amarelo e vermelho serão alvo de novas perícias e poderão ser reabilitados ou mesmo demolidos.

Ainda assim, Humberto Varum referiu que é prematuro tirar conclusões sobre se o tipo de construção nestas áreas era o mais adequado sem que seja feito primeiro um estudo profundo sobre o comportamento destas infraestruturas, estudo esse que pretende que a Ordem dos Engenheiros esteja envolvida.

“Deste estudo, além da identificação mais rigorosa das causas do colapso ou do pior comportamento dos edifícios, provavelmente irão ser elaboradas um conjunto de recomendações para a reconstrução nesta área”, indicou.

Os sismos registados na Venezuela em 24 de junho causaram pelo menos 5.208 mortos e 16.740 feridos, segundo o mais recente balanço oficial.

Entre os mortos, há pelo menos 120 portugueses e lusodescendentes, e outros 50 estão desaparecidos.

Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo, e foram seguidos por centenas de réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

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