MST na Venezuela? Militante explica à internacionalização do movimento

Ao Mundioka, postcast internacional da Sputnik Brasil apresentado pelos jornalistas Melina Saad e Marcelo Castilho, a integrante da coordenação política do MST na Venezuela, Rosana Fernandes, falou um pouco sobre o que está por trás desse reconhecimento pelo governo venezuelano, iniciado ainda durante o governo de Hugo Chávez (1999–2013).
#586 Mundioka - Sputnik Brasil, 1920, 01.04.2025

Venezuela e MST: a busca da soberania alimentar contra os ataques ocidentais

Existente desde 2005, a parceria entre o governo venezuelano e o movimento agrário brasileiro se deu a partir de uma visita do então presidente Chávez a um dos assentamentos do MST no Rio Grande do Sul. Lá, ao perceber a afinidade política e ideológica com o grupo, uma relação entre os dois foi formada, que culminou na desapropriação de terras para os camponeses.

Inicialmente, no ano passado, foi dado ao MST um lote de 10 mil hectares que hoje compõem a maior área de 180 mil. Denominado Pátria Grande do Sul, o assentamento busca formar no país projetos de educação popular e produção agroecológica, isto é, de uma agronomia em conjunto com a natureza que dispensa o uso de agrotóxicos.

“O MST está presente na Venezuela já há 20 anos. Este ano está completando, a partir de uma brigada organizada de militantes do movimento em várias áreas de atuação, educação, formação, produção, assim como a questão de organização das mulheres.”

A experiência do assentamento, disse Fernandes, está inserida no maior projeto venezuelano de alcançar soberania alimentar do país, de modo a diminuir a necessidade de importar alimentos.

Para isso, a agroecologia tem encontrado ótimos resultados na produção de alimentos. Composto por mais de mil famílias indígenas e de conselhos comunais, o Pátria Grande do Sul possui um “resultado muito grande na produção” dos alimentos típicos do país, como mandioca, frutas, legumes e pimentas.

“O que nós precisamos avançar no território é um processo de comercialização. Muitas dessas produções […] até então têm muita dificuldade de escoar para os grandes centros.”

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Como afirma Fernandes, a experiência do MST para a soberania alimentar também é válida para o Brasil. Cerca de 70% dos alimentos que chegam no prato do brasileiro têm origem na agricultura camponesa, destacou.

“Nós sempre fazemos esse debate fazendo uma comparação também com o que o agronegócio produz. O agronegócio não produz comida para o povo brasileiro.”

Humildade para aprender

Rosana Fernandes ressaltou ao podcast que o movimento não vai à Venezuela para “fazer experimentos” que não tenham tido bons resultados dentro das próprias experimentações do MST, mas se coloca à disposição dos povos locais para aprender e compartilhar suas experiências.

“Nós temos, por exemplo, todo um trabalho sobre cooperativas, seja cooperativa de arroz, seja cooperativa de suíno, de leite, de café, de cacau. Essas são experiências que nós queremos aportar aqui na Venezuela.”

Um exemplo dessa colaboração é justamente a agroindustrialização do cacau, produto que é presente em ambos os países e com o qual os camponeses venezuelanos já têm experiência.

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Ao mesmo tempo, os camponeses brasileiros tem também humildade para aprender com os colegas venezuelanos. Um dos maiores aprendizados, afirmou Fernandes, é a capacidade de mobilização de massa. “As organizações populares têm uma força de massa popular”, disse.

“As mobilizações, as marchas que ocorrem na capital todas as semanas, praticamente é uma marcha, sempre são massivas. E a gente fica comparando ao Brasil, como nesse último período as mobilizações de massas têm sido esvaziadas.”

O movimento camponês é internacional

Não é só na Venezuela em que há militantes do MST trocando experiências. Há também uma forte cooperação com movimentos agrários da China, destacou Fernandes, construída graças à articulação da Via Campesina internacional. “A China é um exemplo para o mundo da questão tecnológica e dos avanços da ciência.”

Segundo a coordenadora política do MST, a articulação internacional é fundamental para a sobrevivência da organização frente às ofensivas capitalistas e imperialistas.

“Então é uma demonstração de que o MST está articulado. O MST, na verdade, não sobreviveria há quatro décadas com todas as ofensivas — e segue se mantendo ofensiva em relação ao MST — se não fosse a solidariedade internacional.”

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