Duas religiosas da Congregação das Irmãzinhas de Santa Teresa do Menino Jesus estão entre as vítimas mortais de uma violenta ofensiva lançada por gangues em mais uma localidade do centro do Haiti, na última semana. Na sequência deste ataque em Mirebalais, “várias pessoas foram mortas, todos os prisioneiros fugiram e os bandidos estão a ocupar a cidade”, confirmou o arcebispo da capital Port-au-Prince, Max Leroy Mésidor, à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
“O país tornou-se num inferno para todos”. As palavras do presidente do Conselho de Transição do país, Fritz Alphonse Jean, publicadas na imprensa esta quarta-feira, 3 de abril, são reveladoras sobre o que se passa na ilha caribenha. Na segunda-feira, a coligação de gangues Vivre Ensemble atacou os arredores de Mirebalais, que fica a cerca de sessenta quilómetros de Port-au Prince, e, apesar da intervenção das forças de segurança, ainda mantém o controlo da cidade, considerada estratégica por abrigar o Hospital Universitário, o mais avançado do país.
Era nesta cidade que se encontravam em missão as duas freiras “brutalmente assassinadas”, Evanette Onezaire e Jeanne Voltaire. Devido aos ataques de gangues armados, as religiosas “foram obrigadas a refugiar-se com outras pessoas numa casa. Infelizmente, os atacantes descobriram o esconderijo e mataram todo o grupo”, relata a Fundação AIS, alertando para o facto de esta nova onda de violência, já a dezenas de quilómetros da capital onde até agora se concentravam a maior parte dos ataques, refletir o “agravamento considerável da situação no país nos últimos dias”.
A carta sofrida do arcebispo de Port-au-Prince
Max Leroy Mésidor, arcebispo de Port-au-Prince, diz que “a lista de congregações religiosas em dificuldades é longa”. Foto © Salesianos
Numa missiva aos religiosos e religiosas da arquidiocese, citada pela Fundação AIS, o arcebispo Mésidor descreve a gravidade da crise que se está a viver e o modo como esta afeta, em particular, a Igreja Católica no país. “Estamos a viver um dos piores momentos da nossa história como povo. Para não pôr sal na ferida, abstenho-me de enumerar tudo o que estão a sofrer devido à insegurança generalizada que afeta os nossos compatriotas há vários anos. No entanto, não posso deixar de recordar alguns acontecimentos das últimas duas semanas: as comunidades religiosas foram deslocadas, muitas das suas escolas foram encerradas, as irmãs idosas e doentes tiveram de ser evacuadas a meio da noite e as congregações tiveram de abandonar os seus lares de idosos sem lugar para acolher as irmãs doentes”, escreve o líder católico.
A mensagem continua: “A lista de congregações religiosas em dificuldades é longa. Não tenho palavras para descrever o que está a acontecer actualmente em Port-au-Prince. É uma realidade incrível. Os nossos irmãos e irmãs consagrados fazem parte ativa do sofrimento do nosso povo”, sublinha o prelado.
E não fica por aqui: “Vinte e oito paróquias da arquidiocese de Port-au-Prince estão encerradas, enquanto cerca de quarenta estão a funcionar a um ritmo reduzido devido ao controlo dos gangues nos seus bairros. Os padres foram obrigados a fugir, procurando refúgio junto das suas famílias ou de outros membros do clero. Precisam de ajuda. A arquidiocese também está em dificuldades”, explica o arcebispo.
E conclui: “Aqui no Haiti, a nossa Quaresma é verdadeiramente uma provação, mas oferecemo-la em comunhão com os sofrimentos de Cristo. O Haiti está em chamas e precisa urgentemente de ajuda, quem virá ajudar-nos?”.
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