Do exílio à Copa, Haiti desafia o Brasil embalado por história de resistência: ‘Podemos surpreender’
Copa do Mundo 2026: Haiti 0 x 1 Escócia, confira os melhores momentos!
Escoceses ficam na liderança da Chave C; haitianos têm dura missão diante dos favoritos nas próximas rodadas. Crédito: Cortesia: CazéTV
EAST RUTHERFORD – Considerado o rival mais frágil do grupo em que está o Brasil, o Haiti é o próximo adversário da seleção brasileira na Copa do Mundo. Depois de empatar com o Marrocos, a equipe comandada por Carlo Ancelotti enfrenta os haitianos na sexta-feira, 19, no Estádio Lincoln Financial Field, na Filadélfia,
Classificar-se ao Mundial da América do Norte é um dos maiores feitos do Haiti, um pequeno país da América Central prejudicado por desastres naturais e profunda crise política e humanitária. Na América do Norte, estreou com derrota para a Escócia por 1 a 0. Busca, portanto, marcar seus primeiros gols e a primeira vitória na competição.
Os haitianos disputam a competição carregando uma história de resistência. Depois de 52 anos longe do Mundial e de uma campanha disputada praticamente no exílio, a seleção caribenha tenta transformar o futebol em símbolo de esperança para uma nação acossada por problemas sociais.

Torcedores do Haiti assiste, em Porto Príncipe, à estreia da seleção nacional na Copa do Mundo, contra a Escócia. Foto: Clarens Sifroy / AFP
A campanha da seleção foi recebida como um raro motivo de união nacional e também de orgulho para a numerosa comunidade haitiana espalhada pelo mundo, especialmente nos Estados Unidos e no Canadá, dois dos anfitriões do Mundial.
Para se classificar ao Mundial da América do Norte, o Haiti ficou em primeiro no Grupo C das Eliminatórias da Concacaf, superando Honduras, Costa Rica e Nicarágua. Foram três vitórias, dois empates e uma derrota. Na fase anterior, garantiu as chances de classificação apenas no segundo lugar, três pontos atrás de Curaçao.
Está na 83ª posição do ranking da Fifa e é a segunda pior ranqueada a participar do torneio, à frente apenas da Nova Zelândia (85ª). “Apesar de serem uma força enorme, o Brasil é a seleção que todo mundo quer enfrentar em uma Copa do Mundo”, disse o lateral Martin Experience.
‘Podemos ser a surpresa do torneio’
Sébastien Migné, de 52 anos, é desde março de 2024 o treinador dos Les Grenadiers” (“Os Granadeiros”), epíteto que se refere aos soldados da Revolução Haitiana, movimento que levou à independência do país em 1804.
O técnico francês esteve no comando durante toda as eliminatórias. Antes disso, o técnico nascido em La Roche-sur-Yon foi jogador na década de 1990, chegando a atuar na Inglaterra por algumas temporadas nas divisões inferiores.
“Podemos ser uma das surpresas do torneio”, acredita Migné, segundo o qual o Haiti não veio aos Estados Unidos para “passear”. O futebol é um jogo, e no fim há um perdedor e um vencedor. Se quisermos vencer, temos que marcar gols seja contra qual adversário for”.
Vendo nossos oponentes (do grupo), temos que elevar nosso nível. Se quisermos fazer história, merecer a primeira vitória e uma chance de classificação, temos que marcar contra qualquer oponente. Talvez nossos jogadores sejam menos conhecidos, mas o que importa é a marca que você deixa.
Sébastien Migné, técnico do Haiti
Migné se tornou treinador aos 26 anos e trabalhou em vários clubes na França antes de iniciar sua trajetória em seleções, sempre como assistente. Trabalhou em Omã, na RD do Congo, no Congo e no Togo, até assumir o comando do Quênia, que se classificou para sua primeira Copa Africana de Nações em 15 anos, em 2019.
Também comandou Guiné Equatorial e um único clube, o Marumo Gallants, da África do Sul. A atual crise de segurança no Haiti é tão grande que Migne nunca pisou no país. A seleção mandou seus jogos das Eliminatórias em Curaçao.
Os destaques do Haiti
Autor de 44 gols, o maior artilheiro da seleção haitiana ainda defende a seleção caribenha. Trata-se do centroavante Duckens Nazon, de 32 anos. Com passagens pelo Wolverhampton, da Inglaterra, o camisa 9 é nascido na França e atua hoje pelo Esteghlal, do Irã.
Outro destaque é o meia-atacante Ruben Providence, de 24 anos. Assim como Nazon, ele nasceu no subúrbio de Paris. Providence chegou a jogar pelas bases de Paris Saint-Germain e Roma e na seleção sub-19 da França.

Ruben Providence, do Haiti, executa passe em partida contra a Escócia. Foto: Mattia Ozbot/Getty Images via AFP
O primeiro convite para representar o Haiti veio em 2023 e foi recusado pelo jogador. Ele mudou de ideia neste ano e foi chamado para o grupo que disputou a Copa Ouro. Providence teve boa atuação nas Eliminatórias, com dois gols e uma assistência em sete jogos.
Haitianos estrearam em Copas em 1974
Os haitianos estrearam na edição de 1974. Na Alemanha Ocidental, caíram em um dos grupos mais difíceis, com a então vice-campeã Mundial Itália, a Argentina de Mario empes e a Polônia de Grzegorz Lato, que terminaria aquele torneio em terceiro lugar.
Os comandados de Antoine Tassy perderam os três jogos – 3 a 1 contra a Itália, 7 a 0 contra a Polônia e 4 a 1 contra a Argentina. Ainda assim, orgulham-se de ter conseguido marcar dois gols, ambos de Emmanuel Sanon contra Itália e Argentina. É o único haitiano a balançar a rede em Copas e, portanto, o maior artilheiro do país.
“Para nós, haitianos, esse continua sendo o melhor resultado que já alcançamos. Conseguimos igualar o placar com os italianos por algum tempo e, mais do que isso, conseguimos zombar de Zoff”, declarou Philippe Vorbe, autor do passe para o gol de Sanon contra a Itália, em referência ao lendário goleiro italiano Dino Zoff.

Ruben Providence em ação pelo Haiti na Copa do Mundo Foto: Franck Fife/AFP
O Jogo da Paz
Existe uma conhecida conexão entre Brasil e Haiti. Em 2004, a seleção brasileira, então campeã do mundo, foi a Porto Príncipe para um amistoso que ficou conhecido como “Jogo da Paz”.
A partida ocorreu enquanto 600 soldados brasileiros participavam de uma missão de paz promovida pelas Nações Unidas no Haiti, que sofria com conflitos internos. A iniciativa veio depois de o primeiro-ministro do Haiti, Gerard Latortue, sugerir que a seleção brasileira seria capaz de mobilizar os rebeldes por um cessar-fogo.
O Brasil venceu por 6 a 0, com três gols de Ronaldinho Gaúcho, dois de Roger Flores e um Nilmar. O “jogo da paz” virou tema do documentário “O Dia em que o Brasil Esteve Aqui”, de Caíto Ortiz e João Dornelas, lançado em 2005. A CBF recebeu o Prêmio Fifa Fair Play em 2004 pela ação. O Brasil voltou a jogar contra o Haiti em 2016, quando goleou por 7 a 1.
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