O céu está escuro feito breu e o zumbido de insetos é o único som na floresta de altitude. Meu guia, Jhon Alva, está me levando em uma caminhada de três horas desde a cidadezinha de Cocachimba até as Cachoeiras Gocta, entre as mais altas cascatas de queda livre do mundo. Na trilha escura, não tenho escolha a não ser confiar completamente em Alva, dando cada passo cuidadosamente no piso cheio de vapor. O dia nasce ao alcançarmos um vale exuberante onde a luz do sol logo inunda as torrentes em queda, flanqueadas por infinitas camadas de despenhadeiros. Não há uma pessoa sequer à vista. Consigo escutar as palavras de Rocio Florez, proprietário da Gocta Natura Reserve, ecolodge onde estou hospedada: “Dizem que aqui é como Cusco 30 anos atrás”.
A maioria dos turistas que vão ao Peru logo se dirige para Machu Picchu e o Vale Sagrado, no sul, para observar os feitos dos incas. Mas aqui, na região do Amazonas, o clima é mais tropical que andino, e os antigos habitantes mais famosos são os Chachapoya, povo que os incas a certa altura colocaram de escanteio. Meu parceiro, Henry, é peruano e, ao longo da última década, visitamos seu país natal várias vezes para conhecer as principais atrações – trilha até Machu Picchu, flutuar ao longo do Amazonas, tigelas e mais tigelas de ceviche em Lima e por aí vai. Mas, até o momento, tudo o que eu sabia sobre esse canto do mundo era o rumor sobre sítios arqueológicos ainda intocados perdidos na floresta.
Para esta minha primeira viagem solo ao Peru, quis explorar novos terrenos. Como muitos peruanos, Marisol Mosquera, fundadora da Aracari Travel, está ávida por mostrar aos viajantes que há muito mais no país. Então fui procurar sua equipe para me ajudar a orquestrar uma aventura de dez dias pelos principais pontos menos conhecidos do Peru: explorar as ruínas antigas do Amazonas antes de partir para Puno e Arequipa, onde tradições andinas se combinam com a arquitetura espanhola contando com um cenário de paisagens vulcânicas. Ela decidiu que o Norte era o lugar natural para eu começar. As riquezas do Amazonas são como sua paisagem antes do nascer do dia – encobertas por mistério e lentamente sendo reveladas.
“A área pode ser uma das mais ricas, em termos arqueológicos, do Peru”, diz Rob Dover, o primeiro guia que a Aracari coloca em minha viagem. Estamos nos aproximando do sítio deserto de Cambolín, perto da cidade de Chachapoyas, em um topo de montanha acarpetado por flores selvagens. Aqui, os resquícios de um assentamento que data de 500 anos atrás, com pegadas tanto dos Chachapoyas quanto dos incas, permanecem mesmo com o vento açoitante; os únicos outros visitantes são duas éguas pastando.
Durante o trajeto de carro de duas horas e meia entre Cocachimba e La Jalca, o primeiro assentamento espanhol da região, Dover e eu ganhamos a companhia de Peter Lerche, um arqueólogo nascido na Alemanha que passou a maior parte da vida no Amazonas. Ele aponta quase uma dúzia de estruturas incas e pré-incas no caminho, com um sorriso maroto no rosto ao me contar sobre exploradores como Gene Savoy, um americano que começou a ir ao Peru na década de 1960 em busca do El Dorado. Credita-se a Savoy a “descoberta” de vários assentamentos antigos no Peru, incluindo Gran Vilaya, uma vasta área com mais de 30 sítios arqueológicos. “É fácil dizer: ‘Uma nova cidade no Amazonas! Uma cidade perdida no Amazonas!’. Há ruínas por todos os lados”, diz Lerche. “Certa vez, comecei a contar e havia mais de 250 sítios na região”, completa.
Do Amazonas, Marisol me manda para o sul, fora da selva e para o planalto andino. Eu esperava que a cidade de Arequipa, da era colonial, com suas construções em estilo espanhol esculpidas a partir de pedra vulcânica branca, pudesse ser meu ponto de partida para alcançar Puno, na costa do Lago Titicaca. Mas as últimas chamas dos protestos políticos que tiveram início em dezembro de 2022 ainda queimam. Em vez disso, permaneço em Arequipa, a segunda maior cidade do Peru, cujas tradições culinárias, a maior parte dos peruanos irá concordar, excedem de longe as de Lima. Porque o coração de Arequipa é feito para ser explorado a pé, é fácil ziguezaguear entre monastérios históricos e refeições fantásticas. Começo onde qualquer visita a Arequipa deveria começar: em uma picantería. Esses restaurantes estilo caseiro são conhecidos por produzir pratos como rocoto relleno, uma pimenta ardida recheada com muita carne e queijo, e chupe de camaronês, uma sopa cremosa de lagostim.
Esses pratos se expandem pelo que veio antes e depois da chegada dos espanhóis. As pequenas batatas pretas em uma sopa na picantería La Nueva Palomino se chamam chuño, que comunidades mais antigas que a Chachapoya aprenderam a secar por meio do congelamento usando a geada. Foram encontradas evidências disso na fronteira boliviana em Tiwanaku, um sítio encontrado já no ano de 110 da era comum. E a chicha é uma bebida inca, algo de que sou lembrada quando me encontro com Franz Grupp Castello, diretor do Museo Santuarios Andinos. Dentro do ambiente com ar-condicionado do museu, a alguns passos dos artistas de rua e vendedores de sorvete que lotam a praça principal de Arequipa, ele me leva para ver uma múmia inca chamada Juanita, encontrada em 1995, depois de uma erupção vulcânica no Monte Ampato.
Volto a Lima para terminar minha viagem com um fim de semana vagando por ruas que eu esperava que fossem familiares. Em vez disso, dirigimos por meia hora subindo o litoral até a cidade portuária de Callao, que tem cantores de salsa incríveis, frutos do mar fantásticos e uma reputação corajosa.
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