“Definitivamente não vai acontecer”. Venâncio Mondlane garante com estas palavras ao Observador que não vai receber Paulo Rangel em Moçambique. “Não há condições de segurança”, justifica o candidato presidencial.
O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, e número dois do Governo de Luís Montenegro, tem estado em Maputo esta quarta e quinta-feira, para assistir à tomada de posse do presidente que venceu oficialmente as eleições, Daniel Chapo, e também para se encontrar com forças da oposição, tendo estado já reunido com Albino Forquilha, o líder do Podemos, segundo partido mais votado.
Havia grande expetativa para saber se haveria um encontro entre Paulo Rangel e Venâncio Mondlane, depois de o candidato presidencial ter dirigido violentas críticas ao governante português, acusando-o de não ter feito praticamente nada para tentar intermediar a crise pós-eleitoral em Moçambique.
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Venâncio Mondlane criticou Paulo Rangel em declarações ao Observador e também num direto nas redes sociais. Acusou-o de ter mentido aos portugueses e ao mundo, quando disse que tinha mantido contactos com o Vaticano sobre a crise em Moçambique. E também não perdoou que o ministro tenha dito numa entrevista que “tem mantido” contactos com Venâncio Mondlane, revelando que houve apenas uma conversa telefónica, durante uma reunião com o embaixador de Portugal em Maputo.
Paulo Rangel disse na altura ao Observador que mantinha tudo o que tinha dito sobre os contactos com o Vaticano. E esta quarta-feira em Maputo afirmou que recebia com fair-play as críticas que lhe tinham sido dirigidas. O embaixador português, António Costa e Moura, tentou agendar o encontro presencial entre o ministro dos Negócios Estrangeiros e Venâncio Mondlane, que podia realizar-se esta quinta-feira antes de o governante regressar a Lisboa.
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Segundo fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros, “havia total disponibilidade” para essa reunião. Houve alguma incerteza sobre se seria viável, mas a decisão final do candidato presidencial acabou por ser negativa, invocando as questões de segurança. Venâncio Mondlane assegura ao Observador que a decisão não foi influenciada pela sua avaliação crítica do trabalho de Paulo Rangel e que estaria disposto a discutir essas críticas pessoalmente, mas entendeu que a questão da segurança devia ser prioritária neste momento.
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O ministro dos Negócios Estrangeiros falou aos enviados especiais do Observador e da CNN antes de sair de Maputo: “Não há recusa absolutamente nenhuma. O que aconteceu é que por motivos atendíveis e compreensíveis, que eu não vou invocar porque eles foram transmitidos pelos canais próprios, até à hora em que eu estou em Maputo não havia possibilidade. Foi uma coisa que nos foi comunicada ontem à noite, depois de estar agendada e marcada já há 48 horas”.
As razões de segurança que impedem o encontro em Maputo neste momento devem, no entender de Paulo Rangel, levar a que esse contacto ocorra noutra altura: “Temos o maior apreço e respeito pelo candidato Venâncio Mondlane. E obviamente temos o maior empenho. Falaremos com ele noutra oportunidade, como ele próprio disse.”
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Paulo Rangel foi recebido esta manhã pelo presidente Daniel Chapo e reuniu-se também com dirigentes da oposição, incluindo Albino Forquilha, o líder do Podemos, partido que apoiou a candidatura de Venâncio Mondlane, mas com quem se incompatibilizou recentemente, por divergências sobre a forma de gerir a crise pós-eleitoral em Moçambique.
O ministro dos Negócios Estrangeiros referiu que no encontro com o Presidente Daniel Chapo discutiu a cooperação entre Portugal e Moçambique e o papel da União Europeia nesta nova fase, mas não quis comentar eventuais futuras negociações entre Chapo e Mondlane, nem o papel que Portugal possa ter nessa mediação: “Houve grande disponibilidade de todos para diálogo. Todos podemos ajudar. Mas os problemas de Moçambique têm de ser resolvidos pelas forças políticas em Moçambique. Com este novo ciclo, há capacidade para se entrar numa era de estabilidade e prosperidade.”
Questionado sobre se durante a cerimónia de tomada de posse ouviu os tiros que eram disparados do lado de fora para dispersar os manifestantes, Paulo Rangel respondeu: “Não me apercebi. Mas desde o início Portugal sempre lamentou e condenou toda a violência e toda a desproporção que foi utilizada. Esse padrão que temos desde o início desta crise é o que vamos manter.”
E numa situação em que Moçambique tem um presidente oficial e um auto-proclamado presidente do povo que vai anunciar esta sexta-feira as suas medidas para os primeiros cem dias, para o setor privado e para o setor público, a quem é que os portugueses que estão em Moçambique devem obedecer? “Essa pergunta não tem grande sentido”, respondeu Paulo Rangel. “Estamos em profunda ligação com a comunidade portuguesa. Os portugueses não interferem na política de Moçambique. Os portugueses estão aqui para cooperar.”
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