A temporada do futebol brasileiro entra numa curiosa etapa em que tudo parece, ao mesmo tempo, definitivo e provisório. Definitivo porque as competições entram numa reta final, e cada tropeço pode ser fatal. Provisório, porque as arquibancadas país afora vivem os jogos enquanto sonham com especulações de mercado, tentam se acostumar com novos jogadores e tentam projetar o futuro de times em transformação. É o efeito colateral de um campeonato jogado com a janela aberta.
Contando apenas jogadores que fizeram suas primeiras aparições por suas equipes, ou aqueles que ficaram no banco, mas ainda não estrearam, houve 16 caras novas na rodada do fim de semana do Campeonato Brasileiro. Tudo isso sem contar os ainda não relacionados, os não inscritos e as mais de três dezenas de contratados que já estrearam no Brasileirão após o fim da Copa do Mundo.
Reforços renovam esperanças, e não por acaso o noticiário sobre mercado atrai tanto interesse. Por outro lado, a sensação de um campeonato jogado por elencos permanentemente em transformação e com profundas mudanças em uma janela que vai até a 27ª rodada, alimenta a percepção de que qualquer problema de uma equipe deve ser resolvido com novos nomes, com reforços, e não com continuidade. A instabilidade não faz bem, não estimula projetos traçados no início da temporada. E leva o torcedor a não enxergar quem está em campo como o seu time, mas como um grupo de personagens transitórios de algo que vai melhorar quando eles forem trocados por outros.
E aqui vale uma ressalva: a longa janela no meio do Brasileirão é quase uma necessidade, ao menos enquanto a América do Sul não sincronizar seu calendário com a Europa. Este é o período do ano em que os europeus mais contratam e, naturalmente, época em que os clubes nacionais precisam buscar reposições.
O Vasco que foi à Bahia, por exemplo, mostrou que o projeto coletivo com o comando de Pedro Emanuel fez o time melhorar. A equipe, que ainda sofre na zona de rebaixamento, fez um confronto equilibrado com o sexto colocado. Ao mesmo tempo, o 0 a 0 de qualidade técnica duvidosa, tornou impossível não pensar na necessidade das estreias de Sosa e Colidio, os recém-contratados que se preparam para ingressar no elenco. Este último, aliás, deve ter povoado o pensamento do torcedor num jogo em que a dificuldade para encontrar um definidor de jogadas voltou a custar caro.
Mais tarde, o Flamengo enfrentou o Vitória no Maracanã em uma situação curiosa. Tem o elenco mais estelar do país, mas ambições tão grandes que a sensação de que é preciso contratar parece permanente. Em especial quando não lidera o Brasileiro e vem de atuações abaixo do desejável. Tudo isso, somado a uma semana em que o clube soube que não terá nem Almada, nem Luiz Henrique, altera o humor da arquibancada.
Dadas as aspirações rubro-negras, é justo dizer que o elenco tenha um ou outro ponto com margem para melhorar. Por exemplo, encontrar ao menos mais um jogador que tenha intimidade com o gol. Em campo, contra o Vitória, o time mostrou que tem o suficiente para jogar bom futebol. Afinal, a reunião de qualidade técnica ainda é muito alta.
A partida, de placar magro para o que foram os 90 minutos, ao menos devolveu a sensação de um time capaz de exercer grande controle, algo que vinha faltando — mesmo ponderando o desgaste e algumas ausências no Vitória. O Flamengo permitiu pouco ao rival, retomando rapidamente a bola e contando com boas partidas de Carrascal, Samuel Lino e dando minutos de jogo a Paquetá, que será importante contra o Cruzeiro.
Mas é curioso como, no Brasil, jogadores atuam não sob a sombra de seus reservas, mas de reforços que sequer foram contratados.
Chama a atenção como a volta do futebol após 52 dias de pausa veio acompanhada de um problema inesperado: gramados ruins, alguns piores do que antes do recesso. Vasco e Bahia erraram um a cada cinco passes na Fonte Nova, e o campo não foi aliado. O Maracanã piorou em relação ao 1º semestre. Houve reclamações até no sintético do Botafogo, no sábado. O Brasil parecia ter evoluído, mas volta a conviver com uma de suas mazelas históricas.
O Botafogo de Franclim Carvalho é, coletivamente, um time em clara evolução. Mas há uma questão difícil de contornar em tempos de investimentos não tão vultosos quanto em outros tempos: o setor ofensivo é onde há menos fartura de talento, o que cria dificuldades para definir partidas. Tem sido prazeroso ver Montoro jogar, mas o acabamento que os atacantes dão para as jogadas que ele cria não fazem justiça ao jovem argentino.
O Fluminense chega ao mata-mata da Libertadores com problemas a resolver. Na parte coletiva, o time não consegue repetir mecanismos próprios de seu melhor momento na temporada, como as aproximações e trocas de passe pelo meio. Savarino é um dos jogadores que caiu de rendimento. No ataque, a lesão de John Kennedy deixa um vazio, já que Hulk luta para retomar a forma, Cano está distante de seu nível físico e Castillo ainda não se firmou.
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