Em meio à nova política protecionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — prestes a anunciar a sobretaxa universal às suas importações — países da América do Sul lançaram, ontem, um programa voltado ao desenvolvimento de corredores estratégicos para eliminar gargalos ao comércio na região e facilitar o acesso a mercados de outros continentes, como Ásia. Capitaneado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Conexão Sul busca aumentar a escala, reduzir custos e atrair investimentos.
Durante a Reunião Anual do banco de fomento, que ocorre em Santiago, Chile, os governadores do BID e representantes de alto nível da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname e Uruguai assinaram uma declaração de apoio ao novo programa, que havia sido solicitado pelos países sul-americanos. No documento, os países reconhecem a natureza transfronteiriça dos desafios que compartilham e solicitaram o apoio do BID para enfrentá-los, por meio de “uma abordagem regional pragmática”.
O novo programa do BID ampliará a parceria Rotas de Integração, que surgiu no âmbito do Acordo de Brasília, assinado pelos países em maio de 2023 e conta com o apoio do BID, do Fonplata, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e do CAF, Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe. Na ocasião, houve o anúncio de financiamento da ordem de US$ 10 bilhões, dos quais US$ 3 bilhões sairiam do BNDES e os outros US$ 7 bilhões, das demais instituições.
Segundo o Correio apurou, do total US$ 3,4 bilhões prometidos pelo BID, na época, foram desembolsados, até o momento, US$ 1,25 bilhão. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, governadora do banco pelo Brasil, levou para a reunião anual a missão de não só pedir o repasse do valor que resta, como tentar ampliar o aporte, já que, agora, o Conexão Sul redimensiona o programa.
“As Rotas de Integração Sul-Americanas são uma iniciativa política inovadora, resultado de um processo de diálogo com os estados fronteiriços do Brasil, os países da região e o governo federal. Por meio do programa Conexão Sul, podemos fortalecer ainda mais a integração regional e atrair mais investimentos. É essencial impulsionar o comércio de bens e serviços na América do Sul. Com o apoio de instituições multilaterais como o BID, temos uma oportunidade real de gerar mais empregos, maiores rendas e novas oportunidades de negócios”, disse a ministra durante a reunião.
Ao anunciar a nova iniciativa, o presidente do BID, Ilan Goldfajn, afirmou que “o Conexão Sul responde ao mandato de nossos governadores e ao compromisso compartilhado de construir um mercado regional maior, mais integrado e atrativo para investimentos”.
Sem citar valores, Goldfajn destacou que o aprimoramento da conectividade possibilitará cadeias de valor mais fortes e estruturas institucionais modernizadas. “O programa ajudará os países sul-americanos a superar barreiras históricas e gerar novas oportunidades”, disse.
O conexão Sul trabalhará por três pilares: Conectividade, melhorando estradas, portos, hidrovias, redes elétricas e digitais; Cadeias de valor regionais e globais, facilitando o comércio, desenvolvendo a produção local e melhorando a integração do mercado, e Fortalecimento regulatório e institucional, apoiando acordos comerciais, marcos regulatórios e instituições em todos os níveis.
Iniciativa brasileira
Em agendas paralelas à Reunião Anual do BID, Simone Tebet também tratou do projeto das Rotas de Integração Sul-Americana com o secretário executivo da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), José Manuel Salazar-Xirinachs. Os dois discutiram possibilidades concretas de parcerias entre o Ministério do Planejamento e a Cepal para impulsionar o programa de integração regional.
Tebet afirmou que o governo Lula “tem no DNA” a pauta da integração sul-americana e pediu apoio na divulgação do projeto que “não é mais um sonho, é uma realidade que está muito próxima de acontecer”.
O secretário da Cepal afirmou que o “futuro reconhecerá claramente ‘um antes e um depois’ a partir da implementação das Rotas de Integração”. Após tomar conhecimento do andamento do projeto, Salazar-Xirinachs classificou como “fantástico”.
“Não estava tão claro para mim que este plano já estivesse tão integrado, tão avançado e tão completo. A Cepal é a casa da integração, do sonho da integração econômica”, disse.
Embora conte com a participação dos países fronteiriços, o Rotas da Integração é coordenado pelo ministério do Planejamento. Do lado brasileiro, ele integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com 190 projetos de integração Sul-Americana.
Tebet reforçou que a América do Sul oferece um mercado amplo e estratégico. “São 200 milhões de consumidores sul-americanos para produtos brasileiros e outros tantos consumidores brasileiros à disposição da região. Uma visão pragmática e objetiva, que reflete claramente o potencial econômico e comercial dessas rotas”, disse.
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(foto: editoria de arte)
Saída pelo Pacífico mais perto
Rota de Integração Sul-Americana é uma ambição que está nos planos do presidente Luíz Inácio Lula da Silva desde o seu primeiro mandato, em 2003, quando se autointitulou “caixeiro viajante”, sinalizando a intenção de ampliar a posição do Brasil no comércio exterior. No terceiro mandato, sua equipe apressa o passo na tentativa de concluir os projetos até 2026, último ano do governo.
O principal objetivo é, além de possibilitar a ampliação do comércio com os países vizinhos, cujo comércio intrarregional é de apenas 15%, facilitar o transporte das mercadorias brasileiras pelo Oceano Pacífico.
Desde o primeiro mandato, Lula tem se empenhado em acessar os mercados dos países asiáticos, como fez agora nas visitas ao Japão e ao Vietnã, com os quais fechou acordos para venda, principalmente, da carne.
Ontem, durante a sua missão em Santiago, a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, informou que as obras estão adiantadas, com a primeira inauguração marcada para novembro deste ano. “Vamos inaugurar a Rota Amazônica, que eu falo que é a Rota COP-30, porque nós vamos receber a COP-30 agora em novembro, em Belém”, disse Tebet, referindo-se à Conferência da ONU sobre mudanças climáticas. “A rota tem impacto ambiental zero, porque ela é toda pelo Rio Solimões. Faltava a dragagem que está terminando e, agora, estamos instalando a alfândega na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru”, afirmou.
Bioceanidade
João Villaverde, secretário de Articulação Institucional (SEAI) ministério, órgão responsável pelas ações ligadas ao programa, destaca que, com instalação da alfândega na rota 2, muitas possibilidades se abrem para as exportações brasileiras. “No momento em que abrirmos aduana em Tabatinga, o desembaraço de produtos, tanto para entrar quanto para sair, será muito mais rápido”, comentou Villaverde.
Ele ressalta que, mesmo sem estar concluída, a rota conseguiu escoar, em 2024, mais do que tudo o que foi exportado, por lá, nos últimos sete anos. “Cresceu muito a exportação de cana-de-açúcar, que vem desde o Mato Grosso, de produtos de bioeconomia, como castanhas e açaí, por exemplo. A nossa expectativa, com a criação da aduana, é que cresça também a exportação de bens industriais da Zona Franca de Manaus”, aponta o secretário, que integra a comitiva do Planejamento no Chile.
“Fazer mais negócios com os nossos vizinhos da América do Sul significa também nos aproximarmos do oceano que é o oceano da China, do Japão e dos países asiáticos. Então, o caráter da bioceanidade é fundamental para o que a gente está fazendo”.
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