Arritmias cardíacas: “A fibrilação auricular aumenta cinco vezes o risco de AVC” – Cardiologista João Lopes Gomes – Atualidade
Antes de tratarmos da fibrilação auricular em específico, gostaria que nos desse uma definição de arritmia cardíaca, assim como destacasse as mais comuns?
O coração saudável funciona de forma sincronizada para enviar sangue para todo o corpo. O ritmo cardíaco normal é mantido por impulsos elétricos que fazem as câmaras do coração se contraírem de maneira coordenada. A arritmia cardíaca verifica-se quando o coração perde o seu ritmo organizado e começa a bater de forma anárquica, mais rápido, mais lentamente ou de forma irregular, afetando a circulação do sangue e a acarretar riscos para a saúde.
Cardiologista João Lopes Gomes.
créditos: Divulgação
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Existem diferenças significativas entre arritmias benignas e arritmias potencialmente perigosas? Como se pode distinguir uma da outra?
A arritmia cardíaca é designada benigna quando não oferece risco de morte. É a arritmia extrassístole, caracterizada por batimentos precoces que ocorrem mais cedo no ciclo cardíaco. São muito frequentes na população e, na grande maioria das vezes, benignas. Só através da observação clínica e do diagnóstico é possível determinar se uma arritmia é benigna ou potencialmente fatal. A fibrilação auricular aumenta cinco vezes o risco de AVC e triplica a possibilidade de desenvolver insuficiência cardíaca, além de duplicar o risco de morte súbita e o risco de demência.
O stresse e o estilo de vida podem influenciar o aparecimento de arritmias?
Muitas arritmias estão associadas à doença cardiovascular, cujos principais fatores de risco são o colesterol elevado, o tabagismo, a diabetes, a hipertensão arterial, a obesidade e o sedentarismo. A maioria destes fatores de risco e o stresse está associado a estilos de vida pouco saudáveis que pode aumentar o risco de um indivíduo poder vir a desenvolver arritmias cardíacas.
No que respeita à fibrilação auricular, estima-se que entre 200 mil e 250 mil portugueses sofram desta patologia. Esta é a arritmia cardíaca mais frequente. Pode explicar-nos do que se trata?
A fibrilação auricular é uma arritmia que se manifesta por batimentos cardíacos rápidos e irregulares. Nestes casos, pode ocorrer uma espécie de “curto-circuito” nas aurículas, que perdem a capacidade de contraírem normalmente. O coração em fibrilhação auricular não funciona de forma adequada, torna-se menos eficaz e apresenta o risco de formação de coágulos no seu interior. Estes coágulos podem libertar-se para a circulação sanguínea e dar origem a um Acidente Vascular Cerebral (AVC), que é a principal complicação desta arritmia.
Muitas arritmias estão associadas à doença cardiovascular, cujos principais fatores de risco são o colesterol elevado, o tabagismo, a diabetes, a hipertensão arterial.
Quais são os principais fatores de risco para o desenvolvimento desta condição?
Os principais fatores de risco são comuns aos das doenças cardíacas em geral: idade, hipertensão arterial, diabetes, doenças valvulares cardíacas, insuficiência cardíaca, sedentarismo, tabagismo, alcoolismo e alimentação inadequada.
Quais são as formas mais eficazes de prevenção da fibrilhação auricular?
A prevenção, além do estilo de vida saudável, passa pelo uso de anticoagulantes ou da ablação por cateter, através da aplicação de energia no interior do coração, para terminar ou modificar a arritmia e reduzir os potenciais riscos.
Muitos doentes com fibrilação auricular não apresentam sintomas evidentes. Como é feito o diagnóstico e qual a importância do rastreio precoce?
A descrição dos sintomas permite ao médico realizar um diagnóstico preliminar e determinar a gravidade da arritmia. Contudo, é necessário a realização de exames específicos para determinar com exatidão a natureza e causa da arritmia. O eletrocardiograma (ECG) é o principal método para identificar a fibrilação auricular e confirmar o diagnóstico. O ECG regista a atividade elétrica do coração e revela o ritmo cardíaco em tempo real. Existem outros meios de diagnóstico que permitem ao médico identificar se a fibrilação auricular está presente, qual é o tipo (persistente, paroxística ou permanente) e se há causas subjacentes que precisam de ser tratadas. Em muitos casos, a doença não apresenta sintomas evidentes pelo que os rastreios continuam a ser fundamentais para identificar sobretudo estes casos.
Quais são as opções de tratamento disponíveis atualmente para quem sofre de fibrilação auricular? Existem abordagens inovadoras nesta área?
Uma vez diagnosticada, é iniciado o tratamento para controlar o ritmo cardíaco, prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida do doente. Como referi, o tratamento aplicado dependerá do tipo e gravidade da arritmia. Em pessoas com uma arritmia inofensiva, o tratamento suficiente pode ser a confirmação de que a arritmia não tem gravidade. Evitar o consumo de álcool, cafeína e tabaco são medidas igualmente importantes, às quais se juntam os medicamentos antiarrítmicos. A estimulação do ritmo cardíaco (pacemaker) pode ser utilizada para arritmias com frequência cardíaca lenta. A aplicação de choque elétrico, para arritmias com frequência cardíaca rápida, sob sedação/anestesia. A ablação por cateter, através da aplicação de energia no interior do coração, para terminar ou modificar a arritmia
A Delegação Norte da Fundação Portuguesa de Cardiologia está a lançar a campanha “Ritmo Anárquico” para rastrear gratuitamente esta condição. O que motivou esta iniciativa e quais são os seus principais objetivos?
O programa Ritmo Anárquico foi desenvolvido com o objetivo de sensibilizar a população para a fibrilação auricular, que é uma das arritmias mais frequentes na população. Estima-se que afete cerca de 10% da população com mais de 70 anos. Em Portugal, os dados apontam para cerca de 200 mil a 250 mil indivíduos com fibrilação auricular. Através dos diversos rastreios gratuitos que vão acontecer a norte do País, pretendemos detetar casos não diagnosticados e poder orientar os doentes.
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