Em comunicado de imprensa divulgado recentemente, o Governo angolano anunciou que vai encerrar, a partir de 15 de março, a emissão de licenças de produtos de aves como asas de peru, galinha e pato, moelas, coração, dorso, pescoço e fígado.
E também vai deixar de emitir licenças para importação de carne bovina, nomeadamente miudezas, dobrada, rins, fígado, coração e pulmões, anunciou o Ministério da Agricultura e Florestas de Angola, através do Instituto dos Serviços de Veterinária.
Numa segunda fase, a partir de 31 de julho, passará igualmente a ser proibida a importação de alguns produtos de origem suína como cabeça, orelha, focinho, rabinho, esterno, fígado, coração e miudezas.
Todos estes bens alimentares produzidos no estrangeiro são os produtos mais consumidos pelos angolanos. No mesmo comunicado, o Governo garantiu que a medida é tomada pelo facto de haver condições para a produção local destes produtos alimentares.
Produtores angolanos preparados?
Será que os produtores angolanos estão preparados para atender á procura interna de uma hora para a outra? A DW falou com consumidores e comerciantes angolanos. As opiniões divergem: alguns aplaudem e outros estão insatisfeitos.
Pedro Gaspar, sub-gerente de um armazém que comercializa os produtos, afirma que a produção nacional não vai cobrir as necessidades do país. “Eu estou nessa empresa há sete anos. A boa parte dos produtos que temos vem de fora. Dificilmente temos esses produtos com selo feitos em Angola. Geralmente não chegam cá aos nossos armazéns. Chegam mais aos supermercados, outras lojas um pouco mais reconhecidas”, conta.
Gaspar alerta que os cidadãos de baixa renda serão os mais prejudicados pela medida do Governo. “Na verdade, o cidadão não tem finanças suficiente para poder comprar os produtos que são a carne ou frango completo. O que mais sai aqui nos armazéns são esses produtos como a asa, o pescoço. E são os produtos mais procurados. Então, vai ser um pouco complicado para o cidadão pagar”, afirma.
Francisca Fragoso, uma consumidora angolana, condena o anúncio do fim das importações destes bens alimentares e diz que o Governo devia priorizar o combate à inflação no preço dos alimentos dos angolanos. “A decisão não é boa. Neste caso, o que queremos é reduzir a dificuldade das coisas, não recriar as coisas que nos ajudam. Não tem muita qualidade, mas ajuda em algumas coisas”, considera.
Juliana António, vendedora num mercado informal em Luanda, aplaude a medida, sublinhando que chegou o momento de se valorizar a produção nacional. “Aqui temos muitos produtos, então não é necessário trazê-los de fora para cá. Temos de obter daqui o que é nosso. Qualidade existe”, assegura.
Produtos cada vez mais caros
Os preços das caixas de pata de porco, miudezas, asas de frango e outros produtos de origem animal e aves estão cada vez mais caros. Para terem variedade de comida à mesa a bom preço, os compradores juntam-se em grupo de duas ou mais pessoas para comprar, por exemplo, uma caixa de cabeça de porco mais barata.
O importador José Albino defende que se limite a importação a 50%, porque os produtos locais são mais caros que os importados. “O produto tem tendência sempre de subir. E nas miudezas, praticamente, quem mais adere é o pessoal da camada baixa”, o que quer dizer que “tem que ser barato”, explica.
“Com esta proibição, creio que se for produção nacional, o produto subirá. E quando subir, nós teremos problemas no que toca aos clientes da camada baixa”, conclui o importador.
Incentivos à produção local
Para a Cooperativa de Avicultores de Benguela, a medida do Governo incentiva a produção local de frangos, mas é necessário que haja condições para os produtores locais. Em declarações à Rádio Nacional, o presidente Jamir Baptista afirmou que os produtores precisam de financiamento para atender às necessidades do mercado.
“É importante que os bancos, de uma maneira geral, tenham facilidade, tenham a possibilidade de ter acesso rápido ao crédito, ao financiamento, para que possamos começar já a produzir, sem que entremos num período de carência, e novamente teremos que voltar a abrir as portas para importação”, diz Jamir Baptista.
Segundo o jornal Expansão, que cita um documento conjunto elaborado pela Associação Agropecuária de Angola (AAPA) e Associação de Empresas de Comércio e Distribuição Moderna de Angola (ECODIMA), em Angola existem 12 grandes produtores agroindustriais avícolas em e 120 Pequenas e Médias Empresas no setor. Todas as empresas juntas têm apenas capacidade de produzir 10% das necessidades do mercado nacional.
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