Em sua última dança como presidente do Fed (Federal Reserve), Jerome Powell usou um tom duro para dizer que a autoridade monetária dos EUA precisa aguardar mais sinais de uma desaceleração da inflação nos EUA.
O destaque da entrevista foi a mudança do Comitê para uma postura mais neutra, reduzindo a probabilidade de cortes. Mas isso pode importar pouco, a considerar que o mandato de Powell termina no dia 15 e a cadeira será ocupada por Kevin Warsh, indicado por Donald Trump. O presidente dos EUA fez de Powell seu desafeto por conta da política restritiva imposta por Powell.
O mercado enxergou um tom duro nas palavras de Powell. “Ele evitou validar cenário de alta de juros, sugerindo que o cenário base ainda é de manutenção prolongada”, diz um comunicado ao mercado da Buysidebrazil. Contudo, a decisão da próxima reunião estará nas mãos de Warsh, que tem dado sinais trocados sobre sua posição com relação ao futuro dos juros nos EUA.
Divergência é alerta
O que insere ainda mais incerteza no mercado com relação à política monetária nos EUA é o fato de ter havido dissidência no comunicado com relação às próximas decisões. Três membros do Fomc — Beth M. Hammack, Neel Kashkari e Lorie K. Logan — não concordaram com a inclusão de um viés de afrouxamento no comunicado. Ou seja, indicam que votarão contra uma queda dos juros na próxima reunião.
Outros nove membros indicaram tendência a votar por uma redução na próxima reunião, com destaque para Stephen Miran, que votou pela redução agora, mas foi voto vencido. “Isso mostra dificuldade de achar consenso, refletindo a dificuldade de contornar a tensão que existe dentro desse mandato do Fed”, analisa Will Castro Alves, economista-chefe da Avenue. “Kevin Warsh assumindo, talvez tenhamos uma postura e uma comunicação diferentes”, alerta.
Essa divergência é a maior em 34 anos, o que aponta para o fato de Kevin Warsh receber um Fed que precisará aparar arestas. Isso pode ter um impacto importante na curva de juros.
Brasil sofreu com divergências
No Brasil, um exemplo recente joga luz sobre o cenário nos EUA. Em maio de 2024, durante gestão de Campos Neto, a decisão foi de 5 a 4 pela queda de 0,25 pp nos juros. O resultado significou uma disparada dos juros futuros com o mercado interpretando uma falta de entendimento dentro da autoridade monetária. Isso exigiu que os integrantes do BC aparassem as arestas para a reunião seguinte, o que deu certo. A decisão seguinte foi unânime e os juros futuros voltaram a se comportar.
Por incrível que pareça, pode ser que o Brasil tenha algo a ensinar aos EUA na condução da política monetária, especialmente neste momento de troca de bastão: o consenso é a saída, mais do que a decisão em si.
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