Há datas que revelam mais do que parecem. No Brasil, o dia 21 de abril é feriado nacional em honra de Joaquim José da Silva Xavier. No dia seguinte, 22 de abril, passa quase despercebida a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500. Não é um lapso. É uma escolha.
E como lembrava Jacques Le Goff, “o documento é monumento”. A memória não é neutra: constrói-se, seleciona-se, organiza-se. Um feriado não é apenas um descanso no calendário — é uma afirmação política sobre o passado que se quer celebrar. Ao elevar Tiradentes e relativizar Cabral, o Brasil não está a esquecer; está a escolher.
Nada contra. Todas as nações fazem isto. O problema começa quando essa construção simbólica convive com um discurso de proximidade quase automática com Portugal, sobretudo quando daí resultam benefícios concretos.
Portugal, nas últimas décadas, criou um regime particularmente favorável para cidadãos brasileiros: facilitação de residência, acesso à nacionalidade mais célere, reconhecimento de qualificações, tudo assente numa ideia simples — a de uma comunidade linguística e histórica partilhada. A famosa “língua comum”.
Mas essa “língua comum” tem um comportamento curioso: aparece quando convém e desaparece quando deixa de dar jeito.
Quando se trata de mobilidade, direitos ou integração, fala-se de uma língua única, de uma herança comum, de uma proximidade quase natural. Quando o debate é cultural ou identitário, a conversa muda: surge a ideia de um “português do Brasil” autónomo, reivindica-se diferença, sublinha-se distância — e, não raras vezes, afirma-se até dificuldade em compreender o português de Portugal.
Ou seja: a mesma realidade é apresentada como comum ou distinta conforme a conveniência do momento.
Não é preciso dramatizar para perceber o padrão. É uma utilização funcional da identidade: aproxima-se quando há benefícios, distancia-se quando há afirmação própria. E isso levanta uma questão legítima do lado português — não emocional, mas política.
Até que ponto deve um Estado basear políticas públicas numa ideia de comunidade que não é assumida de forma consistente pelos dois lados?
Porque uma coisa é reconhecer laços históricos profundos — que existem. Outra, bem diferente, é transformar esses laços numa base permanente para regimes de exceção, quando, no plano simbólico e cultural, essa mesma comunidade é relativizada.
O caso dos feriados brasileiros é apenas um sintoma. Um detalhe, aparentemente banal, mas revelador. Mostra que a memória nacional brasileira se constrói em torno da rutura, não da origem. E isso tem implicações.
Não se trata de exigir ao Brasil que celebre Cabral. Trata-se de reconhecer que a ideia de uma comunidade luso-brasileira homogénea, unida por uma língua e por uma memória partilhada, é — na melhor das hipóteses — incompleta.
Talvez esteja na altura de abandonar o conforto desse mito.
E encarar a relação como ela realmente é: próxima, sim — mas não simétrica; ligada, mas não indiferenciada; útil em muitos planos, mas atravessada por interesses e narrativas que nem sempre coincidem.
Como diria Le Goff, o passado não nos chega puro. Chega-nos moldado. E o que cada país escolhe fazer com ele diz tudo sobre o presente que quer construir.
Crédito: Link de origem


