Até esta terça (21/4), o Brasil registrou mais de 121 mil mortes por doenças cardiovasculares, segundo o Cardiômetro da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
O dado reforça um alerta sobre os cuidados com o coração que não devem começar apenas diante de sintomas, mas ao longo da vida, com estratégias que mudam conforme a idade e o perfil de risco de cada pessoa.
Apesar da preocupação crescente, muitas dúvidas ainda giram em torno dos exames cardiológicos. Para os especialistas, o ponto de partida não deve ser a quantidade de testes, mas sim a avaliação individual bem personalizada.
“Mais importante do que sair realizando muitos exames é entender o risco individual de cada pessoa”, afirma Fernando Barreto, Diretor Médico Assistencial do Grupo São Cristóvão Saúde.
Segundo ele, exames feitos sem critério podem não trazer benefícios e até gerar interpretações equivocadas. Ao mesmo tempo, especialistas reforçam que hábitos de vida e acompanhamento contínuo têm impacto mais consistente na prevenção de infarto e AVC.
O cuidado começa na infância
O cuidado com o coração tem início ainda nos primeiros dias de vida. O “teste do coraçãozinho”, por exemplo, realizado ainda na maternidade, é essencial para identificar alterações congênitas precocemente.
Na infância, a avaliação clínica costuma ser suficiente na maioria dos casos. Exames como o ecocardiograma são indicados apenas quando há suspeita. Na prática, isso significa que crianças saudáveis não precisam ser submetidas a uma rotina extensa de exames, mas sim acompanhadas de forma adequada.
De acordo com o cardiologista Ciro Jones Cardoso, da Santa Casa de São José dos Campos, hábitos formados nessa fase têm impacto direto no futuro. “Na infância é que começam a se formar as placas de aterosclerose (acúmulos de gordura e outras substâncias nas paredes das artérias)”, explica.
A alimentação e a atividade física também são pontos centrais nesse período. Os cardiologistas ressaltam que alimentos com teor pobre em gordura saturada e mais rico em gorduras poli-saturadas ou mono-saturadas são os mais indicados.
Na ausência de sinais de alerta, o acompanhamento pode ser feito com o pediatra. Avaliação especializada é indicada em situações como sopros suspeitos, desmaios ou histórico familiar relevante.
Adolescência e início da vida adulta
Durante a adolescência, o acompanhamento segue predominantemente clínico, mas é uma fase em que fatores de risco podem começar a surgir de forma silenciosa.
Hábitos como sedentarismo, alimentação inadequada e início do tabagismo podem influenciar diretamente a saúde cardiovascular nos anos seguintes. A investigação mais aprofundada costuma ser indicada em situações específicas, como prática esportiva competitiva ou histórico familiar importante.
Na transição para a vida adulta, esses riscos se tornam mais evidentes. Ciro Jones destaca que cada pessoa apresenta um perfil diferente. “Cada indivíduo tem um conjunto de fatores distintos que vão interferir de maneira diferente para cada pessoa”, afirma.
Nesse período, a avaliação também deve ser individualizada, porque, de acordo com os especialistas, nem todos precisam dos mesmos testes.
Monitoramento na vida adulta pode fazer a diferença
Na vida adulta, o cuidado com o coração passa a exigir maior regularidade. O controle da pressão arterial e a realização de exames laboratoriais, como colesterol, triglicérides e glicemia, tornam-se parte da rotina.
A frequência das avaliações depende do risco individual. Pessoas sem fatores de risco podem realizar exames a cada dois ou três anos. Já quem apresenta hipertensão, diabetes ou colesterol elevado deve manter acompanhamento mais próximo, pelo menos uma vez por ano.
Fernando Barreto chama atenção para um erro comum: a realização indiscriminada de exames. “Em pessoas sem sintomas, esses exames têm baixa capacidade de detectar doenças”, afirma, ao se referir a testes como eletrocardiograma e teste ergométrico.
Envelhecimento, atenção redobrada
Com o avanço da idade, o risco cardiovascular aumenta de forma significativa. A partir dos 45 anos, o processo de aterosclerose pode já estar em curso, mesmo sem sintomas aparentes.
“Após os 45 anos, o paciente já é uma pessoa que está no estado de instalação da aterosclerose. Na terceira idade, a doença pode já estar instalada, com presença de placas nas artérias”, explica o cardiologista.
Nesse contexto, o acompanhamento precisa ser intensificado. Avaliações do perfil lipídico, análise dos hábitos alimentares e, quando indicado, exames funcionais ajudam a identificar alterações precocemente.
Como cuidar do coração em cada fase
- Infância: alimentação equilibrada, atividade física e atenção ao histórico familiar.
- Adolescência: acompanhamento clínico e atenção aos hábitos que aumentam o risco.
- Vida adulta: controle da pressão, colesterol, triglicerídeos e glicemia.
- Envelhecimento: monitoramento mais frequente e exames conforme indicação médica.
Os especialistas ouvidos pelo Metrópoles, dizem que a prática de atividade física é uma das principais aliadas da saúde cardiovascular em todas as fases da vida.
Segundo eles, na maioria dos casos, não é necessário realizar exames antes de iniciar exercícios, especialmente entre pessoas jovens e sem fatores de risco. Já indivíduos sedentários acima dos 35 anos ou com doenças pré-existentes podem precisar de avaliação médica prévia.
Inclusive, durante a prática de atividades, alguns sinais exigem atenção. Situações em que a orientação é interromper o exercício imediatamente e procurar ajuda médica.
- Dor no peito;
- Falta de ar desproporcional;
- Tontura;
- Desmaio;
- Palpitações intensas.
Ambos os médicos concordam que, mais do que exames, a prevenção está diretamente ligada ao estilo de vida. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e controle dos fatores de risco são fundamentais para reduzir a incidência de infarto e AVC.
Diante de um cenário em que as doenças cardiovasculares seguem como principal causa de morte no país, cuidar do coração desde cedo é o que realmente pode mudar o desfecho ao longo dos anos.
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