Passa mais tempo no ar do que na terra, uma hipérbole que os guineenses repetem para censurar as vezes sem conta que o Presidente da República se ausenta do país. Há quem fale em mais de 300 viagens para o exterior durante o seu consulado, 200 das quais privadas.
Só que não é o espírito de pássaro de Umaro Sissoco Embaló que mais ofende, mas sim a fatura debitada ao povo que vive com o cinto apertado, à sua revelia, acusa Pedro Jandim, presidente da comissão política do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) na Alemanha.
“Para chegarmos onde chegámos hoje, é um retrocesso incalculável, ao ponto de termos um Presidente que nunca parou no país, fez tantas viagens à custa do povo. Todo o mundo sabe. Então, como ele poderia estar a prestar um serviço público sendo um Presidente da República? Não teve tempo, estando sempre a viajar à custa do povo, sem dinheiro. Temos hospitais sem nada, as escolas não funcionam, as estradas por fazer, tudo por fazer”, critica.
Duas semanas é o máximo que permanece em terra, estimam os críticos. Quando censurado pelos excessivos voos, quase sempre em jatos privados, Sissoco justificou que eram patrocinados pelos seus amigos.
Espanto surge quando recentemente a conta foi debitada ao Estado, comprovando supostamente o que os seus detratores dizem, que seria um “mentiroso compulsivo”.
Prestação de contas para quando?
Há como exigir prestação de contas ou responsabilização pelo seu comportamento? O analista Fransual Dias não acredita que seja para já.
“Mais do que isso, temos visto a publicação de faturas que ultrapassam de longe o preço normal do frete de avião, o que assusta. Como são viagens que não são acompanhadas, [dificulta] a responsabilização. Mas estamos em crer que, mais cedo ou mais tarde, haverá uma responsabilização para se saber o quanto foram onerososas essas viagens”, afirma.
“Neste momento não há como responsabilizar, porque [os tribunais] funcionam à base dos interesses do Presidente da República. Mas mais tarde poderá ser aferida não só a questão da responsabilidade político-social, mas se lhe poderão ser imputados crimes como o de gestão de administração danosa e abusiva, peculato e prevaricação”, espera o analista.
Vezes houve em que o chefe de Estado também viajou sobre asas alheias, como por exemplo do ex-Presidente do Senegal, Macky Sall. Mas internamente, Sissoco pareceu-se mais com uma avestruz, uma ave que não voa, preferindo enterrar a cabeça na areia, inclusive para outras reivindicações político-sociais, acusam os críticos. Terá feito apenas cerca de 10 viagens, seis das quais a Gabú, o seu reduto natural. Porquê?
“Acho que o Presidente privilegia mais dialogar com parceiros internacionais e promover a sua imagem lá fora”, considera Fransual Dias. “Rejeita categoricamente dialogar com partidos políticos. Parece que o Presidente não se sente responsável pelo que se passa na Guiné-Bissau. Ele apenas está decidido em continuar com a sua agenda pessoal”, conclui o analista.
Um “Ícaro moderno”
À boca pequena diz-se que Sissoco nunca escondeu que adora andar de avião, uma espécie de Ícaro moderno. Mas que resultado trouxe o incessante ‘bater de asas’ para a Guiné-Bissau? Mais reconhecimento para o país na arena internacional?
“Não há uma explicação cabal entre os resultados dessas viagens com a política externa do país. Nós não sabemos. O Governo deveria fazer um balanço, apresentar o quadro do aproveitamento dos vários acordos, apresentar a maximização desses acordos”, responde Fransual Dias.
“Só temos conhecimento de formações que os militares afetos à Presidência têm feito no exterior: na Rússia, Congo, Ruanda… Como se o Presidente da República se interessasse apenas pelas Forças de Defesa e Segurança quando a Guiné-Bissau já tem isso garantido. Vimos também algumas ruas, com os nomes dos Presidentes do Senegal, da Nigéria e do Congo, que foram alcatroadas”, recorda.
E por estas alturas de fim de mandato, no regresso da sua última visita de Estado, que foi para a Rússia, espera-se de Umaro Sissoco Embaló um voo rasante. Finalmente deverá Sissoco parar de fazer inveja ao andorinhão preto, que pelo menos fazia pausas migratórias? Poderá haver tempos de hibernação à vista.
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