Em busca do insondável – Quatro cinco um

Autor de uma vasta obra que transita entre o romance, o ensaio e o conto, Patrick Chamoiseau afirma que o artista deve questionar constantemente sua arte. “Até hoje, não sei o que é a literatura. Não sei defini-la. Eu a procuro”, diz o martinicano de 71 anos em entrevista à Quatro Cinco Um.

Ele virá ao Brasil em novembro para participar da Festa Literária das Periferias (Flup), no Rio de Janeiro, em meio a uma leva de lançamentos de seus livros. Entre volumes de contos e ensaios, destaca-se Escrever em país dominado, reflexão com tons autobiográficos sobre sua formação como leitor e escritor, em um inspirado diálogo com seus conterrâneos Aimé Césaire (1913-2008) e Édouard Glissant (1928-2011).

Texaco, romance de 1992 que lhe rendeu o prêmio Goncourt e está fora de catálogo há décadas no Brasil, volta às livrarias em fevereiro pela Pinard. Ao narrar 150 anos da história da Martinica, ex-colônia francesa no Caribe e hoje um departamento ultramarino da França, Chamoiseau faz uso do francês do colonizador e do crioulo dos ex-escravizados em uma espécie de “língua-fronteira”, como definiu Milan Kundera. Na conversa, ele lembra o processo de escrita deste e de outros títulos e conta como avançou na busca do insondável humano para construir uma literatura da relação.

Você diz que o “escritor é um artista que caminha de maneira individual em direção a esse enigma insuperável que é a literatura”. Por que considera a literatura esse enigma?

A literatura é uma arte, tal como a música ou a pintura. Um artista é um ser humano que vive intensamente num estado poético e que produz uma obra com a ajuda de uma caixa de ferramentas que é a sua estética. A obra do artista serve para questionar quatro dimensões. Primeiro, a sua própria situação existencial. Depois, a condição humana. Por fim, aquela que engloba todas as outras: o mundo e o cosmos. 

Para questionar tudo isso, o artista usa um modo de conhecimento que não é científico, mas poético. O conhecimento poético se realiza sob os auspícios do sensível e da beleza. A arte é uma porta de acesso à beleza. Somente a arte pode desencadear uma visita à beleza, esse mistério indescritível e comovente. E a arte pela qual se busca alcançá-la é igualmente insondável e misteriosa.

‘A maioria dos artistas morre sem ter compreendido o sentido último de sua arte’


O artista deve, portanto, questionar constantemente sua arte, problematizá-la, tentar compreendê-la. São suas criações que realizam em seu nome essa súplica permanente, e são elas que lhe dão respostas, nunca definitivas. A maioria dos artistas morre sem ter compreendido o sentido último de sua arte, eles a questionam até o fim, e por isso produzem até o fim. 

Assim, a literatura, como todas as artes, é um mistério. É esse mistério que atrai as criações que a questionam. Até hoje, não sei o que é a literatura. Não sei defini-la. Eu a procuro. Quando ela está lá, eu sinto. Quando ela não está lá, eu sei.

“Escrever é, sempre, apoiar a testa contra a rocha dura de uma língua.” Como foi escrever em um país colonizado, marcado pela língua dominada e a língua dominante?

Tive que escrever com duas línguas, uma que era dominada e outra que era dominante. Não podia renunciar a nenhuma delas, pois constituíam parte inseparável de mim. A única maneira de sair dessa situação foi não escolher, escrever com as duas ao mesmo tempo. Isso me obrigou a construir uma linguagem. A linguagem é um ato de criação em uma ou várias línguas. É uma autoridade em uma ou várias línguas. Aliás, toda criação é uma autoridade.

Você diz ter ficado desamparado após a leitura de Malemort, romance de Édouard Glissant publicado em 1975. Faz sentido pensar em uma clivagem radical na sua relação com a literatura após esse livro?

Malemort me fez descobrir o poder de uma linguagem construída com uma língua dominante e uma língua dominada. Isso abriu caminho para a busca da minha própria linguagem. Não pode haver literatura se não houver, na obra escrita, a produção de um evento linguístico. 

A linguagem não é o estilo. O estilo é um adorno, um embelezamento da língua. A linguagem, por sua vez, revoluciona a língua e a obriga a se abrir para além de si mesma, a desejar todas as línguas do mundo. Quando a linguagem de um escritor é poderosa, a beleza é suscetível de visitá-lo. Se a beleza visita uma obra, isso significa que ela tocou aquele mistério que chamamos de literatura. Mas isso é muito raro.

O manifesto Éloge de la créolité [Elogio da crioulidade], escrito com Jean Bernabé e Raphaël Confiant em 1989, é um ponto-chave na sua trajetória. Como os debates do movimento pela crioulidade em contraste com o movimento negro marcaram — e ainda marcam — sua escrita?

Para nós, Éloge de la créolité tinha como objetivo sair das simplificações da negritude, para reconhecer que nascemos na colonização e no encontro de uma infinidade de povos, línguas, imaginários, culturas, civilizações A ideia da negritude, embora salvadora, negava de certa forma essa complexidade antropológica. Negava também os surtos que daí resultaram em termos de novas culturas e novos povos. Uma crioulidade é o resultado de um processo de crioulização, que é o contato brutal, acelerado, massivo e quase instantâneo de uma infinidade de experiências humanas diferentes. 

‘Quando a linguagem de um escritor é poderosa, a beleza é suscetível de visitá-lo’

Todas as Antilhas, o Brasil, as Américas nasceram de uma crioulização. O princípio ativo de toda crioulização é o que Glissant chama de relação. Nossos povos nasceram da relação. O mundo globalizado é um vórtice relacional. Uma cultura, mesmo uma identidade, só pode ser relacional, ou seja, só pode ser vivida em contato com a diversidade de um mundo e se encontrar em um processo, não de fixidez, mas de permanente devir. Compreendi, então, que o maior objeto de conhecimento artístico do mundo contemporâneo era o fenômeno da relação. Minha literatura é uma literatura da relação.

O romance Texaco nasceu de uma tese sobre a perda progressiva das tradições orais. Para isso, você tomou o depoimento de Madame Sicot, que vivia na periferia de Fort-de-France. Em que momento percebeu que precisava, como se diz em crioulo, “marcar um livro”?

Inicialmente, Texaco deveria ser uma dissertação de pós-graduação em ciências sociais. Ou seja, uma abordagem científica das questões relacionadas à renovação urbana dos bairros populares. Então, fiz um pequeno trabalho etnográfico para coletar os relatos das pessoas que moravam no bairro. Mas logo percebi as limitações da abordagem científica. 

Eu tinha em mãos uma “realidade” do bairro Texaco, mas não tinha tocado no “real” Texaco. O real nunca é esgotado pela ciência ou por pequenos relatos. Texaco não era apenas lógica ou clareza. Era sombra, mistério e o insondável humano. Somente o modo de conhecimento sensível, artístico, pode avançar no invisível, no indizível e no impensável do real humano. Então, escrevi um romance.

Em Contos dos sábios crioulos, você tece uma linguagem que vai “velando revelando”, como diz Glissant, sobre o contador crioulo, isto é, a palavra deve ser opaca. Foi desafiador escrever essas narrativas curtas?

Os primeiros contadores nas plantações lutavam contra o relato colonial e escravagista. A única maneira de fazer isso era mergulhar no desconhecido do real. O real é inesgotável em alternativas, possibilidades e imprevisibilidades. Não se pode abordá-lo com pequenos relatos que simplificam e distorcem as coisas. Só é possível fazê-lo com narrativas abertas, “organismos narrativos” extremamente complexos, que respeitam, por sua complexidade, a complexidade irredutível do real. 

O conto crioulo primordial não era um pequeno relato à maneira ocidental. Era um rio narrativo aberto, inscrito em tambores, dança, coros, cantos, mímicas, silêncios, sons, múltiplas improvisações. A escrita não pode transportar esse fenômeno multidimensional em suas nomenclaturas. Ela só pode sugeri-lo. É o que tentei fazer em minhas improvisações em torno dos contos antigos.

Outro de seus títulos que chegam ao Brasil é o ensaio Irmãos migrantes, de 2017. Você afirmou na época que o escreveu para defender uma “política global de hospitalidade”. Quase dez anos depois, como enxerga a questão da imigração?

Um mundo antigo está entrando em colapso e um novo está nascendo. O mundo novo é feito de mobilidades, intercâmbios, individualizações E, para dizer tudo, de relação. Nele, vamos poder mudar de idioma com frequência, escolher nossa terra natal, ter múltiplas cidadanias. As fronteiras não serão mais guilhotinas mortais, mas traços de união entre sabores diferentes. Não haverá mais estrangeiros em nenhum lugar. 

A legislação internacional herdada do mundo antigo não corresponde mais ao que está acontecendo nem ao que está por vir. Enquanto esperamos que ela seja reformulada, assistimos à pior violência contra os migrantes. Mas essa violência absurda é apenas um sinal da agonia do antigo mundo capitalista. Em Irmãos migrantes, uma “declaração dos poetas” já anunciava outro mundo. Ele já está aqui, só precisamos construí-lo.




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