Mortes “bárbaras”, fuga de 220 reclusos, desobediência civil. Moçambique, “país desgovernado”, entre a “anarquia” e o “abismo” – Observador
Um líder local decapitado, a cabeça exposta na praça. Três régulos mortos numa história mal contada, com crocodilos pelo meio. Um “autocarro de cadáveres”, com demasiadas viagens para uma vala comum, incendiado. Um jornalista incómodo desaparecido há mais de um mês. A fuga de 200 prisioneiros da cadeia na Gorongosa. O segurança do assessor do principal rosto da oposição política baleado. Autores de um livro sobre Venâncio Mondlane atrás das grades. O ataques dos “naparama” no norte e balas reais da polícia que continuam a matar em Bobole. A “guerra” das portagens, do cimento, das matrículas, dos alimentos, em vários episódios de desobediência civil. E o número de mortes a subir silenciosamente.
Estas dez frases com acontecimentos recentes resumem um cenário de “anarquia”, num “país desgovernado” que “está na fase mais perigosa” e se arrisca a cair “no abismo”, avisam vários analistas com quem o Observador falou. Um país que continua a oferecer banhos de multidão ao oficialmente candidato derrotado nas eleições de 9 de outubro e onde a “caça ao homem”, dos dois lados — população e forças de segurança —, é a marca dos dias que correm.
Yesterday Chibuto, Gaza! Venâncio Mondlane visit! pic.twitter.com/zbQ12GpeHZ
— Free Mozambique (@MozambiqueFree) February 8, 2025
No domingo passado fez um mês que Venâncio Mondlane, o líder da revolta popular moçambicana, regressou ao país e se autoproclamou “Presidente do Povo”. No próximo sábado, dia 15, faz um mês que Daniel Chapo, o candidato da Frelimo (Frente da Libertação de Moçambique, que em junho assinala 50 anos de poder) tomou posse como o quinto Presidente de Moçambique. Num país com dois presidentes, a violência continua, com vários rostos, de diversas formas, em geografias distintas.
O número de mortos na sequência da crise pós-eleitoral continua a crescer. Em 27 dias do governo de Chapo, houve 28 mortes, segundo a Plataforma Decide, que confirmou os números ao Observador: 20 pela polícia, 4 pela população e os restantes não se sabe bem por quem. Ao todo, desde outubro, serão 328 as mortes confirmadas. Contas diferentes faz o Centro para a Democracia e Direitos Humanos: recebeu 600 notificações de mortes e até ao momento conseguiu confirmar 348, excluindo as de polícias e de “naparamas”, como se pode ler no relatório divulgado esta segunda-feira.
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O horror chegou há uma semana, vindo da província da Zambézia. De Morrumbala, vila que é sede distrital, saíram imagens que circularam rapidamente nas redes sociais (demasiado violentas para serem publicadas aqui): um homem esticado na terra batida com uma poça de sangue no lugar da cabeça que está exposta num poste de eletricidade junto a uma agência de um banco, para todos verem. Era um líder local, um secretário de bairro, militar na reserva. “A população descobriu que ele denunciava à polícia, um a um, os manifestantes que depois eram perseguidos e assassinados”, diz ao Observador um morador da vila que pediu anonimato. “Então os Naparama [milícia herdeira dos guerreiros tradicionais, que na guerra civil moçambicana lutaram ao lado da Frelimo e que acreditam serem imunes às balas graças a uma magia] mataram e cortaram a cabeça do homem da Frelimo”, revela.
Houve confrontos com a polícia e dois elementos deste grupo, armados com catanas, foram mortos. Alguns habitantes, habituados a represálias desde os tempos da guerra civil, fugiram para o Malawi, que faz fronteira com a zona. O país vizinho já acolheu mais de 13 mil refugiados desde as eleições gerais de 9 de outubro.
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