BRASÍLIA – O governo Luiz Inácio Lula da Silva travou a devolução ao Paraguai de um canhão de guerra capturado pelo Exército Imperial do Brasil, em 1870. A repatriação do canhão Cristão (El Cristiano, em espanhol) foi discutida nesta quarta-feira, dia 2, pelos chanceleres dos países, sem que tenham chegado a um acordo.
Os ministros Mauro Vieira (Brasil) e Rubén Ramírez Lezcano (Paraguai) conversaram em Montevidéu, no Uruguai. Ambos participavam de reuniões de ministros das Relações Exteriores da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi) e do Mercosul.
“Mauro Vieira informou não terem ocorrido, até o momento, as conversações diplomáticas necessárias para dar o tratamento adequado ao assunto”, disse o Itamaraty, em relato sobre o encontro bilateral.
“Os países concordaram em continuar trabalhando para avançar na busca de uma solução”, afirmou a chancelaria do Paraguai.
O ministro paraguaio disse que haverá uma nova reunião de chanceleres em outubro e que pretende viajar a Brasília para discutir o assunto. Eles já haviam se falado pessoalmente em Lima, no Peru, e por telefone sobre o canhão, ocasião em que Vieira explicou a situação.
Segundo Lezcano, o pedido de devolução dos troféus de guerra, para fins de reparação, já havia sido feito a Lula pelo presidente Santiago Peña em 2023, no Palácio do Planalto. Peña também mencionou o tema na cúpula do Mercosul, no mesmo ano. Na ocasião, eles tentaram visitar o Museu Histórico Nacional, no Rio, para ver o canhão, mas o espaço estava fechado.
Lezcano pediu uma audiência a Vieira nesta quarta para tratar da demanda paraguaia e cobrou a restituição do canhão, um obuseiro produzido a partir do sino de igrejas católicas (razão da origem do nome).
A peça de artilharia faz parte do acervo tombado do Museu Histórico Nacional. Ele é o principal objeto tomado como troféu na Guerra do Paraguai.
Foi a primeira conversa presencial deles desde a reapresentação da demanda, em julho, como forma de reparação pelo fato de Lula ter dito uma frase que repercutiu mal no Paraguai.
Ao defender mais investimentos em defesa, o presidente citou a Guerra do Paraguai, que dizimou metade da população paraguaia e derrotou o ditador Francisco Solano López. Os paraguaios contestam que o país tenha iniciado o conflito.
“A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos”, afirmou Lula, na ocasião.
A demanda é antiga e recorrente. O regime militar brasileiro chegou a devolver outros itens da guerra da Tríplice Aliança (1864-1870).
Como mostrou o Estadão, o presidente paraguaio, Santiago Peña, chegou a citar o pedido em seu discurso de posse, em 2023, cerimônia prestigiada por Lula. Depois abordou o pedido ao ministro da Defesa, José Múcio.
Lula indicou a Múcio concordar com a devolução, ao ouvir do ministro o relato do pedido de Peña, reiterado em julho.
Porém, segundo diplomatas, há resistências no Exército Brasileiro, e também em setores de oposição do Congresso. Deputados paraguaios querem vir ao Brasil discutir o assunto com a Câmara.
O próprio Múcio disse ao Estadão que o assunto “ainda estava sendo discutido”, apesar do indicativo favorável de Lula. Os paraguaios disseram não ter obtido nenhuma confirmação de uma decisão formal.
Antes da reunião entre os chanceleres, o Estadão apurou que o presidente Lula teria indicado ao Itamaraty para não prosseguir.
Segundo embaixadores, não houve ainda nenhuma instrução diplomática para iniciar os trâmites, o que seria o esperado se Lula decidisse pela restituição. A lei exige uma decisão do presidente, que deverá ainda solicitar pareceres técnicos.
O Paraguai também quer de volta o canhão López e arquivos da guerra capturados pelo Brasil e que compõem o patrimônio histórico brasileiro.
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