Afinal, a “ex-procuradora” que se tornou stripper era… da Venezuela

“Ex-procuradora tornou-se stripper no Porto e acabou presa por tráfico de droga“: o título é de uma notícia que o Jornal de Notícias (JN) destacou na primeira página, e suscita perplexidade.

Numa leitura rápida — a mesma que caracteriza quem vê uma manchete nas bancas, nas redes sociais ou na ‘homepage’ de um jornal —, a ideia que se forma é a de que uma antiga procuradora portuguesa teria abandonado a magistratura para trabalhar como stripper no Porto, acabando condenada por tráfico de droga.

A notícia do JN, destacada na primeira página, transmite a ideia de que uma antiga procuradora portuguesa teria abandonado a magistratura para trabalhar como stripper no Porto

Só que basta começar a ler o artigo para perceber que não é disso que se trata. Logo nas primeiras linhas, surge o esclarecimento: a mulher, Keila Villegas, é venezuelana, exerceu funções no Ministério Público da Venezuela e veio para Portugal em 2024, depois de vários insucessos profissionais no seu país, à procura de melhores condições de vida.

Acabou por trabalhar em clubes eróticos no Porto, foi detida numa operação da Polícia Judiciária (PJ) relacionada com a apreensão de 90 quilos de cocaína em Leixões, sendo condenada, inicialmente, a cinco anos e oito meses de prisão. Porém, no mês passado, avança o JN, viu a pena reduzida para dois anos e três meses pela Relação do Porto, que a considerou cúmplice, e não co-autora, do esquema.

A notícia do JN na edição online

Ou seja, o JN identifica todo o contexto do caso logo na abertura da notícia, e volta ainda a referir a nacionalidade da arguida ao longo do texto.

A omissão no título, portanto, não parece acidental: bastaria acrescentar uma única palavra — “venezuelana” — para eliminar a ambiguidade sem retirar qualquer interesse jornalístico ao caso. Contudo, em vez disso, optou-se por deixar o leitor preencher o espaço em branco com a interpretação mais óbvia: sendo uma notícia publicada num jornal português sobre acontecimentos ocorridos no Porto, muitos presumirão naturalmente que a ex-procuradora também o era.

Neste caso, de facto, a nacionalidade não é um detalhe: constitui um elemento essencial para compreender a identidade da protagonista e o contexto em que exerceu funções como procuradora.

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Foto: D. R.

E, nesse sentido, a formulação escolhida pelo JN induz uma conclusão errada. Mais do que uma opção editorial que visa aguçar a curiosidade do leitor, aquilo que está em causa é a diferença entre o ‘clickbait‘ (‘caça ao clique’) e a escolha — natural no jornalismo — de um título apelativo.

Assim, a notícia é inaceitável, não porque os factos relatados no artigo estejam errados — pelo contrário, o corpo do texto fornece o contexto necessário —, mas porque o título e o destaque de primeira página assentam numa ambiguidade que seria evitável. E que apenas funciona como isco para captar a atenção do leitor, sugerindo uma realidade bastante diferente daquela que a própria notícia rapidamente esclarece.

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