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Desde que definiu os planos de aportar em Portugal, a consultoria imobiliária italiana Dils já tinha mapeado um dos públicos-alvo que pretendia conquistar: os brasileiros de renda mais alta. Quase um ano depois de comprar a empresa Castelhana em território luso, a Dils não tem do que reclamar. Entre os clientes estrangeiros no país, 20% são de cidadãos oriundos do Brasil. Com um importante detalhe: os preços médios dos imóveis adquiridos por eles, entre 700 mil e 800 mil euros (R$ 4,2 milhões e R$ 4,8 milhões), representam quase o dobro da média dos valores observados nesse segmento do mercado, de 400 mil a 500 mil euros (R$ 2,4 milhões a R$ 3 milhões).
Sócia da Dils, Patrícia Barão tem na ponta da língua a explicação para a disposição dos brasileiros em abrir o bolso em busca de um bom lugar para morar. “Que Miami, que nada. Os brasileiros querem Portugal. O desejo de morar na cidade norte-americana ficou para trás”, enfatiza. “Estamos falando de clientes exigentes, que querem imóveis de qualidade. Não há a menor possibilidade de esses brasileiros comprarem uma casa sem banheiros nos quartos (suítes) e sem vagas na garagem”, acrescenta. Ela ressalta que há aqueles que preferem viver em condomínios fechados, com quadras de tênis, academias de ginástica, spas e varandas gourmets. “Nesses casos, pagam de 4 milhões a 6 milhões de euros (R$ 24 milhões a R$ 36 milhões) pelos imóveis”, exemplifica.
O perfil dos brasileiros que têm movimentado o mercado de imóveis mais sofisticados é amplo, revela a executiva. “Tem, por exemplo, o empresário cuja família decidiu morar em Portugal, mas que, com frequência, ele vai ao Brasil tocar seus negócios. Há os aposentados que decidiram fixar residência no país para desfrutar da Europa, afinal, de avião, Lisboa está a menos de uma hora de Madri, a duas horas de Paris e a três horas de Londres. E tem aquele que compra imóveis para alugar e viver de renda”, detalha.
Na avaliação dela, esse fluxo de brasileiros cruzando o Atlântico vai continuar. “Disso, não tenho dúvidas. Portugal está na moda”, frisa. Patrícia lembra que, em 2007, quando foi ao Brasil a trabalho pela primeira vez, praticamente ninguém conhecia Portugal. Quando me viram, levaram um susto, pois acreditavam que encontrariam uma portuguesa vestida de saias pretas e lenço da cabeça, imagem de um país atrasado. Naquela época, todos os olhos estavam voltados para Miami. Hoje, os brasileiros veem Portugal como um país moderno, com qualidade de vida e cheio de oportunidades”, assinala.
Vantagens portuguesa
Além da segurança, apontada como fator primordial pelos brasileiros que têm fixado residência em Portugal, há outros atrativos que os fazem deixar o Brasil para trás. “O fato de se falar a mesma língua é muito valorizado, mas tem, também, o clima mais ameno do que no restante da Europa, a comida, que é considerada boa, os preços dos serviços e do lazer, como os de restaurantes, mais acessíveis, e os serviços públicos de qualidade — saúde, educação e estradas”, diz Patrícia. “Tudo isso entra na conta”, emenda.
Para a Dils, a presença em Portugal é considerada vital para o crescimento de suas operações, uma vez que o mercado imobiliário local tem forte potencial de expansão. “Hoje, a demanda por imóveis é muito maior do que a oferta. E não vemos reversão desse quadro tão cedo”, afirma a executiva. Tal realidade, inclusive, também tem mexido com os brasileiros, mas por outra perspectiva. Construtoras com negócios consolidados no Brasil vêm prospectando oportunidade em Portugal. “A nossa área comercial tem recebido várias consultas de empresas brasileiras interessadas em entrar no mercado. Já há casos de joint-ventures em pleno funcionamento”, conta.
As construtoras brasileiras, porém, não querem se limitar ao mercado imobiliário de alta renda — esse, bem aproveitado pelas incorporadoras portuguesas. “Vemos disposição para investimentos na construção de imóveis para um público que hoje não tem acesso a moradias, os jovens e as famílias menos abastadas. Não podemos esquecer que o salário médio em Portugal gira em torno de 1.500 euros (R$ 9 mil)”, destaca. São nesses segmentos, acredita Patrícia, que as construtoras brasileiras podem entrar, trazendo para Portugal a expertise do Minha Casa, Minha Vida adaptadas às regras locais. “Jovens e famílias de renda mais baixa não têm acesso ao mercado, pois não conseguem financiamentos”, sublinha.
Serviços complementares
Os brasileiros, quando compram imóveis, também pedem serviços complementares, que a Dils percebeu ser um filão importante para a retenção de clientes. “Primeiro, temos brasileiros em todas as nossas equipes espalhadas por Portugal — Porto, Lisboa, Estoril, Comporta e Algarve. Segundo, damos assessoria para aqueles que desejam se informar sobre como declarar o Imposto de Renda (IRS) no país, como fazer o registro na Segurança Social e como ter acesso a financiamento bancário, se necessário. As taxas de juros em Portugal são muito menores do que no Brasil”, detalha. Há, por sinal, brasileiros que fazem financiamento, alugam o imóvel adquirido e, com o dinheiro arrecadado, pagam as prestações.
Nesse contexto, Patrícia assinala que as operações da Dils, que têm 160 funcionários em Portugal, cresceram 7% no primeiro trimestre ante os três meses imediatamente anteriores. “Como os portugueses, os brasileiros gostam de ter o próprio imóvel, sabem a importância de se ter um ativo real. Por isso, quando chegam a Portugal, procuram logo algo para comprar”, ressalta. “Entre as famílias portuguesas, 73% têm residência própria”, diz.
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