Taxação de Trump já afeta o bolívar e os preços na Venezuela

A taxação imposta por Donald Trump de 15% a produtos importados da Venezuela e a de 25% a países que comprarem petróleo ou gás do país caribenho entrou em vigor nesta quarta-feira (2). No entanto, as consequências já são percebidas no país governado por Nicolás Maduro.

Elianah Jorge, correspondente da RFI na Venezuela

A economia voltou a balançar. O reflexo imediato foi percebido na cotação local da moeda norte-americana. O dólar paralelo marcou mais de 33 pontos de diferença do câmbio do Banco Central da Venezuela. A brecha assusta os venezuelanos, que temem uma nova onda de empobrecimento no país. 

A falta de investidores estrangeiros faz com que as reservas de moeda estrangeira estejam em níveis inferiores ao considerado normal. No entanto, a flexibilização feita em 2022 pelo ex-presidente Joe Bidden às operações da petroleira americana Chevron em território venezuelano aportava ao país de Nicolás Maduro uma entrada de dólares. Essa flexibilização, conhecida como Licença Geral 41, foi um incentivo da anterior gestão dos EUA para mitigar o sofrimento dos venezuelanos. Através dessa licença a petroleira americana injetava milhões de dólares na economia venezuelana. 

A Venezuela há décadas é dependente de sua produção petroleira, o principal motor da economia do país. Esse mercado é fonte primordial para a entrada de dólares no país e, em consequência, uma espécie de âncora para a estabilidade do mercado cambial venezuelano. Qualquer variação na produção de petróleo, por menor que seja, tem fortes consequências na economia nacional. 

Incertezas

A incerteza provocada pela taxação de Trump a países que negociarem com Caracas reacendeu a fragilidade do mercado cambial interno. Sem garantias externas, a moeda nacional, o bolívar, diariamente perde valor e isso tem consequências imediatas no bolso da população. Apesar dos esforços do Banco Central, a moeda venezuelana ainda está longe de se recuperar frente à americana. Com isso a Venezuela volta à instabilidade econômica, marca da pressão norte-americana que visa sufocar o questionado terceiro mandato de Nicolás Maduro. Porém a população acaba sendo a mais penalizada. 

Com o fim da permissão para a Chevron operar no país a produção petroleira sofreria um impacto de entre 15 e 30%. Isso significa que a oferta de moeda estrangeira na Venezuela poderia cair drasticamente, ressuscitando, inclusive, o fantasma da hiperinflação – que assolou o país entre 2016 e 2022. 

Esse estrangulamento do governo Trump ao de Maduro tende a levar o governo da Venezuela a recorrer ao mercado paralelo, negociando as commodities com países aliados e contrários aos EUA. A Venezuela pode, inclusive, tentar vender petróleo e gás com desconto para tentar driblar uma possível recessão econômica acarretada pela escassez e encarecimento da moeda estrangeira. No entanto, resta saber se inclusive os países aliados ao regime de Maduro teriam fôlego econômico ou estariam dispostos a enfrentar taxações e blindagens ainda maiores da parte dos EUA.

A China, um dos maiores compradores de petróleo venezuelano, semana passada deu um passo atrás. Por sua vez, o governo da Espanha manifestou que “apoia e espera” que a Repsol e o governo de Trump possam chegar a uma solução para que a petroleira espanhola possa continuar operando na Venezuela. Além da Repsol, a americana Global Oil Terminals, a italiana Eni, a francesa Maurel&Prom e a indiana Reliance Industries foram afetadas pela determinação da gestão Trump.  

Toneladas de ouro

Na quarta-feira (2), o dólar fechou em 70 bolívares, pela cotação do Bando Central da Venezuela (BCV), e a 103,93 bolívares de acordo com o mercado paralelo. A cada dia, aumenta a brecha entre ambas as cotações. Só no primeiro trimestre do ano, a moeda venezuelana perdeu mais de 24% de seu valor. 

Para garantir que a regra seja cumprida, a Superintendência para a Defesa dos Direitos Socioeconômicos (SUNDDE) organizou, em 30 de março, uma missão em todo o território venezuelano para verificar que a cotação oficial esteja sendo a base de cálculo dos preços. 

O governo tenta incentivar a população a fazer transações em bolívares, mas todos os preços no país são baseados na moeda estrangeira. Ou seja, a inflação na Venezuela é sobre o dólar e não sobre a moeda nacional. No entanto, quem tem bolívares prefere gastá-los ou comprar dólares, antes que a moeda local se desvalorize. E isso acontece pelo menos duas vezes ao dia: pela manhã e à tarde, quando são anunciadas as cotações do dólar.   

No último 25 de março, o presidente Nicolás Maduro entregou ao Banco Central da Venezuela uma tonelada de ouro. Maduro convocou o empresariado, os trabalhadores e o povo à máxima união produtiva. O presidente também afirmou que “qualquer perturbação que pretendam (fazer) contra a recuperação da nossa economia será enfrentada, controlada e superada com união nacional”.   

Leite em pó a R$ 398 

Embora os preços expostos nas vitrines estejam em dólar, os estabelecimentos comerciais são obrigados a cobrar em bolívares de acordo com a taxa do BCV. Para compensar a disparidade, os preços sofrem constantes reajustes. Quem sofre é o consumidor, que se depara com preços surpreendentes. Caso da lata de leite em pó de 2,2 kg que custa U$69,33, o equivalente a R$ 398.    


Embora os preços expostos nas vitrines estejam em dólar, os estabelecimentos comerciais são obrigados a cobrar em bolívares de acordo com a taxa do BCV. © Elianah Jorge

 

O Instituto de Investigações Econômicas e Sociais da Universidade Católica Andrés Bello estima que a inflação deste ano será de 220%, enquanto a desvalorização do bolívar poderá superar 150%. Já o Observatório Venezuelano de Finanças (OVF), ligado à oposição, aponta que a brecha cambial continuará em alta, o que provocaria maior volatilidade da inflação e no tipo de câmbio.    

Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.