ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável

Emissões de gases de efeito de estufa do Top 10 de instalações industriais / companhias de aviação aumentam sete por cento entre 2024 e 2025, impulsionadas sobretudo pelo crescimento das centrais a gás natural fóssil

A ZERO recorreu aos dados disponibilizados pela Comissão Europeia referentes ao registo de emissões associado ao Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE) para efetuar uma seriação das instalações mais poluentes de Portugal em 2025 no que respeita às emissões de dióxido de carbono, principal gás de efeito de estufa causador das alterações climáticas. Em causa estão unidades industriais e companhias aéreas.

O Comércio Europeu de Licenças de Emissão integra as principais unidades de setores fortemente emissores de carbono, nomeadamente centrais térmicas, refinação, cimento, pasta de papel, vidro, entre outras. Em Portugal, mais de duas centenas de instalações e operadores aéreos declaram emissões no âmbito do CELE. No caso das centrais térmicas utilizando combustíveis fósseis, todas as licenças de emissão têm de ser adquiridas (compradas em leilão), enquanto noutros setores uma parte relevante das licenças continua a ser oferecida gratuitamente e a restante tem de ser adquirida. As empresas de transporte aéreo sediadas em Portugal são também contabilizadas, sendo consideradas apenas as emissões de voos entre aeroportos na União Europeia e entre a União Europeia e a Suíça. Em 2025, o preço médio das licenças de emissão no mercado europeu manteve-se próximo de 74 euros por tonelada de dióxido de carbono.

Entre 2024 e 2025, o Top 10 das instalações e/ou empresas aéreas mais poluentes registou um aumento global de emissões, mas com mudanças de posição significativas. As alterações mais relevantes prendem-se com o aumento das emissões das centrais térmicas a gás natural fóssil para produção de eletricidade, em particular Lares, Ribatejo e Pego, e com reduções relevantes na Refinaria de Sines e em algumas unidades do setor cimenteiro:

  • a dominância, pelo sexto ano consecutivo, da Refinaria de Sines da PETROGAL como a instalação mais poluente:
    • apesar da redução registada em 2025 relacionada principalmente com uma paragem programada de 50 dias para manutenção e trabalhos numa das unidades, o valor atingido pela refinação continua a mostrar um peso muito significativo dos combustíveis fósseis na economia portuguesa e nas emissões poluentes; de acordo com o relatório integrado de gestão de 2025, a GALP continuou a concentrar a maior parte do seu investimento económico nos segmentos upstream e industrial/midstream, que representaram 43% e 32% do total, respetivamente, enquanto o segmento das renováveis representou cerca de 16%; é fundamental a Petrogal escale novos investimentos na área das renováveis, nomeadamente na produção de hidrogénio verde e numa aposta crescente nos combustíveis sintéticos para o transporte marítimo e aviação.
    • entre 2024 e 2025, as emissões da Refinaria de Sines diminuíram de cerca de 2,6 para 2,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono, uma redução de 16%, mas a instalação manteve-se destacadamente no primeiro lugar da seriação nacional;
  • as centrais a gás natural fóssil voltam a ganhar peso no Top 10: Lares sobe do 8.º para o 3.º lugar, com um aumento de 215%; o Pego mantém o 6.º lugar, mas aumenta 43%; e o Ribatejo entra diretamente para o 7.º lugar, depois de estar apenas em 16.º em 2024, com um crescimento de 326%; este aumento é claramente resultado da gestão da geração elétrica pós apagão, com reflexo num aumento de 1,4 milhões de toneladas nas emissões das centrais termoelétricas a gás fóssil no Top 10 dos dois anos considerados; em 2025, a produção renovável nacional manteve-se em máximos históricos, mas praticamente estabilizou face a 2024. Como o consumo de eletricidade aumentou para o valor mais elevado de sempre e o saldo importador diminuiu, o sistema recorreu muito mais às centrais de ciclo combinado a gás natural, cuja produção cresceu cerca de 97%. Este aumento não resulta de uma quebra global das renováveis, mas sobretudo da combinação entre maior consumo, menor importação líquida, menor produção eólica, restrições técnicas após o apagão de abril e necessidade de produção despachável para garantir a segurança do sistema.

 

  • a TAP, que nesta seriação tem características distintas dada a natureza da sua atividade como companhia aérea e por serem consideradas apenas as emissões de voos intraeuropeus, incluindo Suíça, manteve o segundo lugar, com um ligeiro aumento de 1% face a 2024;
  • a listagem do Top 10 de instalações / companhias aéreas em 2025 deixa de incluir a Central da Tapada do Outeiro e passa a incluir a Central Termoelétrica do Ribatejo.

Em 2025, o Top 10 é assim dominado pelo setor da refinação, pela produção de eletricidade a partir da queima de gás natural fóssil, pelo setor cimenteiro e pela aviação. Um outro aspeto importante é o facto de o total das dez instalações e/ou companhias com maiores emissões poluentes que integram o Top 10 de 2025 ter revelado um aumento de 7% face às suas emissões de 2024. A ZERO aproveita para alertar para, antecipadamente e de forma programada, as unidades industriais efetuem uma transição justa no quadro do abandono dos combustíveis fósseis, que envolvam os trabalhadores, fornecedores e procure dirigir os investimentos para alternativas sustentáveis.

Imagem que acompanha o texto

Num futuro próximo, tudo indica que continuarão a ser a refinaria de Sines, as centrais de ciclo combinado a gás natural fóssil e o setor cimenteiro que dominarão a seriação das unidades empresariais maiores emissoras de dióxido de carbono, a par de um crescimento do setor da aviação que em Portugal se reflete nas emissões da TAP, embora de forma apenas parcial neste enquadramento, dado o elevado peso dos destinos extraeuropeus.

Este acompanhamento por parte da ZERO insere-se no âmbito do projeto LIFE EFFECT, financiado pela Comissão Europeia, que visa promover uma participação mais ampla da sociedade civil nos processos de tomada de decisão e de monitorização, bem como reforçar a colaboração internacional. O objetivo é assegurar que o Comércio Europeu de Licenças de Emissão beneficie tanto o clima como as pessoas, tirando ensinamentos do atual regime (CELE 1) para construirmos um segundo CELE que integrará os transportes rodoviário e o edificado, denominado CELE 2, mais robusto e ambicioso.


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