Venezuela: ligação com Zapatero no centro da investigação judicial

Agentes da Unidade de Delinquência Económica e Fiscal (UDEF) da Polícia Nacional deslocaram-se na terça-feira, antes das 8h00, à residência de José Luis Rodríguez Zapatero para notificar a constituição como arguido no caso Plus Ultra. Em simultâneo, os agentes revistaram o seu gabinete profissional na rua Ferraz, em Madrid, e as instalações da Whathefav S.L., a agência de comunicação das suas filhas, Laura e Alba Rodríguez Espinosa.


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A operação, batizada como ‘Tíbet’, decorre no âmbito da investigação conduzida pelo Juízo Central de Instrução número 4 da Audiência Nacional, sob responsabilidade do juiz José Luis Calama.

A intervenção policial frustrou uma viagem que o ex-governante tinha previsto para o mesmo dia. Segundo fontes próximas do processo citadas pelo ‘El Confidencial’, Zapatero tinha um bilhete da Air Europa já adquirido, com partida de Barajas às 16h10 e destino a Santo Domingo, de onde seguiria num avião privado para Caracas, com chegada prevista para as 21h50, hora local.

A deslocação, de carácter privado e sem registo em nenhuma agenda oficial, não estaria relacionada com a investigação, de acordo com as mesmas fontes, embora tenha sido planeada à pressa após as informações divulgadas na semana passada que já colocavam Zapatero no centro das investigações da UDEF.

A constituição como arguido não implicou qualquer medida de coação que limite os seus movimentos: mantém o passaporte e pode sair de Espanha. Essa situação poderá mudar quando comparecer na Audiência Nacional no próximo dia 2 de junho, data para a qual o juiz Calama convocou o antigo chefe do Governo espanhol.

Acusações e rede de sociedades

O despacho de constituição como arguido, com 88 páginas, conclui, com base em indícios, que o círculo de Zapatero terá recebido alegadas comissões ilegais de quase dois milhões de euros, posteriormente branqueadas através do que a decisão descreve como empresas fantasma, faturas fictícias e testas-de-ferro. Os crimes que lhe são imputados são branqueamento de capitais, tráfico de influências, falsificação documental e pertença a organização criminosa.

O juiz coloca no centro do esquema Julio Martínez Martínez, descrito como amigo de Zapatero e ex-assessor da Plus Ultra, cuja empresa Análisis Relevante S.L. terá pago ao ex-governante cerca de 450 mil euros em alegados “serviços de assessoria global”.

A mesma sociedade terá ainda transferido 239 755 euros para a Whathefav, a agência das filhas, através de contratos de assessoria usados, segundo o despacho, como mera justificação documental. Outra peça do esquema é a Summer Wind S.L., transitária que trabalhava com a Plus Ultra e que o juiz descreve como sociedade instrumental para triangulação de pagamentos.

De acordo com a decisão, a Summer Wind recebeu da Plus Ultra cerca de quatro milhões de euros e efetuou pagamentos de 213 202 euros à Afitta S.L., empresa que o magistrado liga a Julio Martínez Martínez. Os investigadores encontraram no telefone do presidente da Plus Ultra, Julio Martínez Sola, comprovativos dessas transferências e mensagens internas em que se discutia a alteração de faturas e dos respetivos conceitos.

Influência junto à aviação venezuelana

A investigação não se limita às diligências para obter o resgate público de 53 milhões de euros que o governo aprovou para a Plus Ultra em 2021. O despacho descreve uma segunda linha de atuação: a intervenção junto do Instituto Nacional de Aeronáutica Civil (INAC) da Venezuela para garantir a autorização de voos da companhia durante a pandemia. Por essa intermediação, Julio Martínez Martínez terá recebido pelo menos 458 mil euros.

O juiz transcreve uma troca de mensagens entre Martínez Martínez e o major-general Juan Manuel Teixeira Díaz, presidente do INAC venezuelano, em julho de 2021, na qual o empresário espanhol pede a autorização de um voo da Plus Ultra. No dia seguinte, uma pessoa registada no telefone de Martínez Martínez como “Z” escreve-lhe: “No prazo e como devido. Gestão bem-sucedida”. Horas depois, Martínez Martínez agradece ao general a ajuda, confirmando que os voos foram aprovados. Calama qualifica estes factos como tráfico de influências.

Dinheiro do resgate e ligação venezuelana

A investigação tem ramificações que vão além de Espanha e da Venezuela. Segundo o despacho, haverá ligações com os governos da China e do Dubai, interessados no petróleo venezuelano, com Zapatero como intermediário, e o caso tem também uma frente aberta nos Estados Unidos, onde o dossiê Plus Ultra está igualmente em julgamento.

Há apenas quatro dias, o governo de Delcy Rodríguez entregou Álex Saab, um dos homens fortes do chavismo, para ser julgado em Miami por corrupção no programa de abastecimento alimentar venezuelano. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos indica que Saab recebeu mais de 500 mil dólares (430 mil euros) da Plus Ultra após o resgate da companhia aérea pelo governo espanhol e atribui-lhe o mesmo modus operandi que o juiz Calama imputa a Zapatero: uma complexa rede financeira destinada a branquear comissões.

Dos 53 milhões do resgate, segundo a investigação, uma parte terá ido para Saab, outra para Zapatero e outra para a Petróleos de Venezuela, com quem a companhia aérea mantinha uma dívida de vários milhões. Os três venezuelanos que controlavam a Plus Ultra operavam em Caracas com uma rede de contactos ao mais alto nível que incluía a mulher de Nicolás Maduro, Cilia Flores, a então vice-presidente Delcy Rodríguez e o próprio Saab.

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