Cabo Verde continua a surpreender noCampeonato do Mundo, somando um segundo empate, desta vez frente ao Uruguai, e confirmando o bom momento da seleção, quetem sido destaque pela organização, entrega e capacidade competitiva frente a adversários de topo.
Depois de um resultado histórico diante da Espanha, os Tubarões Azuis voltaram a mostrar qualidade e carácter, num jogo intenso, marcado também por um lance polémico envolvendo fair play.
Para analisar este desempenho e as ambições da seleção cabo-verdiana na competição, a DW África ouviu o jornalista cabo-verdiano Elves Neves.
DW África: Cabo Verde somou mais um empate, desta vez frente ao Uruguai. Como foi vivida esta noite em Cabo Verde e o que revelou este resultado sobre a seleção?
Elves Neves (EN): É um enorme prazer poder voltar a falar da seleção nacional, do feito que estamos a ter no contexto mundial nesta Copa do Mundo, pela forma como estamos a jogar, pela forma briosa como estamos a enfrentar as equipas. Enfrentámos duas seleções campeãs do mundo: Espanha e Uruguai.
No jogo com a Espanha, como foi falado por todo o lado, a qualidade defensiva de Cabo Verde, o controlo emocional num jogo bastante difícil, em que Cabo Verde pouco viu a bola, mas teve a capacidade de respeitar o adversário e lutar até ao fim, foi notável. Grande resultado. Foi histórico. Foi a primeira vez. Cabo Verde vibrou. Toda a nação, dentro e fora do país, vibrou.
E ontem também não fugiu à regra. No jogo com o Uruguai, foi uma festa enorme à noite, porque em Cabo Verde o jogo só terminou depois da meia-noite. Portanto, foi uma festa que durou a madrugada, porque foi o segundo resultado positivo. Num jogo em que Cabo Verde se soltou mais, já sabia que ia ser um jogo difícil pelo contexto do adversário. O Uruguai é uma seleção que obriga a qualquer equipa a disputar o jogo, porque é muito físico. Não controla o jogo com muita bola, mas traz a velocidade, o físico. E o jogo posicional do Uruguai é muito forte no meio-campo, com Bugarte e também com Fede Valverde, que são jogadores de enorme qualidade.
Portanto, um grande resultado. Cabo Verde desconcentrou na parte final da primeira parte, e falou-se muito também de fair play, ou não. Mas estamos numa competição em que vamos aprendendo com o tempo, porque todos querem vencer. O fair play é sempre muito importante, mas naquele momento não se pensou nisso. A desconcentração… acho que aprendemos com isso. Mas não fomos abaixo, fomos já a buscar força. Conseguimos chegar ao empate e ainda podíamos ter chegado à vitória.
Foi um momento vergonhoso para aquele jogador do Uruguai. A seleção uruguaia está a ser muito criticada pela falta de fair play. Porque ele, naquele momento, enquanto ser humano, poderia ter agido de outra forma. Estamos a falar de uma seleção que tem Bielsa como selecionador, um treinador muito correto, que tem deixado boa imagem daquilo que as suas equipas representam, a nível do fair play e do jogo jogado.
Eu acho que naquele momento o jogador, se calhar, vai fazer uma autorreflexão depois de ver as imagens, depois de ver todo o contexto. Porque na vida e no futebol não vale tudo. E naquele momento perdeu-se uma grande oportunidade de mostrar fair play. Quando o jogador cabo-verdiano estava debilitado fisicamente, ele podia ter agido de outra forma. E quem sabe, podia ser ele também a estar diminuído fisicamente naquele momento.
DW África: Onde é que esta seleção é mais forte? E acha que Cabo Verde passa à fase seguinte?
EN: A nossa seleção vale pelo seu coletivo. Já está provado. É claro que temos as nossas individualidades que podem, num lance ou noutro, conseguir fazer algo diferente. Mas vamos conseguir passar à próxima fase porque o nosso coletivo trabalha bastante bem, e essa é a identidade do povo cabo-verdiano: muita resiliência, muita luta e muita vontade de lá chegar.
Portanto, vamos lá chegar, porque sabemos da nossa qualidade. E sabemos o que está em jogo no jogo com a Arábia Saudita. Como já disse no final do jogo: sabemos que podemos seguir em frente. Temos a possibilidade de chegar à próxima fase. Vamos lutar e vamos tentar buscar a vitória diante da Arábia Saudita, que é também uma seleção muito boa e que merece o nosso respeito.
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