Um mês após eleição, disputa pelo 2º turno no Peru segue indefinida com mais de 99% dos votos apurados
Um mês após o primeiro turno das eleições presidenciais no Peru, em 12 de abril, ainda não há definição sobre quais candidatos vão disputar o segundo turno no dia 7 de junho. O candidato de esquerda Roberto Sánchez surge como o nome provável para enfrentar Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori. Com 99,68% dos votos apurados, a vantagem de Sánchez sobre o candidato de extrema direita Rafael López Aliaga é difícil de ser superada.
Com aproximadamente 60 mil votos ainda a serem contabilizados, Keiko Fujimori tem 17,17% dos votos válidos, totalizando 2.867.517. Roberto Sánchez está em segundo lugar com 12%, tendo conquistado 2.003.902 votos. Rafael López Aliaga está em terceiro lugar com 11,91%, após receber 1.989.428 votos.
A diferença entre Sánchez e López Aliaga é de pouco mais de 14 mil votos. Esse número só poderá ser revertido se o candidato da extrema direita obtiver um quarto dos votos restantes, e o de esquerda não aumentar sua porcentagem de votos, algo estatisticamente improvável. Na capital, Lima, a única região do Peru onde López Aliaga lidera com 20% dos votos válidos, restam apenas cerca de 16 mil votos para serem apurados.
No restante do país, o apoio ao ex-prefeito de Lima é notavelmente baixo. Em contraste, o apoio a Sánchez concentra-se principalmente em áreas rurais e se fortalece à medida que a votação se desloca para fora das cidades e centros urbanos.
Aliaga continua alegando fraude contra sua candidatura sem apresentar provas. Ele pressiona a Junta Nacional Eleitoral (JNE) para impedir a proclamação dos resultados e exigir uma auditoria internacional, o que alteraria o calendário eleitoral.
Aliaga afirma que foi deliberadamente prejudicado pelos atrasos na abertura das seções eleitorais em Lima devido à falta de materiais e diz que esses problemas logísticos impediram que milhares de eleitores saíssem sem votar. Mas diversas análises realizadas por grupos de observação eleitoral, como a Associação Civil Transparência, indicam que esses incidentes não afetaram o resultado final.
Apesar das irregularidades logísticas, todas as seções eleitorais conseguiram abrir em todo o país. Treze centros em Lima funcionaram no dia seguinte, pois não conseguiram abrir em 12 de abril por terem ultrapassado o prazo estabelecido pela legislação.
Pela quarta vez consecutiva, Keiko Fujimori chega ao segundo turno, após ter perdido em 2011 para Ollanta Humala; em 2016 para Pedro Pablo Kuczynski e em 2021 para Pedro Castillo.
Analistas afirmam que as eleições podem ser consideradas revanche da disputa de 2021. Sánchez concorre em nome de Castillo, que enfrenta uma pena de 11 anos e 5 meses de prisão por sua tentativa fracassada, em 2022, de dissolver temporariamente o Congresso e governar por decreto para implementar reformas em benefício do povo. Desde o início de seu mandato, o fujimorismo e seus aliados se opuseram às medidas e forçaram a destituição do ex-presidente.
Herança fujimorista
Nestas eleições, o fujimorismo, corrente que nasceu com o ditador Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 até sofrer impeachment em 2000, busca se reinventar nas eleições do Peru. Para Veronika Mendoza, ex-deputada e ex-candidata à Presidência da República, atualmente integrante do partido Nuevo Perú, o fujimorismo é o principal motivo da crise política peruana, que levou o país a ter nove presidentes nos últimos dez anos e, no pleito atual, a bater o recorde de 35 candidatos.
Ela diz que essa corrente política levou o Peru ao “neoliberalismo predatório, precariedade, caos e violência”.
“Embora seja verdade que, em 2000, o povo peruano derrotou o ditador Fujimori e que um trabalho significativo foi realizado em termos de justiça e memória, juntamente com algumas reformas, apesar de algumas políticas específicas, o sistema neoliberal imposto permaneceu praticamente intacto”, explica.
“Essa fragmentação não só ocorreu de fato, como também foi promovida por meio de uma política antirreforma que incentivou a proliferação de partidos e eliminou as eleições primárias, que teriam reduzido o número de candidatos”, pontua Mendoza em entrevista ao Brasil de Fato.
Crédito: Link de origem