Tecnologia que evita a venda de bilhetes a bots conquista Thirty Seconds to Mars | Inteligência artificial

Quem já tentou comprar bilhetes para o concerto de uma grande estrela conhece o calvário: os servidores bloqueiam, as entradas esgotam em minutos e, pouco depois, surgem no mercado de revenda a preços astronómicos. A culpa, em grande parte das vezes, é dos bots — programas informáticos programados para limpar as bilheteiras digitais mais rápido do que qualquer ser humano consegue clicar com o rato. Contudo, um evento recente em São Francisco, nos Estados Unidos, demonstrou que a tecnologia pode ter encontrado o antídoto para esta “praga”.

O concerto gratuito do DJ Pee .Wee, realizado na sala The Midway, serviu de palco para o baptismo de fogo do Concert Kit, uma ferramenta desenvolvida pela organização World. O sistema assenta na credencial World ID, uma espécie de passaporte digital que atesta que o utilizador por detrás do ecrã é, efectivamente, uma pessoa de carne e osso, e não um algoritmo manipulado por especuladores. O sistema funciona através da leitura, usando o telemóvel do utilizador, de documentos oficiais, como passaporte e cartão de cidadão. De acordo com a informação disponibilizada, a identificação World ID não partilha dados confidencias e os dados ficam armazenados exclusivamente no telemóvel do utilizador.

Os resultados práticos surpreenderam pela margem de eficácia: cerca de mil pessoas garantiram a sua entrada através da “validação de humanidade”, enquanto o sistema barrou, de forma automática, mais de 100 mil tentativas de acesso promovidas por computadores.

A grande inovação desta abordagem reside na superação dos métodos tradicionais de segurança. Até agora, as plataformas de venda dependiam de filtros de tráfego ou dos testes “​CAPTCHA — aqueles desafios visuais onde passamos minutos a identificar passadeiras, semáforos ou bicicletas. O problema é que os piratas informáticos criaram bots cada vez mais sofisticados, capazes de decifrar essas imagens num piscar de olhos.

De acordo com dados da empresa de cibersegurança Imperva, a automação já representa uns esmagadores 86,5% do tráfego nas plataformas de bilhética, sendo que um terço desse volume corresponde a acessos puramente fraudulentos. Ao exigir uma “prova de humanidade” inviolável antes de libertar o bilhete, o novo sistema cria uma barreira que as máquinas não conseguem contornar, devolvendo a lógica directa de acesso que caracterizava os espectáculos no passado.

Das salas independentes para os grandes estádios

A World, co-fundada por Sam Altman, Max Novendstern e Alex Blania, nasceu precisamente com a missão de criar uma rede global e inclusiva de humanos reais, blindando a sociedade digital contra os abusos da inteligência artificial. Se a experiência em São Francisco pareceu um teste de vão de escada, a verdade é que a indústria musical da linha da frente já está a tomar nota destas soluções.

A conhecida banda Thirty Seconds to Mars, liderada por Jared Leto, já anunciou que vai reservar uma quota substancial de bilhetes para utilizadores verificados por esta tecnologia na sua próxima digressão mundial, agendada para 2027, que vai passar por Portugal. No entanto, para já, não está prevista a utilização Concert Kit para o concerto agendado para Lisboa.

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