“A situação das crianças em Moçambique continua a ser profundamente marcada por crises sobrepostas: conflito armado, choques climáticos, surtos de doenças e pobreza que afetam simultaneamente a sobrevivência, a aprendizagem e a proteção das crianças”, avançou hoje à Lusa aquela agência das Nações Unidas.
Quando se assinala o Dia Mundial da Criança, o Unicef lembrou que cerca de 1,8 milhões de pessoas em Moçambique, incluindo um milhão de crianças, necessitam este ano de assistência urgente, num contexto de elevada vulnerabilidade climática e de segurança, alertando que “esta combinação de fatores torna a infância particularmente exposta a múltiplas formas de privação e risco”.
“Os principais desafios incluem a desnutrição, a pobreza, a violência contra crianças, o acesso desigual a serviços básicos e práticas nocivas como as uniões prematuras e a gravidez precoce”, assinalou, acrescentando que outros desafios graves incluem o conflito no norte, que mantém mais de 400 mil deslocados – mais de metade crianças – e os choques climáticos.
O fundo alertou ainda que 70% das escolas se encontram em zonas de alto risco climático, com as cheias recentes a afastarem milhares de crianças da escola e a aumentarem o risco de uniões prematuras, trabalho infantil e exploração.
“A violência também continua a ser uma preocupação séria: dados disponíveis indicam que uma em cada sete raparigas e um em cada 12 rapazes sofreu violência sexual antes dos 18 anos, enquanto quase uma em cada quatro raparigas e mais de um em cada três rapazes relataram violência física na infância. Além disso, 2,1 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar”, acrescentou.
Apesar dos enormes desafios, a agência da ONU descreveu que Moçambique registou avanços importantes em áreas essenciais para a infância, já que só no ano passado 19,3 milhões de crianças foram alcançadas em campanhas nacionais de vacinação contra a pólio e 2,97 milhões de raparigas vacinadas contra o HPV – Infeção por papilomavírus humano.
Na área da nutrição, 65.756 crianças foram tratadas por desnutrição aguda grave, com uma taxa de cura de 79% e na educação, 262.711 crianças tiveram acesso à aprendizagem em zonas afetadas por crises.
Em proteção social, foram registados 774.857 nascimentos, 276.337 crianças e cuidadores receberam apoio psicossocial e 392 crianças associadas a grupos armados beneficiaram de apoio à reintegração: “Estes resultados mostram que é possível gerar impacto concreto mesmo em contextos altamente complexos”.
Apesar dos avanços, o fundo alertou que as uniões prematuras continuam entre as áreas que exigem maior intervenção, num país onde quase metade das raparigas casa antes dos 18 anos, comprometendo a escolaridade e expondo-as à gravidez precoce: “As raparigas que têm filhos muito cedo correm maior risco de mortalidade materna, e os seus filhos têm maior risco de morrer, de sofrer desnutrição e de crescer também na pobreza, perpetuando o ciclo de privação”.
Para o Unicef, as prioridades de atuação passam por salvar vidas e assegurar a continuidade dos serviços essenciais para as crianças, sobretudo em contexto de emergência, incluindo o reforço da resposta nutricional, o acesso à saúde, educação, água potável e proteção, bem como a preparação para futuras crises.
“Em 2025, o Unicef alcançou 1,1 milhões de pessoas com resposta de emergência em Moçambique. Na área da água e saneamento, 723 mil pessoas beneficiaram de serviços de água em emergência, enquanto 204.726 pessoas passaram a ter acesso melhorado à água potável. Paralelamente, o Unicef continua a investir no fortalecimento dos sistemas públicos, em soluções digitais, mobilização comunitária e maior resiliência climática e social”, descreveu.
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