Engenheiro agrónomo de formação, Ricardo Machado foi trabalhar para a Herdade da Torre Bela porque a mulher de Avelino Neves de Carvalho reconheceu-lhe competência técnica e capacidade de trabalho. Mas Avelino tinha mais mundo do que a Torre Bela. Conhecia muito bem Angola e, em especial, o poderoso general João de Matos — um dos principais generais do MPLA na guerra civil contra a UNITA e que liderou a perseguição final a Jonas Savimbi.
Durante a guerra civil, Avelino Neves de Carvalho tinha feito muitos negócios com os militares do MPLA, o que implicava ter um acesso direto a João de Matos. Neves de Carvalho não andou propriamente na guerra nem lhe forneceu armamento militar, mas a ligação com Matos ficou para sempre. Terá sido Avelino Neves de Carvalho quem perguntou a Ricardo Machado se gostaria de conhecer o poderoso general angolano — que, entretanto, tinha criado o grupo empresarial Genius. Machado respondeu-lhe “sim” porque queria fazer ver a Angola que tinha muito a ganhar com o Protocolo de Quioto, nomeadamente com mecanismos como as novas licenças de carbono.
Em poucos minutos, num encontro nas Amoreiras, em Lisboa, Ricardo Machado expôs o seu ‘pitch’ ao general angolano e recebeu a sua guia de marcha: “Amanhã vais para Angola”. E Ricardo Machado, como bom soldado, foi. Já conhecia Angola de contactos esporádicos ocorridos entre 2006 e 2007.
O que é o mercado de licenças de carbono?
↓ Mostrar
↑ Esconder
↓ Mostrar
↑ Esconder
Em 1992, a Organização das Nações Unidas estabeleceu a meta de estabilizar os gases de efeito estufa na atmosfera. Esse compromisso consolidou-se em 1998 com o Protocolo de Quioto, que obrigou as nações mais industrializadas a reduzirem as suas emissões.
Para equilibrar a redução de emissões com o crescimento económico, criaram-se mecanismos como o mercado de carbono — ou comércio internacional de licenças de emissão.
Na prática, transacionam-se autorizações para poluir, permitindo lucrar com a venda dessas licenças. Cada crédito, que equivale a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2), funcionava como um qualquer ativo financeiro, transacionado como mercadoria.
O sistema obriga a que as entidades que excedem as suas quotas de CO2 a comprar créditos adicionais. Em contrapartida, quem reduz a sua pegada ambiental (como indústrias que utilizam energias renováveis) pode vender o excesso no mercado.
Em Luanda, foi negociador de Angola na COP de Bali em 2008 e, mais tarde, foi consultor do BES Angola precisamente para a comercialização das licenças de carbono, visto que o banco liderado por Sobrinho tinha-se tornado parceiro de Angola nessa área.
Bastaram-lhe poucos anos em Luanda para começar a aparecer na agenda de Ricardo Salgado — e em 2012, ano de todos os registos apontados por Salgado, isso não era para qualquer um, tendo em conta que o líder do BES estava no auge do seu poder. Estávamos ainda muito longe da queda de Salgado, que arrastou consigo o Grupo Espírito Santo (GES).
No mesmo ano em que as contas do BES Angola levantavam dúvidas, o nome de Ricardo Machado passou a surgir na agenda de Ricardo Salgado. Entre outubro e novembro de 2012, o empresário aparece referenciado quatro vezes nos registos do banqueiro, num período de crescente ansiedade do líder do BES com a situação em Angola.
Os registos, alguns dos quais apagados pelo próprio Ricardo Salgado mas recuperados através de perícias do Laboratório de Polícia Científica da Judiciária, permitem traçar uma cronologia dos registos:
-
26 de outubro de 2012: Ricardo Salgado anota na sua agenda a necessidade de “Confirmar vinda Ricardo Machado”. Esta nota surge no mesmo dia em que Salgado anota “Xizé-KPMG” (perto do período em que o BNA pressionava os auditores).
-
30 de outubro de 2012: Ricardo Machado, às 11h30 (apagado e recuperado pela perícia das autoridades)
-
2 de novembro de 2012: Salgado regista “Ricardo Machado – Cxxx”.
-
5 de novembro de 2012: Surge a instrução direta na agenda de Salgado, “Falar Álvaro – Ricardo Machado”, também apagada.
A agenda secreta do ainda Dono Disto Tudo mostra bem como Salgado reunia com as mais altas esferas nacionais e angolanas. Mais do que uma agenda com (poucos) eventos sociais e privados, a agenda de Salgado revelava a sua rede de contactos. Ou seja, Ricardo Machado conseguiu ter acesso (através de Angola) ao então homem mais poderoso de Portugal — algo que certamente não imaginaria quando partiu de Lisboa para Luanda.
O mais curioso é que “Angola” é uma das palavras com mais entradas na agenda de Ricardo Salgado: são mais de 100 menções diretas, sem contar com reuniões com personalidades angolanas. Desde conversas (telefónicas e pessoais) com os generais Kopelipa e Dino e Manuel Vicente (seus sócios no BES Angola), a reuniões com diversos embaixadores angolanos em países da União Europeia ou ao acompanhamento ao pormenor (como em quase tudo o que fazia) da atividade do BES Angola e de outras empresas do GES em Angola — tudo isso era feito com o profissionalismo e a atenção ao detalhe que caracterizava Salgado.
BESA. Sobrinho acusado de desviar 15 milhões de euros para o Sporting
Para se perceber as relações do líder da família Espírito Santo com o poder político angolano, é preciso recordar que os seus sócios angolanos no BESA eram nem mais nem menos do que as empresas de Manuel Vicente (então presidente da Sonangol e futuro vice-presidente de Angola) e os dois principais generais de José Eduardo dos Santos: Hélder Vieira Dias aka ‘Kopelipa’ e Leopoldino do Nascimento aka ‘Dino’. Eram os representantes da fação militar do MPLA – aquela que ainda é a mais poderosa do partido e de onde, por exemplo, o atual Presidente João Lourenço é oriundo.
Ricardo Salgado estava coligado com o poder político angolano ao mais alto nível.
São os representantes destes acionistas do BES Angola (Salgado, Vicente, “Kopelipa” e “Dino”) que vão determinar em dezembro de 2012 a saída de Álvaro Sobrinho da liderança da Comissão Executiva e a sua passagem à condição de chairman. Para o seu lugar entrou Rui Guerra, quadro do GES de confiança.
Fonte próxima de Ricardo Machado — que foi contactado pelo Observador mas não quis responder às perguntas do nosso jornal — garante que dos quatro registos escritos por Ricardo Salgado na sua agenda só se terá concretizado uma reunião. A mesma fonte não adianta uma data concreta, mas confirma que se verificou em 2012.
Ricardo Machado encontrou-se com Ricardo Salgado no famoso escritório no 15.º piso da sede do BES, na Av. da Liberdade, em Lisboa. Mas não esteve sozinho — esse privilégio ainda não era para ele. Machado foi acompanhado de João Moita, diretor de risco do BES Angola, enquanto Salgado estava acompanhado de Amílcar Morais Pires, então chief financial officer do BES e braço direito de Salgado, e de Rui Guerra. Mesmo assim, uma comitiva de peso, o que indicia a importância da reunião para os líderes do BES.
Crédito: Link de origem