“Portugal entrega amor”: a frase que ouvi em Nova Iorque

Em Nova Iorque, onde a voz de Alicia Keys parece ecoar em cada esquina, há corações por toda a parte. Não fosse o símbolo da cidade um coração, estampado no icónico “I Empire State of Mind, a canção que a eternizou como a “concrete jungle where dreams are made of“.

Cláudia Pinto

Considerações poéticas à parte, foi neste palco que a indústria portuguesa de calçado voltou a apresentar-se perante uma audiência internacional de especialistas, numa conferência organizada em parceria com a Business of Fashion. Num contexto global cada vez mais competitivo, Portugal mostrou aquilo que o distingue: capacidade produtiva, conhecimento técnico, criatividade e proximidade.

Entre os convidados esteve Patricio Campillo, designer mexicano que trabalha com as empresas portuguesas Mariano Shoes e Belcinto. Partilhando a sua experiência em Portugal, destacou as raízes culturais que aproximam Portugal e México, mas sobretudo a sensação de familiaridade e a empatia que encontrou nas empresas nacionais. Uma relação que, na sua perspetiva, ultrapassa a dimensão estritamente profissional.

Contudo, se dos oradores se esperavam as reflexões mais marcantes sobre o tema, foi na plateia que surgiu a observação mais memorável. Uma das participantes resumiu a sua perceção de forma simples e inesperada: “Portugal delivers love.”

A frase permaneceu na sala, e em todos, depois de terminada a sessão. Porque, para além da qualidade, da inovação ou do saber-fazer, talvez exista mesmo um elemento menos tangível que ajuda a explicar a crescente afirmação internacional da indústria portuguesa de calçado. E talvez até de Portugal. A empatia. A capacidade de criar relações genuínas.

Em última instância, aquilo a que poderíamos chamar, sem receio nem medos, amor. Um valor acrescentado invisível, mas profundamente presente em tudo o que se faz.

Paulo Gonçalves, em representação de Portugal e da indústria portuguesa de calçado, falou – sem medo – da palavra amor e de como as empresas nacionais olham para o produto além do produto físico, tendo consciência de que tudo é transitório e, por isso mesmo, merece muito cuidado. Um afeto incorporado no trabalho diário.

Ana Correa, especialista da WGSN, atalhou que atualmente, os produtores são mais do que produtores. É um trabalho conjunto para construir uma marca.

Talvez o que a participante identificou como amor seja, afinal, uma atenção ao detalhe. A disponibilidade para encontrar soluções, a proximidade entre equipas, a capacidade de ouvir e adaptar. Num setor onde a velocidade é muitas vezes valorizada acima de tudo, Portugal continua a acreditar que as melhores relações se constroem com tempo, confiança e compromisso.

Numa indústria dominada por escalas gigantescas e cadeias de fornecimento cada vez mais impessoais, Portugal afirma-se por uma lógica diferente. Não compete apenas pelo produto que entrega, mas pela forma como o entrega. Pela relação que estabelece. Pela confiança que constrói ao longo do processo.

E nesse aspeto, ouvir diretamente Patrício Campillo falar de familiaridade fez toda a diferença. É uma forma de estar, que resume um país onde a indústria continua a ser feita por pessoas, onde os negócios começam frequentemente com uma conversa e onde a dimensão humana permanece no centro da equação.

Em Nova Iorque falou-se de inovação, sustentabilidade, cadeias de valor e competitividade. Temas incontornáveis para o futuro da indústria. Mas, talvez a frase mais importante do dia tenha sido a mais simples. “Portugal delivers love.” E, num mundo cada vez mais automatizado, pode ser precisamente essa a nossa vantagem mais difícil de replicar.

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