O Peru encerra o primeiro semestre de 2026 com 25,7% da população em situação de pobreza, segundo o mais recente relatório do Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI). O índice representa mais de 8,8 milhões de pessoas sem condições de suprir plenamente suas necessidades básicas. A pobreza extrema atinge 4,7% dos peruanos, ou mais de 1,6 milhão de pessoas que não conseguem sequer comprar uma cesta básica de alimentos, enquanto a insegurança alimentar alcança 51,7% da população, afetando mais de 17 milhões de habitantes.
Os dados contrastam com a contrapropaganda oficial de “recuperação econômica” e revelam que a pobreza permanece 5,5 pontos percentuais acima do nível registrado antes da pandemia, em 2019. Mesmo com critérios oficiais insuficientes para medir toda a penúria vivida pelas massas, o levantamento mostra que o Peru segue entre os países da região com maior dificuldade de recompor seus indicadores sociais.
Enquanto a economia nacional apresentou um crescimento de 3,4% no último ano, impulsionado pelo setor mineral, voltado principalmente à exportação para as potências imperialistas, esse avanço não se traduziu em redução equivalente da pobreza. A pobreza extrema, segundo os dados, castiga 4,7% da população. São mais de 1,6 milhão de pessoas que não conseguem sequer comprar uma cesta básica de alimentos, fixada no valor de 260 soles mensais, equivalentes a cerca de R$ 379.
O abismo social é nítido nas regiões onde o latifúndio e a mineração, tidos como “indústria da riqueza nacional”, convivem com índices elevados de pobreza. Cajamarca, Loreto, Puno, Pasco e Huánuco mantêm taxas de pobreza superiores a 35%. Cajamarca lidera esse índice há uma década. Embora sua economia regional tenha saltado 7,5% no último ano, a agricultura, setor que sustenta a maioria das famílias de camponeses pobres, avançou apenas 1,9%. Javier Herrera, diretor de pesquisa do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), explica que “só porque o Produto Interno Bruto (PIB) departamental cresce não significa necessariamente que a renda das famílias aumente”, destacando que a mineração absorve muito pouco emprego e não beneficia os mais pobres.
Pichações em apoio ao Presidente Gonzalo e ao PCP aparecem em Huarmaca; velho Estado peruano suspende aulas – A Nova Democracia
A primeira consigna “Pelo Presidente Gonzalo” alertou aos informantes locais da polícia peruana para que abandonassem as atividades contrarrevolucionárias.
Regiões rurais concentram pobreza e falta de infraestrutura
A persistência da miséria aparece com força no campo do Peru, país majoritariamente rural e marcado por relações de produção arcaicas e semifeudais nessas regiões, com falta de infraestrutura, baixa produtividade agrícola e dependência de atividades extrativas voltadas à exportação. O problema agrário apresenta-se, principalmente, como o problema da extinção do feudalismo no Peru, uma tarefa que o velho Estado burocrático-latifundiário é incapaz de resolver.
Em Loreto, o isolamento geográfico e a falta de integração logística elevam os custos de vida e limitam qualquer desenvolvimento. Miguel Alzamora, economista do Instituto Peruano de Economia (IPE), destaca que a falta de estradas e infraestrutura de transporte impede a circulação de produtos. Esse abandono estatal planejado condena o departamento amazônico a ciclos de relações semifeudais, que, sem conectividade, a população de Loreto fica à mercê de preços abusivos e da ausência de serviços básicos.
Os indicadores sociais também mostram o peso da crise na educação e na saúde, pilares destruídos pelo gerenciamento de sucessivos governos de turno. Em regiões como Huánuco e Puno, deficiências educacionais graves persistem. Javier Herrera alerta que, em Cajamarca, mais da metade da população não concluiu o ensino fundamental, situação que pouco mudou em duas décadas. Somam-se a isso os altos índices de anemia e desnutrição infantil registrados no país, que atingem 43% das crianças nacionalmente e ultrapassam os 70% em algumas regiões.
Segundo a pesquisa ENDES (Encuesta Demográfica y de Salud Familiar) de 2024, a desnutrição crônica afetava 12,1% das crianças menores de cinco anos no Peru, um aumento de 0,6 ponto percentual em relação ao ano anterior. Esse retrocesso é acompanhado por uma insegurança alimentar que atinge 51,7% da população, mais de 17 milhões de pessoas. As famílias pobres são forçadas a dietas de subsistência, baseadas principalmente em alimentos mais baratos e pobres em proteínas e ferro. “Seus pratos carecem de alimentos ricos em ferro”, explica Jessica Huamán, coordenadora da Plataforma para a Segurança Alimentar (PSA), ressaltando que a falta de acesso à água potável e o esgoto a céu aberto perpetuam o ciclo de infecções e doenças.

Expressões de semifeudalidade no Caribe colombiano – A Nova Democracia
Latifúndio refere-se à concentração de muita terra em poucas mãos, grandes propriedades nas mãos dos latifundiários e ao caráter feudal dessa grande propriedade.
Lima concentra quase um terço dos pobres do Peru
Um fenômeno alarmante que ganha força em 2026 é a chamada “urbanização da pobreza”. Durante décadas, a miséria era associada quase exclusivamente ao campo peruano. Hoje, a capital, Lima, concentra 32,6% dos pobres do país. A taxa de pobreza em Lima Metropolitana em 2025 era quase três vezes maior que em 2016. Atualmente, há mais pessoas vivendo na miséria em Lima do que em toda a área rural do Peru. A insegurança calórica (famílias que não consomem o mínimo necessário para sobreviver) é maior na capital (41,6%) do que nas áreas rurais (30,4%).
Um relatório da ONG Oxfam, apresentado noFórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, revela que o Peru possui uma fortuna concentrada de US$ 3,1 bilhões nas mãos de bilionários, enquanto a pobreza e a insegurança alimentar seguem elevadas. A desigualdade é tão profunda que, na América Latina, a riqueza dos magnatas cresce a uma taxa 16 vezes maior do que no resto do mundo. A Oxfam revela que, enquanto a fortuna dos milionários cresce em média US$ 491.198 por dia, o trabalhador médio ganha apenas US$ 4.815 por ano. Ou seja, um empregado precisaria trabalhar 102 anos para ganhar o que um magnata ganha em apenas 24 horas.

Abstenções, brancos e nulos são os verdadeiros vencedores da farsa eleitoral no Peru – A Nova Democracia
A farsa eleitoral peruana de 2026 contou com o recorde de 36 candidatos, em cédulas maiores que uma caixa de pizza.
Quase metade das famílias em situação de pobreza extrema em Lima relata ter tido que reduzir porções, pular refeições ou passar dias inteiros sem comer. Essa realidade escancara que os programas sociais, desenhados para o campo e que já falham por lá, também não conseguem atender plenamente à população urbana. Embora as transferências governamentais tenham impedido que a pobreza fosse 7,2 pontos percentuais maior, seu alcance não retornou aos níveis pré-pandemia. Além do mais, as transferências não alteram as bases da insegurança alimentar de milhões de peruanos, em um contexto de política de arrocho fiscal subordinada aos compromissos financeiros do velho Estado.
A crise no Peru não se limita à esfera social, mas alcança todo o regime político. Em uma década, o país teve nove presidentes, marca que expressa a instabilidade crônica do velho Estado e as fraturas entre as frações das classes dominantes reacionárias – grandes burgueses e latifundiários serviçais do imperialismo, principalmente ianque. A sucessão de governos de turno não conseguiu reimpulsionar o capitalismo burocrático, reestruturar o velho Estado com centralização efetiva no Executivo nem conjurar a rebelião popular, evidenciando uma crise generalizada de decomposição do capitalismo burocrático peruano.
A crise geral também se expressou no rechaço ao regime político no primeiro turno da recente farsa eleitoral peruana. Nenhum candidato à presidência alcançou sequer 20% dos votos válidos, ficando abaixo da soma de votos nulos e brancos, que somaram mais de três milhões de pessoas. Dos 27,3 milhões de aptos a votar, mais de seis milhões não compareceram às urnas.

Pôster ‘Todo o poder aos Sovietes!’
Impressão em Papel Couche 250g Tamanhos Disponíveis: A3 (29,7 x 42 cm) – Perfeito para destaque na parede. Atenção: Não acompanha moldura ou suportes. Nota s…
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