Pelo menos 55 mortos em violência ligada a boatos em Moçambique

“Tivemos um total de 55 óbitos, tivemos 111 feridos, entre graves e ligeiros, num total de 132 casos [de violência]. O trabalho feito pela polícia resultou na detenção de 149 cidadãos”, disse hoje à comunicação social Joaquim Sive, comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM), durante uma visita à província de Gaza, sul de Moçambique.

As superstições sobre o alegado atrofiamento, encolhimento e até desaparecimento de órgãos genitais, a partir de um toque de alguém, tiveram início em 18 de abril, na província de Cabo Delgado, tendo-se posteriormente espalhado para outras regiões do país e para as redes sociais.

Segundo o comandante-geral, não existe qualquer mecanismo que permita atrofiar órgãos genitais por contacto físico, como tem sido alegado, afastando a possibilidade de ocorrerem através de um simples toque ou aperto de mão.

“Qualquer que seja a morte, é preocupação nossa. E quando uma morte é violenta, essa preocupa não só a polícia, mas a todos os órgãos da Administração e da Justiça”, assinalou o comandante da polícia moçambicana.

Os dados avançados pela PRM surgem num contexto em que informações divulgadas nas últimas semanas por autoridades locais em várias regiões do país somam 61 mortes associadas à circulação desses rumores, entretanto classificados na quinta-feira como “boatos e mentiras” também pelo Presidente moçambicano, Daniel Chapo, que sublinhou não existir qualquer registo de casos clínicos.

“Estamos à procura de uma pessoa só como prova de ter desaparecido os seus órgãos sexuais ou ter-se atrofiado como resultado de alguém o ter cumprimentado ou (…) tocado. Não existe”, declarou o chefe de Estado, na província de Tete.

“É tudo boato, é tudo mentira e as pessoas estão a agredir outras pessoas, estão a linchar pessoas, estão a matar pessoas com base no boato e não constitui nenhuma verdade”, frisou Chapo.

Especialistas moçambicanos defenderam, em declarações à Lusa, uma análise do contexto social que alimenta as superstições, procurando identificar a “quem convêm” mitos que nascem da “histeria social”.

“São doenças que nascem da histeria social, ou seja, tudo que eu desconheço, levo a questão do sobrenatural para a coisa. Numa perspetiva antropológica é preciso entender em que contexto surge, quais são os atores envolvidos e a quem convém que isso continue dessa forma”, disse à Lusa o antropólogo moçambicano Alberto Chimoio.

Segundo o académico, é necessário estudar os grupos sociais envolvidos nessa superstição e perceber o contexto.

Já o sociólogo Roque Tembo, salientou a importância de compreender o fenómeno numa perspetiva histórica, sublinhando que, antes das atuais crenças sobre o alegado desaparecimento de órgãos genitais, já se tinham registado outras manifestações semelhantes.

Defendeu que a solução também passa por voltar à raiz do problema e “entender primeiro os valores culturais, a própria sociedade, a cultura no todo da população e acompanhar a dinâmica social”.

Especialistas de saúde reiteram que os rumores não têm base científica, sendo os casos associados a stress, medo e perceções erradas.

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