Para quem é Portugal? – Observador

Segundo as artes místicas da ciência política, os governos existem para representar e servir os cidadãos. Mas o que é que acontece quando os governos deixam de servir os cidadãos? Acontece Portugal.

Em Portugal não há infantários para crianças. Não há casas para os jovens. Não há vagas nos lares para os idosos. As políticas fiscais sufocam quem cá nasceu e beneficiam quem nunca cá viveu. Os incentivos económicos ignoram quem cá quer ficar e vão para quem vem de fora. E os portugueses? Os portugueses ficam na praia a sorrir e a acenar.

Esta situação pode parecer bizarra. Como é que um país e os seus sucessivos governos podem sistematicamente continuar a ignorar os portugueses? Para quem é que passam os dias a trabalhar, a debater no parlamento, a desenhar projetos-lei e políticas públicas, quando nenhuma delas aborda os problemas dos seus cidadãos? A resposta é simples. O público-alvo de Portugal não são os portugueses. Não é para eles que os políticos trabalham.

Mas se Portugal não é para os portugueses, então para quem é?

O que é Portugal

Antes de mais, é importante perceber o que é Portugal. Portugal, ao contrário do que se acredita e do que se aprende na escola ou Wikipedia, não é um país. É um produto de exportação. Não vendemos apenas vinho, cortiça, pastéis de nata e programas de domingo à tarde. Vendemos o país inteiro. E em desconto.

Em teoria, um país existe para os seus cidadãos. Tem responsabilidades e tem deveres, tal como o cidadão. Tem de garantir habitação, saúde, educação, futuro. Tem de proteger os seus.

Um produto existe para ser vendido. Tem de ser competitivo, atrair compradores, gerar receita. Se os compradores forem estrangeiros ricos, melhor ainda.

A melhor analogia é pensar em Portugal como um bar aberto ou um buffet all-you-can-eat. Ou um resort de luxo com desconto para hóspedes VIP. É só que os portugueses não estão na lista de convidados.

O verdadeiro público-alvo deste país é mais chique que o contribuinte médio. É o cidadão estrangeiro, o fundo de investimento internacional, o nómada digital, o reformado importado, o turista endinheirado. Para esses temos tudo do bom e do melhor. Para esses os nossos governantes trabalham arduamente para atrair e satisfazer. Para esses temos todos os serviços disponíveis, basta clicar num botão. Naturalmente, o website não tem versão em português.

Enquanto isso, um jovem português licenciado, que trabalha, paga impostos e contribui para a Segurança Social, não consegue arrendar uma casa. Quanto mais comprá-la. Mas um reformado de outro país europeu, que nunca descontou um euro sequer para os cofres portugueses, pode comprar três apartamentos em Lisboa e arrendá-los a preços absurdos.

Faz sentido? Claro que não, mas é a realidade. Portugal decidiu que é mais rentável para as contas públicas servir estrangeiros ricos do que portugueses comuns, mesmo que isso hipoteque o nosso futuro coletivo.

Jovens sem casa, idosos sem lar

O problema óbvio desta política é que tem consequências nefastas para os portugueses, especialmente sentidas pelos extremos da pirâmide etária.

Os jovens não têm onde viver. As rendas consomem salários inteiros e comprar casa tornou-se num ritual de humilhação, numa fantasia reservada a herdeiros ou aos poucos emigrantes que regressam. O resto fica em quartos partilhados, casas dos pais, ou debaixo da ponte.

Os idosos também não têm onde envelhecer. As listas de espera para lares públicos são intermináveis e cada vez maiores. Os lares privados custam fortunas. Entretanto, as residências seniores estão a ser ocupadas por estrangeiros endinheirados que podem pagar literalmente qualquer coisa.

Segundo dados recentes, um terço das residências seniores em Portugal já acolhe utentes estrangeiros. Os preços continuam a subir. E os portugueses? Os idosos portugueses ficam em casa dos filhos. Ou os filhos ficam em casa dos pais. Ou todos ficam amontoados, regressando aos bons, velhos tempos em que o homo sapiens vivia em clã dentro de uma só caverna.

O trabalhador, o pior cliente de Portugal

Se há uma categoria de pessoas que Portugal trata especialmente mal, são os trabalhadores.

Português que trabalha paga impostos. Os impostos têm a sua utilidade, financiam bens essenciais como saúde pública, limpeza das ruas, e festas da terrinha. O problema é que o Português que trabalha ganha como um pobre e paga impostos como um rico. O estado agradece a contribuição, mas quando chega a altura de retribuir já é mais complicado.

Entretanto, quem não é de cá tem um tapete vermelho estendido desde o aeroporto.

A mensagem é difícil de ignorar. Ser trabalhador português é ser um indesejável. És útil para pagar impostos, mas és demasiado pobre para ser cliente. Não és o público-alvo.

Portugal quer turistas, não residentes. Quer investidores, não contribuintes. Quer mão de obra barata, não valorizar os que já cá estão. Quer consumidores estrangeiros, não nacionais.

E enquanto isso, continuamos a ouvir que é preciso atrair investimento estrangeiro. Que a economia precisa de capital externo. Precisa de atrair talento (enquanto expulsa os mais talentosos). Que os incentivos fiscais têm de ser competitivos.

Competitivos para quem? Certamente não para quem cá vive, trabalha e paga impostos.

Ninguém se queixaria se o investimento estrangeiro beneficiasse os portugueses. Infelizmente não é esse o caso. Faria demasiado sentido.

Para quem NÃO é Portugal

Já percebemos para quem é Portugal: para quem vem de fora.

Mas vale a pena ser explícito sobre para quem NÃO é: Não é para o jovem licenciado que ganha 1200 euros e paga 900 de renda. Não é para a enfermeira que trabalha 12 horas por dia e não consegue comprar casa. Não é para o engenheiro que emigrou porque cá não há futuro. Não é para a idosa que espera há três anos por uma vaga num lar público.

Não é para quem nasceu cá, cresceu cá, estudou cá, trabalha cá, paga impostos cá.

Portugal não é para portugueses. Portugal é para clientes. E os portugueses, infelizmente, não têm dinheiro suficiente para serem clientes.

Isto pode parecer paradoxal e suicida para qualquer partido de governo, mas há uma lógica implacável a trabalhar nas sombras. A simples realidade é que um turista é capaz de gastar mais num fim de semana do que um português gasta numa semana inteira. Um nómada digital financia mais os cofres do estado que o portugues médio, e paga mais por um apartamento do que um jovem português alguma vez conseguirá. Um investidor compra mais imóveis do que uma família portuguesa consegue sonhar.

Portanto, economicamente, tem uma certa lógica perversa. Tudo isto contribui para aumentar o PIB, mesmo que os cidadãos tenham cada vez menos. Ignorar os portugueses e servir os estrangeiros é simplesmente sensato para equilibrar as contas do estado.

O problema é que um país não é uma empresa. E cidadãos não são clientes. Mas ninguém parece ter informado o governo.

Um exemplo do estado das coisas

Se parece que estou a inventar e a dramatizar, não se preocupe. Tenho provas.

Eric van Leuven, presidente da Associação Avenida, falou recentemente com o ECO e deixou clara a sua visão para a Avenida da Liberdade: “Há espaços mais adequados para celebrações do que a Avenida da Liberdade”.

Na entrevista fica claro para quem é (e para quem não é) uma das maiores e mais históricas artérias do país. Deixo abaixo algumas citações elucidativas do senhor.

E para quem acha que isto é só um problema desta avenida chique e da capital que se desengane. É este o plano para o país inteiro. Este senhor apenas cometeu o erro de o dizer em voz alta.

Sobre as tão incomodativas celebrações da plebe portuguesa: “Não são só os festejos de futebol. Há muitas manifestações, muitos eventos desportivos e muitas celebrações que obrigam ao fecho de lojas. Isso tem obviamente um impacto negativo.”

Sobre o público-alvo da Avenida. Nota a ausência de alguém? “Com as novas marcas que vão entrar, crescerá não só em número de compradores, mas também em número de visitantes. Mas não podemos esquecer outra população muito importante para a Associação: as empresas e os escritórios.”

Sobre aqueles pequenos negócios chatos dos velhotes (o que falta é mais croquetes enfeitados a 100€): “Os quiosques são hoje muito semelhantes entre si e acho que falta variedade e qualidade. O JNcQUOI, ao lado do Tivoli, está a construir um quiosque que será certamente um espaço muito qualificado”

Sobre a beleza da Avenida (os portugueses ficam a ver à distância, fora de uma muralha que será construída para não incomodarem muito): “A Avenida tem uma matéria-prima belíssima. É uma das avenidas mais bonitas do mundo: pelas árvores, pela largura dos passeios laterais, pela relação com o Parque Eduardo VII. Vista de cima, é uma fotografia belíssima.”

Sobre o respeito pela tradição estética e autenticidade portuguesa: “Se [a Avenida] for igual à Calle Serrano, em Madrid, ou à Avenue Montaigne, em Paris, não me importo nada.”

Afinal, o que fazer?

Se calhar devíamos implementar uma ideia radical: o público-alvo de Portugal devia ser os portugueses.

Não xenofobicamente, mas preferencialmente. Os cidadãos devem ser a prioridade, tudo o resto secundário. Os trabalhadores deviam ter acesso a habitação antes dos investidores e estrangeiros. Os idosos portugueses deviam ter vagas nos lares antes dos reformados imigrados. Os jovens que aqui cresceram deviam ter futuro antes dos nómadas digitais.

Isto não é populismo, é o mínimo dos mínimos que um país deve aos seus cidadãos.

Mas enquanto continuarmos a vender Portugal ao melhor licitante, enquanto continuarmos a tratar o país como produto e os cidadãos como irrelevantes, nada vai mudar.

É preciso uma nova força política para pôr um fim à vandalização de Portugal, já que os atuais não querem saber. Um movimento pragmático e ambicioso, com gente nova e competente. Infelizmente, o mais provável é terem emigrado todos.


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