Odara – #OpiniãOdara – A Pressão de Existir: Hipertensão, Racismo e a Vida das Mulheres Negras

Com maior exposição à violência e à precariedade, mulheres negras lideram os índices de adoecimento. A hipertensão reflete um contexto de estresse crônico e negação de direitos.

O racismo atravessa todos os segmentos da nossa vida. Quando denunciamos isso, estamos falando de impactos nas questões financeiras, no acesso à educação, à alimentação e até mesmo na saúde emocional e física. No Brasil, a população negra é a mais afetada pela hipertensão, uma condição que atinge quase 30% dos adultos no país. Segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, ela ocorre com ainda mais frequência entre mulheres negras.

A narrativa médica tradicional costuma classificar a hipertensão como uma doença “altamente prevenível”, baseada em “modificações no estilo de vida”. No entanto, essa abordagem desloca a responsabilidade para o indivíduo e invisibiliza os determinantes estruturais da doença. Estudos mostram que mulheres negras com hipertensão frequentemente vivenciam sentimentos de vergonha, constrangimento e medo de julgamento, associando a doença a uma suposta falha individual.

O estigma da doença emerge como efeito desse contexto, produzido por discursos que responsabilizam as mulheres negras, ao mesmo tempo em que ocultam o racismo, a sobrecarga de trabalho e as desigualdades no acesso à saúde. Dessa forma, o que se interpreta como “não adesão ao tratamento” pode, na verdade, refletir um contexto em que o cuidado é atravessado por culpa, julgamento e condições materiais que limitam escolhas reais.

A ideia de “escolha individual” como critério de saúde, portanto, se revela insustentável, quando observamos as condições concretas de vida das mulheres negras. Desse modo, como podemos falar em “escolhas saudáveis” quando o próprio poder de escolha nos foi roubado pela exploração e pelo racismo? Como exigir que mulheres negras façam atividades físicas regulares quando estão submetidas a escalas de trabalho 7×0 ou 6×1, muitas vezes fazendo “bicos” no seu único dia de folga para compensar um salário que mal cobre o básico?

O tempo que a medicina tradicional afirma que deveria ser destinado ao “autocuidado” ou ao “lazer” simplesmente não existe, ele foi confiscado pela necessidade de sobrevivência e pela sobrecarga do cuidado, já que mulheres negras representam 69,9% no serviço doméstico ou de cuidados no Brasil. A pressão alta da mulher negra não é resultado de “falta de força de vontade”, é a resposta biológica de um corpo lutando para não ser esmagado por um sistema violento.

VIOLÊNCIA DE ESTADO E SEUS EFEITOS NAS MATERNIDADES NEGRAS

Imagine viver em constante estado de medo e estresse. Ouvir um barulho qualquer na rua e imaginar que é uma operação policial invadindo sua casa. Receber a notícia de um jovem baleado e imediatamente pensar nos seus filhos e sobrinhos que ainda não chegaram em casa.

Em Salvador, essas cenas não são meros exercícios de imaginação, é cotidiano. Dados indicam que 81% do ano letivo de escolas públicas é afetado por tiroteios em seu entorno. O mais estarrecedor é que 43% desses tiroteios nas proximidades das escolas ocorrem durante operações policiais. Como uma mãe pode ter a pressão arterial controlada quando a simples ida do filho à escola se transforma em uma roleta russa institucionalizada?

O Instituto Odara denunciou, por meio do documento “Quem vai contar os corpos?”: Dossiê sobre as mortes de crianças negras como consequência da atuação da Polícia Militar da Bahia, que a letalidade policial e o extermínio da juventude negra produzem um impacto devastador na saúde física e mental das mães negras e familiares. Entre os familiares acompanhados pelo projeto “Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar”, há quadros de hipertensão, diabetes, infertilidade, reumatismo e câncer. Essas doenças são retratos da somatização de um luto atravessado pela violência contínua, pela ausência de justiça e pela responsabilidade permanente de sobreviver ao trauma. O sofrimento de ter perdido um filho ou filha, além do adoecimento mental, é um adoecimento físico que se agrava a cada dia sem resposta do Estado.

A pergunta “quem cura a dor das mães negras?” expõe uma realidade: o sofrimento das mulheres negras não termina com a perda, mas se prolonga no tempo, atravessado pela negligência do Estado e pela necessidade de seguir lutando por memória e justiça. Esse processo produz um desgaste físico e emocional contínuo, que impacta diretamente a saúde. Nesse contexto, a hipertensão não pode ser compreendida apenas como uma condição individual ou como resultado de hábitos de vida. Ela é, também, a expressão de um corpo submetido ao medo constante, à violência estatal e à impossibilidade de elaborar o luto em condições dignas. É impossível falar em controle da pressão arterial em territórios onde o Estado produz, cotidianamente, as condições do adoecimento.

MORTALIDADE MATERNA E A EXPECTATIVA DE VIDA ROUBADA

O racismo age para nos eliminar. Ele nos cerca, nos limita e não nos permite viver em plena saúde, mesmo sem apontar a arma. Os dados comprovam essa letalidade silenciosa. No Brasil, a expectativa de vida de uma mulher negra é de 76 anos, enquanto a de uma mulher branca ultrapassa os 80 anos. Quatro anos de vida roubados pelo racismo. Esse processo não começa na gestação, é construído ao longo da vida. Como vimos, a violência de Estado, o medo constante, o luto e a sobrecarga produzem um desgaste contínuo nos corpos das mulheres negras, tendo a hipertensão como uma de suas expressões mais recorrentes.

Na saúde materna, a tragédia se repete e também se torna letal. Segundo os dados do Ministério da Saúde (2023), enquanto a mortalidade materna por hipertensão caiu entre mulheres brancas (-6%) e indígenas (-30%) na última década, ela aumentou 5% entre as mulheres pretas. Mulheres negras também representam 60% do total de mortes maternas no país, e estima-se que 92% da mortalidade materna são evitáveis. A hipertensão, nesse contexto, se torna um dos principais mecanismos pelos quais a violência estatal se traduz em morte. Ela, ao aumentar o risco de complicações como pré-eclâmpsia, eclâmpsia e acidente vascular cerebral (AVC),  transforma a gestação, que deveria ser um processo de cuidado e continuidade da vida, em um campo de risco permanente para mulheres negras.

No entanto, essas mortes não são inevitáveis. Diretrizes do cuidado obstétrico no Brasil demonstram que a mortalidade materna pode ser significativamente reduzida por meio de ações como diagnóstico precoce, acompanhamento adequado no pré-natal e tratamento oportuno das síndromes hipertensivas. Dessa forma, quando mulheres negras morrem por complicações hipertensivas na gestação, estamos diante de mortes evitáveis, produzidas por um sistema que falha em garantir acesso, qualidade do cuidado e resposta adequada às necessidades das mulheres.

Além disso, mulheres negras diagnosticadas com pressão alta antes dos 35 anos têm o triplo de risco de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) na meia-idade, o que evidencia que esse processo não se encerra na gestação, mas atravessa todo curso da vida. O mesmo Estado que produz o medo, o luto e o adoecimento na vida das mães negras também falha em garantir condições seguras para que mulheres negras possam gestar e parir.

DESMEDICALIZAÇÃO E BEM VIVER COMO HORIZONTE PARA A SAÚDE DAS MULHERES NEGRAS

É impossível pensar na dificuldade que mulheres negras enfrentam para controlar a pressão arterial, mesmo com uso de medicamentos, sem considerar os efeitos do racismo, do sexismo, da violência policial e da escala de trabalho exploratória. Nesse sentido, a desmedicalização da vida se apresenta como uma crítica à centralidade exclusiva do modelo biomédico e à sua incapacidade de responder às múltiplas dimensões do adoecimento, e não como negação do cuidado em saúde.

Desmedicalizar é reconhecer e valorizar os saberes ancestrais, as práticas comunitárias e as formas coletivas de cuidado historicamente construídas por mulheres negras. Esses saberes sustentam estratégias de sobrevivência, cura e resistência nos territórios, mesmo diante da ausência ou da violência do Estado.

Se desejamos viver com saúde, é preciso a garantia de condições concretas de existência: viver com segurança, dignidade e acesso a direitos básicos como educação, trabalho digno, saneamento e lazer. Precisamos do direito de ver nossos filhos crescerem vivos e livres, estudando em escolas que não sejam alvos de operações policiais, sem que a maternidade, o cuidado e o trabalho signifiquem um atestado de adoecimento crônico.

Assim, pensar saúde em sua totalidade exige disputar modelos de sociedade que rompam com as estruturas que produzem adoecimento e afirmam outras formas de viver e cuidar. É nesse horizonte que se inscreve a sociedade do Bem Viver como projeto político coletivo das mulheres negras, na qual se tornam possíveis vidas com saúde, segurança e dignidade.  Seguimos em Marcha, imaginando e construindo uma sociedade em que as condições sociais e estruturais das vidas de mulheres negras não nos adoeçam.

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