OCDE corta previsão de crescimento para Portugal e alerta para impacto da crise energética na economia
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) reviu em baixa as suas previsões para a economia portuguesa, passando a apontar para um crescimento de 1,8% em 2026, menos quatro décimas do que estimava em dezembro.
No mais recente relatório de perspetivas económicas, divulgado esta quarta-feira, a instituição com sede em Paris prevê ainda uma nova desaceleração da atividade económica em 2027, ano em que o Produto Interno Bruto (PIB) deverá crescer 1,7%.
A revisão acompanha várias instituições nacionais e internacionais, mas deixa o Governo português isolado entre as principais entidades económicas ao manter uma previsão de crescimento mais otimista, de 2%.
A OCDE passa assim a alinhar-se com as projeções do Banco de Portugal (1,8%), enquanto o Fundo Monetário Internacional aponta para 1,9%, a Comissão Europeia para 1,7% e o Conselho das Finanças Públicas para 1,6%.
A organização justifica a revisão em baixa com a deterioração do contexto internacional, marcada pelo conflito no Médio Oriente e pelo impacto da crise energética nos mercados globais.
Segundo a OCDE, a evolução da guerra tornou-se o principal fator de risco para a economia mundial, provocando um choque nos preços da energia que está a alimentar novas pressões inflacionistas e a travar o crescimento económico.
“O mundo entrou em 2026 com um impulso robusto, mas as perspetivas enfraqueceram significativamente desde o início do conflito no Médio Oriente”, afirmou o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann.
Num cenário considerado mais favorável, em que as perturbações energéticas sejam temporárias, a economia mundial deverá crescer 2,8% em 2026 e 3,1% em 2027. Caso os constrangimentos persistam até 2027, o crescimento global poderá cair para 2,1% este ano e 1,8% no próximo.
Inflação deverá atingir 3,2% em Portugal
A OCDE prevê que a inflação em Portugal suba para 3,2% este ano, impulsionada sobretudo pelo aumento dos preços da energia. O organismo considera que os efeitos da subida dos custos energéticos se irão propagar por toda a economia, pressionando preços em diversos setores.
Ainda assim, identifica vários fatores de suporte à atividade económica nacional, nomeadamente a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a robustez do mercado de trabalho, os cortes permanentes de impostos e as medidas temporárias de apoio às famílias e empresas.
O investimento deverá beneficiar particularmente da execução do PRR, com a OCDE a antecipar um crescimento de 5,2%.
Já as exportações deverão continuar condicionadas pela fraca procura externa em 2026, embora a instituição espere uma recuperação gradual ao longo de 2027.
Contas públicas melhoram e défice fica afastado este ano
Apesar da revisão em baixa do crescimento económico, a OCDE melhorou significativamente as suas projeções para as contas públicas portuguesas.
A organização passou a prever um saldo orçamental nulo este ano, em linha com a meta estabelecida pelo Governo, abandonando a previsão de um défice de 0,6% que tinha apresentado em dezembro. Para 2027, a estimativa aponta para um ligeiro défice de 0,1%.
A dívida pública deverá continuar a trajetória descendente, passando para 90% do PIB este ano e para 87,1% em 2027.
No entanto, a OCDE alerta que a manutenção dessa tendência exigirá uma utilização mais eficiente dos recursos públicos.
“A garantia de uma trajetória sustentada de redução da dívida pública exigirá uma maior eficiência da despesa”, sublinha o relatório.
OCDE recomenda reformas na despesa, trabalho e habitação
Entre as recomendações deixadas a Portugal, a OCDE destaca a necessidade de reforçar a formação profissional, aumentar a participação dos trabalhadores mais velhos no mercado de trabalho e melhorar a qualidade da despesa pública.
O organismo defende a limitação das opções de reforma antecipada e uma reorientação das políticas de emprego para programas de qualificação e formação.
Nas finanças públicas, sugere a consolidação de prestações sociais sujeitas a condição de recursos, a redução de benefícios fiscais e o reforço dos impostos recorrentes sobre a propriedade.
A organização considera igualmente prioritário simplificar os processos de licenciamento na construção e reduzir barreiras à entrada em setores como o comércio e os serviços, medidas que poderiam aumentar o investimento e impulsionar a produtividade.
Na área energética, a OCDE recomenda uma maior diversificação das fontes renováveis através de calendários previsíveis para leilões de energia e admite que, à medida que os preços estabilizem, Portugal poderá reforçar a tributação ambiental, desde que sejam protegidos os grupos mais vulneráveis.
Segundo a instituição, o crescimento sustentado da produtividade, o aumento da taxa de emprego e uma gestão mais eficiente da despesa pública serão determinantes para responder ao envelhecimento da população e às necessidades de investimento futuras, mantendo simultaneamente a dívida pública numa trajetória de redução.
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