Em agosto do ano passado, publiquei uma coluna aqui titulada “A seleção precisa de Neymar”. Meu argumento era que Ancelotti deveria convocá-lo para analisá-lo de perto e saber como ele estava.
Eu continuo achando que a seleção, naquele momento, precisava desesperadamente do Neymar. O problema é que, quase um ano depois, tenho a impressão de que Neymar também achava isso e sempre teve a certeza absoluta de que em algum momento ele seria chamado. E, como em toda sua carreira, ele fez o mínimo. Como se tivesse direito adquirido a uma vaga na seleção. E quem pensa assim não precisa se esforçar ao máximo para (re)conquistá-la.
Por mais que eu admitisse que não esperava uma mudança de perfil do Neymar enquanto ele estivesse cercado pelos mesmos amigos, estafe e discursos paternalistas, imaginei que a volta dele ao Santos seria encarada com mais compromisso e seriedade.
LEIA MAIS: Shakira anuncia música oficial da Copa do Mundo 2026; veja prévia de ‘Dai Dai’
LEIA MAIS: Atletas da Bielorrússia têm restrições suspensas pelo COI; russos seguem competindo com bandeira neutra
Que, por mais imaturo e mimado, o “Menino Ney” entenderia — entre uma madrugada de pôquer e outra— que o verdadeiro sacrifício de ser um atleta profissional não é aquele que aparece nos sites de fofoca ou redes sociais.
Principalmente para um atleta que, teoricamente, sonhava ir à Copa com 34 anos depois de uma serie de lesões catastróficas. O corpo não responde da mesma forma, e o atleta não pode viver da mesma forma.
Mas Neymar parece só ter entendido isso há algumas semanas, quando o tempo já estava acabando. Como um aluno que deixa para estudar na véspera da prova, ele tem tentado correr desesperadamente atrás do prejuízo. Só que, pelo visto, o corpo não responde. E quando essa ficha cai para um cara com o dom do Neymar, o impacto psicológico e emocional é devastador.
E os sinais de frustração acabam surgindo em forma de brigas com colegas, discussões com torcedores, desabafos misóginos… triste fim de carreira pra um dos maiores talentos que vi jogar de perto na minha vida.
Vira e mexe o Neymar fala com desgosto sobre a cobrança em cima dele fora das quatro linhas. Reclama, diz que é uma “pessoa normal”, que tem direito de fazer o que quiser no tempo livre. Um dia desses fez até analogia a outras profissões, perguntando se você trabalha na sua folga.
Eu lembrei imediatamente de declarações quase idênticas de David Villa, campeão mundial com a Espanha em 2010, e do nove vezes campeão de motociclismo Marc Márquez. Quando perguntados sobre o “sacrifício” de ser atleta profissional, eles se irritaram e responderam com um ditado bem espanhol: “Sacrifício é trabalhar em uma mina de carvão.”
Desde cedo, um atleta precisa ter bem claro que terá de levar uma vida diferente da de uma pessoa ‘normal’, que terá de renunciar a muitos caprichos e tentações se quiser continuar tendo um bom desempenho no longo prazo. E muitos, como Márquez e Villa, veem isso como um tremendo privilégio e abraçam esse compromisso com seriedade e dedicação.
Porque esse tal sacrifício do dia a dia, que começa na pré-temporada e é feito em silêncio, longe dos holofotes e sem retorno imediato, é o mais difícil pra um atleta.
Dormir bem, comer bem, viver em função de que seu instrumento de trabalho, seu corpo, possa funcionar da melhor maneira possível. O resultado não é palpável nem garantido.
Talvez, mesmo fazendo tudo certo desde que voltou ao Santos, o corpo não tivesse respondido. Não sabemos. Só sabemos que o Neymar, hoje, não só não tem a menor condição de jogar uma Copa do Mundo como parece nem ter capacidade para compor elenco. Isso é tão claro que o Ancelotti nem precisou convocá-lo. E chamá-lo agora seria uma tremenda contradição.
Crédito: Link de origem