No Vinhos de Portugal no Brasil, Júlio sente-se “como uma criança na Disneylândia” | Iniciativa

Júlio Roberto Levy olha em redor e exclama: “Isto aqui é quase um Shangri-La, isto quase não existe.” Há pelo menos seis anos que Júlio frequenta o Vinhos de Portugal no Brasil e a conversa com o PÚBLICO acontece no segundo dia do evento no Rio de Janeiro, onde atraiu 11 mil pessoas — este ano, aquele que é o maior evento de vinhos portugueses no Brasil, uma iniciativa dos jornais PÚBLICO, O Globo e Valor Económico, no Brasil, em parceria com a ViniPortugal e curadoria da Out of Paper, arrancou em São Paulo (de 28 a 30 de Maio, no shopping J.K. Iguatemi) e seguiu para o Rio (de 5 a 7 de Junho).

“Estamos aqui no Jockey Club, um dos endereços mais bonitos do Rio de Janeiro, e eu me sinto como se fosse uma criança que os pais tivessem levado para a Disney”, confessa o brasileiro, amante de vinhos e já grande conhecedor. “É o evento melhor arquitectado e planeado em torno do vinho no calendário da cidade. Não há nada que se compare. Mesmo países que têm uma presença no mercado avassaladora, como o Chile e a Argentina, não fazem nada sequer parecido. Portugal faz-se representar no Brasil de uma maneira regular, perene, com muita qualidade e diversidade de produtores e de rótulos.”

Ao lado de Júlio, na Área de Convivência do Jockey Club — o evento divide-se entre esta área exterior, com actividades como o espaço Tomar um Copo e o Portugal à Prova, dedicado ao turismo e à cultura, com, entre outras coisas, provas de azeite, conservas e queijos, o Salão de Degustação, com 80 produtores, e a Sala de Provas guiadas por críticos portugueses e brasileiros — está Luís Pato, o histórico produtor da Bairrada.

Esta proximidade com os produtores é uma das coisas que mais agrada ao brasileiro. “Normalmente os eventos de vinhos são um pouco impessoais, tem alguém apresentando o vinho que pode até ter feito o trabalho de casa, mas não é o [António] Maçanita, não é o Luís Pato, e isso faz toda a diferença. Estou falando com o cara que botou a mão na massa, que sujou o pé de lama, que viu aquele ano ser difícil, que teve geada, que sofreu com a colheita, é esse cara que está aqui, do outro lado do balcão.”



Três produtores no Rio: da esquerda para a direita, Luís Lourenço (Quinta dos Roques), Anselmo Mendes e Luís Pato
Cortesia O Globo

Carlos Agrellos, da Quinta da Romaneira, no Douro, está no evento pela primeira vez (no Rio, o Vinhos de Portugal vai já na 13.ª edição) e reconhece o valor único dessa proximidade entre produtor e consumidor final. “Aqui é normal pedirem-nos para assinar garrafas, uma coisa que acontecia há muitos anos noutros países, acontecia na China no início, mas que eu já não via há muito tempo. No Brasil, no final das provas oficiais, vêm a correr pedir-nos para assinar os rótulos.”

Aquilo que viu nestes dias, primeiro em São Paulo e depois no Rio, permite-lhe já tirar uma conclusão: “O Brasil parece ser ainda o grande país das oportunidades para as exportações portuguesas.” Mas a persistência é essencial. “Está aqui um contingente português muito grande. É preciso manter este espírito vivo.” Até porque, ao contrário do que parece ser a tendência em muitas zonas do mundo tradicionais consumidoras de vinho, aqui “há um aumento significativo do interesse”.



Durante uma das provas dos Vinhos de Portugal no Rio de Janeiro
Cortesia O Globo

Paulo Nunes, enólogo da Casa da Passarella e da Quinta Dona Sancha, que esteve pela primeira vez em São Paulo e pela segunda no Rio, considera que o Brasil é um país extremamente heterogéneo e que as duas cidades representam dois públicos diferentes. “Em São Paulo, o público é mais especialista; no Rio há um lado informal, que eu acho que é fundamental para o sector dos vinhos. Temos de começar a construir pela base e as pessoas que encontramos no Rio têm um lado mais desprendido e, ao mesmo tempo, muita curiosidade relativamente aos vinhos portugueses.”

Enquanto enólogo do Dão, na Quinta Dona Sancha, surpreendeu-se pela quantidade de pessoas que que lhe fizeram perguntas sobre a casta Encruzado. “Isso era impossível há cinco anos”, assegura. “E para a região do Dão é algo muito motivador e um sinal do que estes eventos têm conseguido. Foi semear, semear, semear e agora começamos a colher.” O importante, acredita, é adaptar a linguagem. “O pior que podemos fazer é não conseguir passar uma mensagem. Não podemos ter arrogância técnica quando falamos para um público que quer conhecimentos mais sociológicos, mas temos de saber falar também para aqueles que querem um bocadinho mais de ciência.”



No Salão de Degustação havia centenas de rótulos de 80 produtores
Cortesia O Globo

“Sentar e tomar uma taça de vinho”

A 13ª edição do Vinhos de Portugal acontece no ano em que acaba de entrar em vigor o acordo entre a União Europeia e o Mercosul e esse acabou por ser tema de algumas conversas. Será que o acordo, que prevê uma redução gradual das tarifas sobre o vinho português que entra no Brasil, irá ter um impacto positivo rápido? Essa é a pergunta que fazem Denise Espíndola Matos e Louise Luz, duas médicas, fãs de vinho português, que estão a assistir ao evento em São Paulo.

Denise explica que a sua paixão pelo vinho vem do facto de trabalhar muito. “Para mim, um dos momentos mais gratificantes é chegar ao fim de um dia em que estou cansada ou tive de fazer um diagnóstico difícil, e poder sentar a tomar a minha taça de vinho. Isso dá-me muita alegria.” Louise acabou por se encantar com o vinho por causa da amiga. “Sempre fui do mundo da cerveja, tomava vinho muito raramente. Agora estou-me descobrindo no vinho e já tomo mais vinho do que cerveja.” Quanto ao Mercosul, têm esperança de que o acordo se reflicta nos preços dos vinhos, tornando-os mais acessíveis e democráticos.



A 13ª edição do Vinhos de Portugal no Brasil contou com três dias em São Paulo e três dias no Rio
Cortesia O Globo

Carlos Agrellos tem algumas dúvidas de que o efeito seja evidente, pelo menos para já. Teme que essa redução (de 3% ao ano até eliminar os 27% de imposto) “possa não ter grande efeito”, até porque “essas pequenas margens podem-se manter na distribuição” não tendo grande impacto no preço final dos vinhos. Paulo Nunes tem a mesma impressão. “Tenho conversado com importadores que trabalham aqui e a minha impressão é que os impostos vão cair muito lentamente.”

Apesar disso, e perante a contracção do consumo a nível mundial, “os dados que temos é que este é um dos poucos mercados que vai dando sinais positivos”, sublinha Paulo Nunes. “Olhamos para outros e o que vemos assusta-nos, obviamente. Começamos a pensar que se calhar não é pontual, é estrutural, e que vamos ter de nos adaptar a uma nova realidade que aí vem. O Brasil é dos poucos mercados que está em contraciclo com o mundo e isso implica investimento da nossa parte e valida os eventos que estamos a fazer aqui, no Rio e em São Paulo.”



Não é só vinhos, destacam-se também outros produtos de Portugal, incluindo provas de azeites (na foto), queijos e conservas
Cortesia O Globo

Este ano, o Vinhos de Portugal no Brasil teve uma participação maior do que em anos anteriores do Turismo de Portugal e dos Turismos do Porto e Norte, do Centro de Portugal e do Alentejo. A programação deu uma visibilidade não só aos destinos e rotas turísticas em Portugal mas também a aspectos da cultura portuguesa —​ a arquitectura, com Nuno Sampaio da Casa da Arquitectura, Guilherme Wisnik (que foi co-curador da exposição Complexo Brasil, na Fundação Gulbenkian), e o poeta Eucanãa Ferraz, a poesia portuguesa na Música Popular Brasileira, com Rosiska Darcy de Oliveira, e também, entre outros, provas de azeites, queijos e conservas com o crítico do PÚBLICO Edgardo Pacheco. A destacar também que, pela primeira vez, integrou uma mini edição do festival português de comida de fogo Chefs on Fire, com os chefs Nelson Soares (Sult, Rio e Cascais), Ana Moura (Lamelas), Gil Fernandes (Fortaleza do Guincho) e André Cruz (Feitoria).



GIl Fernandes, da Fortaleza do Guincho, num momento do mini festival dos Chefs on Fire no Rio
Cortesia O Globo

O Vinhos de Portugal tem a participação do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, o apoio do Turismo de Portugal, das Comissões dos Vinhos de Lisboa, Dão, Alentejo, Vinhos Verdes, das Agências Regionais de Promoção Turística Centro de Portugal, do Porto e Norte e do Alentejo — co-financiados pela União Europeia através do programa COMPETE 2030, Quinta do Paral e queijos Président. A companhia aérea oficial é a TAP Air Portugal.

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