Quando li a notícia do falecimento da poeta são-tomense Conceição Lima, soltei a xícara de café com folga no pires e um silêncio largo tomou meu mundo. Senti meu coração pequeno caído dentro do peito.
Ao longo da vida, eu sempre trouxe o susto de receber a notícia do falecimento de minha avó. Uma mulher viva, hoje com 101 anos e gozando de boa fala, que sempre assombra a família anunciando sua própria morte, fazendo cenas de despedidas e distribuição de bens.
Não sei em qual momento essa narrativa de morte passou a cercar-se tanto dela. Talvez tenha sido após o falecimento do meu avô, seu companheiro de vida e meu parceiro de poesia.
A primeira vez que li um poema de Conceição Lima, fui feliz. “Enquanto falavas/ os matizes do mar, dos mangais, dos arrozais/ sustentavam no arco-íris o teu sorriso.” Senti alguma coisa diferente na junção de imagens que ela realizava naqueles versos. Parecia que eu era uma expatriada da África Central, das Ilhas de São Tomé e Príncipe, que recebia uma carta de casa e a notícia era boa.
Com a escrita de Conceição Lima, eu aprendi a reimaginar as histórias oficiais. Cheguei a sua obra primeiro pelos livros “O País de Akendenguê” e “A Dolorosa Raiz do Micondó”, este publicado no Brasil pela Geração Editorial. A partir desses títulos, fiquei sua leitora e com ela entendi que escrever é acreditar na reconstrução de territórios.
Há mais de 15 anos, trago comigo esses dois exemplares. Mudei muitas vezes de casa, cidade, estado e esses livros sempre estiveram à mão. Uma máquina de datilografia Olivetti, um santo Cosme e Damião, que ganhei de minha avó, e os dois livros da escritora africana Conceição Lima: são a parte mais valiosa do meu espólio.
Talvez pela viva influência de seus versos em meus romances, eu nunca tenha imaginado a notícia de sua morte. Ela me enganou com seus poemas. Sempre pensei que nos encontraríamos.
Como é voluntariosa a morte. Afastou de mim esse projeto tão desejado, que seria um dia encontrar a escritora que tenho como referência de estilo. Toda pessoa que escreve ficção deve ler poesia. A poesia motiva a escrita, o amor, o sorrir, alivia um choro, questiona, expõe o nó de uma saudade, faz silêncio.
Se tudo seguisse como planejado, eu iria a São Tomé e diria: irmã, obrigada, suas palavras me inspiram a escrever.
A América tem tanto a agradecer à África, eu penso. A literatura de Conceição Lima faz essa ponte, reimagina nossos passados semeando liberdades. “Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:/ a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.”
Um dia, queria chegar às Ilhas de São Tomé e Príncipe e reconhecer o mar azul que a moveu a reconstruir imagens sobre as violências coloniais que a nossa história de formação carrega, fantasiando fugas e liberdade.
Hoje, não posso dizer que esse sonho acabou, pois a poesia não morre, ela é tempo presente. Acredito nas palavras e, por isso, pensei que uma forma de fazer meu coração diminuído pela notícia voltar a crescer no peito fosse escrevendo sobre ela. E por isso estou aqui.
Meu avô entenderia, foi com ele que aprendi a escutar a palavra. Após o seu falecimento, há muitos anos, nossa casa fez muito silêncio. E dias depois, quando fomos abrir seu principal embornal, encontramos em lugar de documentos de propriedade um poema transcrito a mão. Naquele momento minha casa passou do silêncio ao riso.
Uma pessoa que escreve poesia é como uma criança, nunca deveria partir. Por isso, quando vai, silencia o mundo. Conceição Lima escreveu: “Quando tomba um caminho/ Os meninos do meu país desenham colinas sobre as ondas”, e isso é infinito. Boa viagem, poeta, obrigada.
Conceição Lima nasceu em 8 de dezembro de 1961 e morreu em 15 de maio de 2026. Formou-se em jornalismo em Portugal e licenciou-se com distinção em estudos africanos pelo King’s College London. Foi jornalista da BBC e é a poeta mais traduzida da literatura santomense. Com refinamento, sua poesia versa sobre memória e colonialismo.
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